Um homem cercado de livros

É um bibliógrafo compulsivo. Colecciona livros, mas também documentos, panfletos, cartazes, postais, cassetes. Tem mais de cem mil títulos arrumados em quilómetros de prateleiras em várias casas na Marmeleira. E uma impressionante base de dados sobre quase tudo o que possui. Pacheco Pereira está a ponderar criar uma fundação. E só lamenta que não haja mais investigadores a aproveitar a sua jóia. Por São José Almeida (texto) e Enric Vives-Rubio (fotos)

a No centro desta sala podia estar um sofá, podia estar uma mesa. Está uma cama. Uma lindíssima cama do século XIX, de espaldar alto e de corpo e meio. É nela que José Pacheco Pereira descansa, quando se distrai com as horas, entusiasmado pelo trabalho, e percebe que já é tarde. Opta por dormir aqui mesmo, na cama que está instalada no seu gabinete de trabalho (e cuja fotografia não autoriza), em vez de percorrer o labirinto de divisões forradas de estantes que o conduzem de novo à casa-mãe da sua propriedade na aldeia da Marmeleira, perto de Rio Maior. É na Marmeleira que desde há cerca de uma década vem instalando a sua biblioteca-arquivo, actualmente com cerca de cem mil títulos, centrada sobretudo na História Contemporânea e Política, mas que vai muito para além disso, porque há também edições do século XVI.O seu gabinete de trabalho é uma sala de cerca de 50 metros quadrados de chão, toda forrada de livros até ao tecto, arrumados em prateleiras de madeira, com acesso pelo piso térreo ou pela varanda, tipo mezzanine, que está construída em todo o redor. Uma varanda que de um dos lados se prolonga até um terço do espaço para receber a secretária de Pacheco Pereira. Mais os seus computadores, onde tem conseguido construir uma monumental base de dados - mais de 30 mil entradas - que serve de ponto de partida aos seus trabalhos. E que alimenta o site Ephemera, Biblioteca e arquivo de José Pacheco Pereira (http://ephemerajpp.wordpress.com/).
Uma mesa como Soljenitsin
Mesmo ao lado da secretária está uma mesa enorme, que serve para fazer a triagem dos livros e dos documentos que vão entrando na casa quase diariamente. "Quem tinha uma mesa assim era Alexandre Soljenitsin, eu vi e desde então quis ter uma." É aí que Pacheco Pereira faz a divisão dos materiais - à média de "um metro por semana", vê o que precisa de ser restaurado, os que estão atacados pelo bicho do papel ("vão para o congelador para matar o bicho") -, engraxa as encadernações de pele com graxa ou creme Nívea. Depois digitaliza os documentos e, por vezes, os livros inteiros. É a imagem digitalizada do frontispício dos livros que serve de ponto de partida a todo o tratamento que é feito na base de dados.
Estes cerca de 50 metros quadrados são a base das operações que ocupam muitas das horas do dia e da noite de Pacheco Pereira. Uma tarefa que o absorve e que disputa na sua vida o tempo que precisa de dedicar à sua tese de doutoramento em História Contemporânea de Portugal pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e do Emprego (ISCTE). Um trabalho igualmente ciclópico, sobre a extrema-esquerda e os movimentos radicais entre 1960 e 1974, que "tem já seis mil páginas escritas, é uma enciclopédia sobre o assunto, que está já na fase de ser cortada".
O próprio Pacheco Pereira confessa que muito do trabalho que investe na organização da sua biblioteca-arquivo lhe serve depois para o seu trabalho académico, para as obras de que é autor - como é o caso da biografia de Álvaro Cunhal - e até para os artigos de opinião na comunicação social, como os do PÚBLICO. E afirma mesmo: "Perco dois terços do meu tempo a organizar e um terço a utilizar."
É no seu gabinete de trabalho que faz a catalogação, hoje apenas digitalizada. Longe vai o tempo em que fazia fichas. A catalogação é feita de acordo com um sistema próprio, que parte "das regras gerais mas está adaptado às necessidades específicas" do trabalho e dos materiais em causa. Já para a catalogação de recortes usa o sistema do antigo semanário O Jornal, que aprendeu com Maria João Múrias, que basicamente consiste em colocar os artigos em pastas, arrumadas por ordem alfabética segundo o tema.
Depois de catalogados e digitalizados, os volumes ou os documentos vão para as respectivas prateleiras. Mas passam a ser também utilizáveis na base de dados onde estão arrumados por entradas e de acordo com várias palavras-chave. As entradas da base de dados, por sua vez, estão divididas em vários núcleos: a biblioteca, o arquivo (inclui vários subnúcleos que são os arquivos oferecidos), os periódicos (inclui os panfletos), as entidades emissoras (por exemplo, Centro de Documentação 25 de Abril, PCP, etc.).
Trata-se de um trabalho de minúcia e de atenção. E Pacheco Pereira afirma que já teve tarefeiros para o ajudar, mas desistiu. Razões: "Um papel numa pasta errada fica perdido, nunca mais se sabe dele. Até porque, como está quase tudo digitalizado, raramente volto às pastas."
A biblioteca-arquivo de Pacheco Pereira deve ser hoje em dia uma das maiores bibliotecas privadas existentes em Portugal. E é muito provavelmente a única biblioteca privada especializada em História Contemporânea e em História Política que está num tal grau de informatização.
