Obras desconhecidas de Simão Rodrigues em leilão

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Investigador Vítor Serrão considera-as expoentes do maneirismo da Contra-Reforma

O historiador de arte Vítor Serrão identificou quatro telas até agora desconhecidas da história de pintura portuguesa como sendo de autoria exclusiva de Simão Rodrigues (c. 1560-1629), um pintor maneirista e um nome fundamental deste período estético no nosso país.

Os quatro quadros a óleo, intitulados "O Anúncio do Anjo a Zacarias do próximo nascimento de São João Baptista" ("o mais notável", na opinião do investigador), "Nascimento de São João Baptista", "São João Baptista Menino despedindo-se dos pais ao partir para o deserto e Pregação de São João Baptista", vão ser leiloados no próximo dia 11, na casa Cabral Moncada, em Lisboa, com uma base de licitação de 16 mil euros.

A leiloeira faz acompanhar a reprodução das obras no catálogo com o estudo realizado por Vítor Serrão, onde este professor do Instituto de História de Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa justifica a atribuição da autoria a Simão Rodrigues, classificando-o como "um dos melhores representantes da nossa pintura do maneirismo contra-reformado".

Ao P2, o historiador disse que as telas deverão ter sido pintadas para vários templos de Coimbra, onde Simão Rodrigues trabalhou, em diferentes períodos, entre 1597 e 1621. E considera-as "do melhor" que já viu daquele pintor, com a particularidade de abordarem todas a mesma figura bíblica - São João Baptista - e de ostentarem uma "valia artística" que compara à "elegância maneirista romana de um Pomarâncio ou de um Zuccaro", à arquitectura clássica de Vredeman de Vries e à gravura nórdica de Adriaen Collaert e de Jost Amman.

Simão Rodrigues nasceu em Alcácer do Sal, mas cedo se radicou em Lisboa, onde foi educado nos círculos artísticos marcados pela influência de Roma, cidade que visitou entre 1585-90. Em 1583, o pintor tinha já oficina em Lisboa, onde centrou o seu trabalho, e onde viria a morrer em 1629.

Gregório Lopes em Madrid

Ao que tudo indica, as duas pinturas atribuídas pela casa espanhola Alcalá ao pintor régio português Gregório Lopes (c. 1490-1550) poderão ficar sem comprador no leilão marcado para hoje, em Madrid. É esta a convicção do responsável da empresa, Richard de Willermin, que disse ao P2 não ter sido contactado por nenhuma instituição portuguesa no sentido de acautelar alguma possibilidade de aquisição dos quadros "A apresentação da Virgem no Templo" e "A adoração dos Reis Magos".

Também o responsável pelo departamento de pintura antiga do Museu Nacional de Arte Antiga, José Alberto Seabra - que, na semana passada, tinha posto em dúvida a autoria das telas e considerado que elas não tinham valor de "tesouro nacional" -, disse não lhe ter sido pedida qualquer avaliação sobre a oportunidade da compra. E do Instituto dos Museus e Conservação, que tinha anunciado que iria "estudar o assunto", não foi possível obter qualquer indicação sobre se o Estado português iria ou não tentar adquirir as duas telas - que Vítor Serrão considera "bem menos valiosas", para a história da pintura portuguesa, do que as de Simão Rodrigues.