Morreu João Bénard da Costa

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Manuel Roberto

A notícia foi confirmada ao PÚBLICO pelo sub-director da Cinemateca, Pedro Mexia (cronista deste jornal). Mexia assumiu o cargo de director interino da Cinemateca, depois de Bénard da Costa se ter submetido a uma operação a um cancro, no início deste ano.

A Cinemateca Portuguesa anunciou em comunicado que o corpo do seu director, João Bénard da Costa, estará na Igreja de S. Sebastião da Pedreira, em Lisboa, ao final da tarde de hoje. Numa última homenagem ao cinéfilo que dirigiu a instituição desde 1991 (e que era membro da direcção desde 1980), a Cinemateca - que suspende hoje as suas sessões - vai projectar, em data e hora a anunciar, o filme da vida de Bénard: Johnny Guitar, de Nicholas Ray. Num inquérito de jornal em que lhe pediam para dizer qual o seu filme preferido, Bénard respondia: "Johnny Guitar", de Nicholas Ray; porque era ele; porque era eu".

"Os filmes da sua vida e o seu filme da vida não se distinguiam, e traziam sempre ecos afectivos, memórias culturais, reflexos dos debates que também viveu", escreve a direcção da Cinemateca no comunicado. "João Bénard da Costa viu muitos filmes, todos os filmes, uma vida inteira de filmes, mas também via sempre filmes que mais ninguém via, porque neles descrevia o que lá estava e não estava, isto é, aquilo que não era aparente e óbvio antes de o lermos nos seus textos".

O texto recorda também que Bénard "sempre deu a ver os filmes que amava e os outros também, porque a História do Cinema é inclusiva e não exclusiva". E sublinha que ao longo das três décadas em que foi subdirector e depois director da Cinemateca "nunca abandonou esse credo fundamental de dar a ver e de ensinar como se vê. De descobrir e dar a descobrir".

João Pedro Bénard da Costa, licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas, foi um dos fundadores da revista "O Tempo e o Modo", dirigiu o Sector de Cinema do Serviço de Belas-Artes da Fundação Calouste Gulbenkian e presidia à Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal.

João Bénard da Costa dedicou-se ainda à crítica e ao ensaio, tendo participado como actor em vários filmes, grande parte dos quais de Manoel de Oliveira.

Pelo trabalho à frente da Cinemateca, Bénard da Costa foi condecorado em Setembro passado pelo ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, com a medalha de mérito cultural.

Na última crónica que escreveu para o PÚBLICO, datada de 7 de Dezembro de 2008, João Bénard da Costa refere, em tom autobiográfico, já no final do texto, intitulado "Tempo Turvo: regresso a Crisitina Campo": "Nesta crónica, se falei noutra coisa, foi só porque me distraí muito. Dos meus defeitos, talvez seja o maior".

Reacções de pesar sucedem-se

O presidente do Centro Nacional de Cultura (CNC) classificou hoje de "perda irreparável" a morte de João Bénard da Costa, apontando-o como "uma referência fundamental da cultura portuguesa". Guilherme d´Oliveira Martins recordou que Bénard da Costa foi "um dirigente activo" do CNC no princípio dos anos 1970 e um "grande escritor"

"Era um homem de talento e sabedoria", sublinhou, lembrando ainda que foi, com Alçada Baptista, "uma das almas da revista 'O Tempo e o Modo'".

"A Cinemateca Portuguesa foi a sua paixão. Legou-nos aí um trabalho fundamental", sublinhou ainda, indicando que a "melhor homenagem que lhe devemos é não deixar cair os seus projectos ligados à aproximação do público em relação à história do cinema, que se confunde com a história do mundo no último século. Os seus textos sobre literatura e sobre as artes são referências. Era um grande amigo".

Também o realizador João Mário Grilo lamentou hoje a morte de João Bénard da Costa, "uma figura decisiva na preparação de Portugal para a democracia".

"Somos um país carenciado de exemplos de pessoas que sacrificaram a vida por uma causa pública e por valores essenciais", sublinhou João Mário Grilo, enaltecendo a importância de João Bénard da Costa para lá do cinema.

"A presença de Bénard da Costa não se esgota aí. Foi uma figura fundamental e insubstituível", referiu o realizador.

Para João Mário Grilo, a Cinemateca Portuguesa "é uma das heranças de João Bénard da Costa em Portugal e a nível internacional. Tudo o que aconteceu lá resultou de uma relação de amor".

O produtor Paulo Branco também lamentou, aos microfones da Antena 1, a morte de Bénard da Costa: "Ele foi um divulgador, um impulsionador, um protector. Ele foi tudo no cinema em Portugal. É uma pessoa que foi imprescindível para que possamos hoje em dia ter o conhecimento da obra cinematográfica da maior parte dos grandes autores do cinema mundial". "A minha existência no cinema deve-se a João Bénard da Costa", sublinhou o produtor, citado pela Lusa, referindo que foi graças a Bénard da Costa que "muitas gerações viram cinema em Portugal". "Ele institucionalizou a Cinemateca, que foi essencial no fascínio que o cinema exerceu sobre nós", disse ainda Paulo Branco, citado pela agência noticiosa.

O ensaísta Eduardo Lourenço lamentou igualmente o desaparecimento de João Bénard da Costa resumindo numa breve declaração a ideia que tinha do presidente da Cinemateca: "Morreu o senhor Cinema Português".

Eduardo Lourenço lembrou que conheceu Bénard da Costa quando colaborou na revista "O Tempo e o Modo", na qual o presidente da Cinemateca Portuguesa "era um dos principais animadores, ao lado de António Alçada Baptista". Desde então, o ensaísta, embora residindo em França há muitos anos, acompanhou o percurso de Bénard da Costa, e tornou-se amigo da família. Destacou ainda que Bénard da Costa "foi também um grande ensaísta e revelou-se, no últimos anos, um cronista de rara qualidade".

Óbito/Cinema: Academia de Belas Artes manifesta pesar pela morte de "grande figura da cultura portuguesa"

Academia de Belas Artes manifesta pesar

A Academia Nacional de Belas Artes manifestou hoje pesar pela morte de João Benard da Costa, descrevendo-o como uma "grande figura da cultura portuguesa".

Numa nota enviada pelo presidente da Academia, António Valdemar, o presidente da Cinemateca, Bénard da Costa é recordado pela "notável proficiência intelectual e cívica que marcou decisivamente várias gerações".

António Valdemar aponta ainda que Bénard da Costa pertencia há muitos anos à Academia Nacional de Belas Artes, instituição cuja colaboração "honrou".

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