Como se Thomas Mann escrevesse em português

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Gilda Lopes Encarnação demorou cerca de ano e meio a traduzir "A Montanha Mágica". Está actualmente a traduzir "Os Buddenbrook"

Não tarda nada, "A Montanha Mágica" faz 100 anos e só agora surge pela primeira vez em Portugal numa tradução directa do alemão, sem passar por nenhum intermediário. A versão disponível desde os anos 50 era a tradução feita para o Brasil por Herbert Caro, judeu alemão exilado em Porto Alegre, publicada pela Livros de Brasil (que também editou as traduções de Caro de outros dois romances de Mann, "Os Buddenbrook" e "Doutor Fausto"). Uma tradução "meritória" e "competente no que toca à compreensão do original", avalia o escritor e ensaísta Frederico Lourenço. "Mas não é de forma alguma uma obra de arte em língua portuguesa. Isso é que fazia falta." Gilda Lopes Encarnação, tradutora da nova edição, com selo da Dom Quixote, diz que a versão que já existia "não é má porque não é errónea". Aponta-lhe "omissões, lacunas, pequenos esquecimentos", mas "o principal problema é estilístico, talvez pela proximidade que o tradutor tentou manter em relação à língua alemã. Quase que reconhece a língua de partida, mas é preciso fazer um esforço para se perceber o que quer dizer em português". A nova tradução, encomenda da Dom Quixote, tomou-lhe cerca de ano e meio, e Gilda Lopes Encarnação está actualmente a traduzir, para a mesma editora, "Os Buddenbrook". Sobre "A Montanha Mágica", diz: "O meu objectivo foi que a obra se lesse com a mesma naturalidade e fluência com que o leitor de expressão alemã lê a obra." Missão cumprida: o que uma não-leitora de alemão pode dizer é que nunca lhe ocorreu, nesta "Montanha Mágica", que estava a ler uma tradução.

Frederico Lourenço considera que "o humor requintadíssimo" de "A Montanha Mágica" é "intraduzível" (o que não o impediu de, em 2005, propor a sua tradução à Cotovia, antes de descobrir que os direitos já tinham sido comprados pela Dom Quixote). Gilda Lopes Encarnação garante que o original alemão "não resiste de forma nenhuma à tradução". O que não quer dizer que não tenha enfrentado desafios: a escrita de Mann, nota, "é muito idiossincrática" - "há até dicionários da terminologia" específica do escritor -, para além da descrição minuciosa que faz de personagens e paisagens. Tradutora de Hoffmanstahl e Celan, além de filosofia alemã (Habermas, em particular), Gilda Lopes Encarnação faz também parte da equipa liderada por João Barrento que está a trabalhar na tradução das obras de Robert Musil. Leitora de português na Universidade de Salzburgo entre 1997 e 2003, convidou José Saramago em 1999 para dar ali uma conferência, viagem que acabou por inspirar o último romance do escritor, "A Viagem do Elefante".

A "sua" "Montanha Mágica" é uma tradução para acabar com todas as traduções daquele romance? "Nenhuma tradução é definitiva", responde, e diz que "a situação desejável" para a edição de Mann em Portugal "seria aquela que acontece com Musil: uma equipa e uma coesão no trabalho dessa equipa, que debate e esclarece dúvidas entre si".