Crítica

Casamentos e Infidelidades

Ira Sachs quer subverter o filme negro americano. Não consegue convencer

Há qualquer coisa de intrigante no que o americano Ira Sachs, oriundo da cena indie-Sundance, quer fazer com esta sua terceira longa: uma subversão por dentro do território do filme negro americano do pós-II Guerra Mundial, usando-o como pretexto para uma exploração da natureza dos sentimentos e do amor que prefere navegar de tom em tom sem nunca se fixar.


Estamos em 1949 e um executivo bem na vida quer abandonar a mulher que ama e com quem está casado há décadas para ir viver com uma jovem bem mais nova que também ama - é um ponto de partida que Sachs desenvolve primeiro como comédia americana dos anos 1950 (com a entrada em cena do melhor amigo do executivo, um sedutor por natureza) e que depois transforma em melodrama romântico e aspirante a filme negro antes de regressar à primeira forma, mas sem nunca nos conseguir convencer que essa flutuação deliberada é mais do que uma afectação estilística para dar a volta ao texto. É pena que assim seja, porque o elenco de primeira água cria as suas personagens com inteligência e pontaria, a produção consegue camuflar espantosamente a modéstia do orçamento, e Sachs tem a espaços uma leveza de toque que tem tudo a ver com o que quer fazer.

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