Ora a complexidade desta biblioteca-arquivo, onde Pacheco Pereira reconhece que investiu e investe rios de dinheiro - "Nunca gastei dinheiro como gasto com isto!" -, leva às perguntas seguintes: não será que a obra ultrapassou já o criador? Não será que a tarefa é demasiado ampla para uma só pessoa? Pacheco Pereira reconhece que está a ser ultrapassado pela realidade em que se tornou a sua biblioteca-arquivo e admite que está a ponderar a criação de uma fundação, a que doe as instalações, os livros e os documentos.
Mania de família
É também, seguramente, a obra de uma vida. Pacheco Pereira conta que começou a interessar-se por livros aos 12, 13 anos e comprou os primeiros volumes seus por volta dos 15 anos. E explica que nasceu e cresceu com uma biblioteca, a do pai, acrescentando mesmo que a mania de coleccionar livros é de família. "O meu pai tem uma boa biblioteca, já o meu avô e o meu bisavô coleccionavam livros, são quatro gerações a coleccionar livros, mas esses ainda estão em casa do meu pai."
O espírito de coleccionador fez com que fosse guardando todos os papelinhos, seus e dos outros. Tem, por exemplo, as suas notas pessoais das reuniões da comissão política, no tempo da direcção de Cavaco Silva (1985-1995). Mas também guardou as notas que os outros dirigentes iam deixando em cima da mesa. Uma documentação que permite reconstituir muitas das decisões da direcção daquele partido nesse período.
Hoje, nem todos os livros e documentos que tem são por si comprados, embora continue a fazê-lo, às vezes até "ao quilo, ao preço do papel apenas". Mas não frequenta fisicamente os leilões - o que compra em leilões, reconhece, é através de intermediários.
A mediatização da sua figura, enquanto publicista, ex-dirigente do PSD e antigo deputado à Assembleia da República e ao Parlamento Europeu, contribui para que várias pessoas lhe façam doações. Recebe desde materiais dispersos de propaganda política que as pessoas têm em casa, esquecidos no fundo das gavetas, a bibliotecas inteiras e arquivos. E, quando assim é, trata de manter esses núcleos originais juntos na catalogação da base de dados. "Ainda recentemente um senhor me doou a biblioteca do avô, dizendo que o fazia porque sabia que assim seria mantida em conjunto", explica.
À espera dos investigadores
Assim, como a sua biblioteca-arquivo recebe doações, ela está aberta aos outros e disponível para consulta. "Sempre que alguém quis fazer um trabalho em matérias que esta biblioteca serve nunca a fechei. É claro que está aberta à consulta com as contingências e os horários de uma casa particular que é também."
Esta disponibilidade para o exterior leva a que muitos volumes e materiais saiam com frequência para exposições fora. De parte e pronta a sair estava, na semana passada, uma colecção de manuais escolares portugueses desde o século XIX. E recentemente "a exposição sobre o Maio de 68 que foi realizada na Fundação Mário Soares tinha apenas dois cartazes originais, que foram emprestados daqui", conta Pacheco Pereira.
O espírito de serviço público com que olha os seus livros e papéis leva Pacheco Pereira a ter dois apartamentos para investigadores que se queiram instalar na Marmeleira a estudar a sua base de dados e os seus livros e documentos. E lamenta que as instalações que disponibiliza estejam vazias e não sejam usadas pelos investigadores a que se destinam, ou seja, dois apartamentos que se espalham pelas casas contíguas que se somaram à casa-mãe, a Casa das Palavras. Uma casa com base de construção no século XVIII, integralmente restaurada, em que a biblioteca se prolonga num labirinto de estantes repletas, mas que se estende já a um antigo lagar de vinho, do outro lado da rua, e a um armazém industrial, mais distante.
Quem visita esta biblioteca-arquivo pode perder-se horas a fio nas sucessivas salas. É a sala da literatura estrangeira, a sala da História de Portugal, a sala dos periódicos, a sala da colecção de selos, as gavetas dos cartazes, a sala dos recortes (cerca de 20 mil recortes). As caixas dos materiais de propaganda.
E até a sala do audiovisual, onde estão centenas de cassetes, discos e vídeos, que Pacheco Pereira está a digitalizar e a colocar em MP3 - entre elas, por exemplo, uma reunião, que começou no Café Canas (em Campo de Ourique, Lisboa) e durou todo o dia, dos membros do Clube da Esquerda Liberal, a analisar a situação nacional, nos anos 80. Mas também uma colecção de cassetes que incluem as mensagens de comunicação entre os membros das organizações de extrema-esquerda, antes do 25 de Abril.
Salas todas restauradas com o objectivo de recolherem a biblioteca-arquivo. Por isso, a varanda que divide quase todas as paredes foi construída de forma a suportar o peso mastodôntico das estantes de madeira tratada ou de metal, pejadas de livros e documentos. Já as paredes foram preparadas com materiais anti-humidade. A desumidificação e o aquecimento estão por sua vez garantidos, para manterem os livros nas melhores condições possíveis. Um aquecimento que torna aconchegante o gabinete de trabalho de Pacheco Pereira e que o leva a dormir no meio de estantes repletas de livros, na cama que surpreende quem entra neste espaço.