Crítica

O êxtase da verdade

Bastante da riqueza do livro está nesta recusa da linearidade e do A+B

O cineasta alemão Werner Herzog esteve em foco no Festival IndieLisboa, que lhe dedicou uma retrospectiva e algumas outras iniciativas associadas.

Entre elas, em co-edição com as Edições 70, a publicação deste livro, "Sinais de Vida - Werner Herzog e o Cinema", da italiana Grazia Paganelli, originalmente editado em 2008 pelo Museo Nazionale del Cinema de Turim por ocasião da organização de uma retrospectiva da obra de Herzog.

O coração do livro é uma extensa entrevista com o cineasta, organizada em blocos temáticos, cada um deles introduzido por um texto de Paganelli que simultaneamente enquadra, resume e lança o segmento de conversa que se segue, numa abordagem "não cronológica mas orgânica" (como escreve Alberto Barbera em prefácio) da obra do alemão. Bastante da riqueza do livro está nesta recusa da linearidade e do A+B, nesta opção por uma estrutura que parece ser, de resto, a melhor maneira de responder à complexidade da obra de Herzog.

Começa-se, ainda assim, pelo princípio, focando o princípio do trabalho de Herzog e as suas primeiras curtas (especialmente a sua estreia oficial, "Herakles", em 1962, quando tinha 20 anos), talvez os títulos menos vistos da sua extensa filmografia. Foi o período em que Herzog "teve que inventar o cinema", e assumiu essa invenção como uma tarefa individual e obstinada, fora de quaisquer compromissos colectivos: 1962 foi também o ano do "manifesto de Oberhausen", que Herzog não assinou por não gostar nem da "atitude", nem dos realizadores que conceberam o manifesto.

Mais à frente, justifica a sua recusa de participar em "Deutschland im Herbst", um célebre filme colectivo realizado no final dos anos 70 (muito em relação com os traumas gerados pelas acções dos Baader-Meinhof) com o argumento de que, "Fassbinder à parte", os outros cineastas envolvidos não eram muito interessantes. Toda a conversa de Herzog indicia algum grau de "não-reconhecimento" em face do cinema alemão, e particularmente do cinema alemão da sua geração. Em parte confirma-se a ideia de Herzog como um cineasta que concebeu a sua obra em "solilóquio", com preocupações demasiado pessoais e demasiado específicas para encontrar alguém, entre os seus pares, com quem as partilhar. São raríssimas as referências a outros cineastas (contemporâneos ou doutras gerações), e a atitude de Herzog não releva de nada que seja aproximável da "cinefilia" em sentido clássico (inventou mesmo "o seu cinema").

Quando Herzog "dialoga", fá-lo mais facilmente com gente de outras profissões e outras áreas: escritores, pintores, desportistas, filósofos, músicos. A música é um assunto a que dedica especial atenção, cruzando vários capítulos do livro (de Wagner, que Herzog encenou nos palcos, a Florian Fricke e aos Popol Vuh, com quem colaborou em vários filmes) e encontrando depois um capítulo a si dedicado.

Outro tema recorrente é a ideia da "extinção". Herzog é um obcecado pelo "fim", pelas ruínas culturais e civilizacionais, pelos "últimos representantes" de uma tradição, de um povo ou de uma linguagem. De certa maneira este interesse foi uma das coisas que o fizeram (e fazem) correr mundo, a procura de florestas, desertos e povos remotos. Em "Lektions im Finsternis" ("Lessons of Darkness"), um filme de 1992 construido com imagens dos poços de petróleo em chamas durante a primeira guerra do Golfo e com pedaços do comentário "off" baseados no Livro do Apocalipse, Herzog incluiu uma citação inventada por ele mas atribuída a Blaise Pascal (para que as pessoas a levassem mais "a sério"): "A queda dos universos siderais ocorrerá - como a Criação - com imponente beleza."

Há aqui uma espécie de misticismo "romântico", sempre na fronteira com um humor sibilino ("rimo-nos mais quando vemos 'The Wild Blue Yonder' do que quando vemos uma comédia do Eddie Murphy", estima Herzog), que se liga a um dos credos mais importantes do cineasta alemão, a insistência no cinema como instrumento de "revelação" de uma "verdade extática", comparada por Herzog aos místicos medievais. Para Herzog, convém distinguir entre a "verdade" e os "factos", entre a realidade e as suas máscaras - "temos que encontrar algo (...) que vá para além ou sob esta realidade, algo que nos dê uma espécie de visão em êxtase, que perdure por muito mais tempo do que a própria realidade". Tanto mais num tempo em que a realidade pode ser "retocada no photoshop" ou produzida por "um efeito digital": "Neste momento confrontamos algo que transformou o nosso sentido de realidade. (...) De certa forma, nos meus primeiros filmes, já tinha antecipado este salto."

Para além desta inesgotável conversa, o livro integra uma filmografia e uma série de anexos, textos escritos por Werner Herzog em tom de manifesto, como a "Declaração do Minnesota", espécie de proclamação "anti-cinema verité" (que, diz Herzog, "não possui qualquer verité"). É ilustrado por várias fotografias, algumas delas incluídas na exposição patente no espaço BES Arte & Finança. A tradução é irrepreensível.