Gabriel Abrantes, artista

Rodagem de Too Many Daddies...
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Rodagem de Too Many Daddies... Susana Pomba

Tem 24 anos, pinta, faz filmes, toca piano e canta. É um nome emergente. Acaba de vencer o prémio EDP

No princípio deste mês, Gabriel Abrantes organizou, em jeito de turismo cultural, uma visita guiada a três exposições (que realizou) em três espaços de Lisboa. No dia 24, vai dar um concerto no Maxime, no âmbito do Festival IndieLisboa 09, onde apresentará também um dos seus filmes. E foi um dos nomeados para o Prémio EDP Novos Artistas. Com tantas actividades e aparições, exige-se a pergunta: "Quem é Gabriel Abrantes?". Ora, Gabriel Abrantes tem 24 anos e é, "tout court", um artista.

Feita a apresentação, importa agora contar a história, tecer o contexto. Nasceu nos EUA, filho de mãe angolana e pai zairense e veio para Portugal há dois anos para fazer um filme em Trás-os-Montes. Entretanto, frequentou na cidade de Les Fresnoy (França) um mestrado de arte contemporânea e cinema e estudou na Ecole National des Beau-Arts, em Paris. Em 2007 realizou a sua primeira exposição individual em Portugal, na Galeria 111, antes de mostrar, na edição de 2008 do Festival Indie, duas curtas-metragens: "Olympia I" e "Olympia II". A entrada no contexto português acontecia assim sob duas linguagens e formas de apresentação: a pintura e objectos numa galeria, o filme numa sala de cinema. Gabriel Abrantes saltava de categorias ou plataformas com um à-vontade, dir-se-ia, contemporâneo.

Entre a instalação e o filme

Foi, porém, com "Visionary Iraq", exposição realizada com Benjamin Crotty, em Setembro na Galeria 111 do Porto, que atraiu definitivamente as atenções do meio artístico nacional. Com um vídeo, dividido em três projecções, e respectivos cenários (enquanto instalações ou esculturas), Gabriel Abrantes afirmava a narrativa e a actualidade (política, social) como formas privilegiadas do seu trabalho. O filme contava a aventura de dois irmãos adoptivos (um português e uma angolana) que decidem alistar-se no exército para libertar o Iraque e interrogava a função e o contexto do objecto artístico com uma desconcertante economia de ideias e meios.

A esta abordagem, segundo o próprio, não foram alheios os quatro anos passados em Nova Iorque na Cooper Union for the Advancement of Science and Art. "Foi um período muito importante para mim. Era uma escola com um ambiente muito interdisciplinar. Tinha professores como Andrea Fraser, Walid Raad, Cecily Brown e Hans Haacke, que era especialmente generoso com os artistas. Se tivesse ido para outra escola, mesmo nos EUA, eventualmente teriam preferido que fizesse apenas pintura". Foi exactamente pela pintura que a Abrantes começou, embora sem a intenção de se limitar às tintas, à tela ou ao papel: "Sabia que tinha que dominar uma técnica, para poder experimentar com outras formas, mas não estava interessado em continuar exclusivamente a pintar".

Ainda assim, e quem viu "20-30 Experiments of Moral Relativism", também na 111 há pouco mais de quatro meses, pôde apreciar pinturas figurativas que reuniam impressões de imagens 3D ou retiradas da Internet com o trabalho a óleo. No momento presente, contudo, entre outras possibilidades (inclusive tornar mais radical a sua produção pictórica) é o trabalho com a imagem em movimento que mais o motiva.

Assim, em "Too Many Daddies, Mommies and Babies", a obra (instalação + filme) com que concorreu ao Prémio organizado pela Fundação EDP e que pode ser vista no Museu da Electricidade, em Belém, reencontramos uma ficção com temas actuais: a história de um casal homossexual que desiste de salvar o planeta do aquecimento global para ter um filho.

Para lá de todas as metáforas, Gabriel Abrantes não descobre intenções políticas nos seus trabalhos. "O meu interesse é estrutural. Não tenho uma mensagem directa. Procuro antes outras relações. Por exemplo, lido com uma narrativa sobre um acontecimento actual, que vivemos ainda que de forma distanciada, e ao mesmo tempo dou a ver uma representação desse acontecimento. Um pouco como 'Le Radeau de la Méduse' de Gericault. É isso que me interessa e não qualquer tipo de propaganda derivada de uma agenda política. Crio situações, algumas políticas, mas de forma ambígua".

Uma das relações "estruturais" encontradas no filme tem a ver com a interrogação do objecto artístico. Abrantes construiu os três cenários em três espaços diferentes (a galeria da Escola Maumaus na Alta de Lisboa, no Lumiar, a Galeria Zé dois Bois e o Museu da Electricidade) e apresentou-os como instalações. Foi neste contexto que organizou uma visita aos três lugares da rodagem mostrando aí cada um dos três capítulos (actualmente, o filme completo pode ser visto em Belém): "Pensei em trazer as pessoas do mundo da arte para participarem em actividades na galeria e criar um salão de jogos para os miúdos da Alta de Lisboa. Mas, no fim, optei por utilizar o espaço como espaço de rodagem cinematográfica". Admite que a solução final é algo contrária aos objectivos iniciais: "Sim, não fiz a coisa certa que era dar voz ao público local. Fiz antes turismo de arte, não o que era politicamente correcto. Daí a ambiguidade que aliás também deixo aparecer na cena final do filme".

"Too Many Daddies, Mommies and Babies" traz entretanto uma novidade em relação aos filmes anteriores: a presença de actores profissionais como Ana Moreira (revelada em "Os Mutantes", de Teresa Villaverde) Filipe Vargas, Alexandre David e Ágata Pinho.

Trás-os-Montes, Herzog e Alan Vega

Gabriel Abrantes fala da revista "Artforum" e do artista Sol Le Witte com o mesmo entusiasmo com que recorda "Transformers", de Michael Bay e "Passion of Joan of Arc", de Carl T. Dreyer, filmes que classifica como importantes para sua formação enquanto artista. Do universo do cinema sobressai, contudo, a figura que inspirou a sua decisão de deixar Nova Iorque em direcção à aldeia trasmontana de Anelhe: Werner Herzog "Acredito que nas grandes cidades acontecem as mesmas coisas, nos mesmos sítios, com as mesmas pessoas. Lembro-me de ler uma frase do Fernando Pessoa que era mais ou menos isto: 'os maiores feitos só podem ser alcançados num país pequeno como Portugal'. Creio que ele se referia a si próprio, mas, para mim, tinha a ver como a possibilidade de descobrir histórias que ainda não tinham sido contadas e de encontrar outras pessoas com quem trabalhar. Viajar para Trás-os-Montes foi de certo modo recusar o mundo da arte e, nesse sentido, fui muito inspirado pelo Herzog e pelas suas viagens".

Três anos depois, o projecto que o trouxe à Anelhe está no fim. Chama-se "Anelhe City", é uma longa-metragem e mistura o aquecimento global com elementos religiosos e a "teatro vulgar" das recolhas etnográficas de José Leite de Vasconcelos. Estreará em Setembro, numa projecção gigante, no espaço onde foi feito: um estádio de futebol.

As artes visuais e o cinema não são as únicas linguagens que "experimenta". Também faz música - o concerto no Maxime é o seu terceiro (sempre ao piano) e o segundo com o artista checo Rado Zrubec. Tudo por causa de Alan Vega, dos Suicide, que nem por acaso começou a carreira como artista: "Para mim, enquanto músico, é a referência mais importante, inclusive para a forma como utilizo outros suportes. Ele não sabia fazer música, mas inventou uma música para estar no palco. Ora, eu tento trabalhar em diversos mediums porque não tenho capacidades técnicas para todos, e isso permite-me tentar criar algo novo. Por isso vejo os meus espectáculos como concertos e os meus concertos como arte. Na verdade, limito-me a propor, pensar e discutir ideias. É tudo ideias"

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