Um arquitecto asceta na galáxia das estrelas

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Um criador imune às modas e que se demora em cada projecto espera que o seu prémio inspire os jovens profissionais. Defende "uma arquitectura clássica", dos detalhes e da alma

O suíço Peter Zumthor, o arquitecto antiestrela, é o Prémio Pritzker de Arquitectura 2009. Junta-se assim à constelação de arquitectos habituados ao reconhecimento público e a algum estrelato - como o português Álvaro Siza, o holandês Rem Koolhaas ou o italiano Renzo Piano, todos laureados com o Pritzker. E quer que o prémio, o Nobel da Arquitectura, sirva para mostrar às gerações de jovens arquitectos que é possível viver a sua arte de outra forma, sem olhar primeiro ao dinheiro e dando tempo ao desenho de um edifício.

"Esperaria que [a atribuição do Pritzker] lhes ensine que se podem fazer as coisas à nossa maneira, cuidadosamente... que não é preciso fazer o que as outras pessoas esperam de nós", disse ao Chicago Tribune. Falava a partir de casa, na aldeia de Haldenstein, Suíça, onde trabalha no seu estúdio desde 1979, com o vento dos Alpes a ouvir-se como pano de fundo. Zumthor "é um arquitecto magistral admirado pelos seus colegas de todo o mundo pelo seu trabalho focado, sem compromissos e excepcionalmente determinado", diz o júri do Pritzker. Os jurados destacam o estilo de vida quase ascético de Zumthor, a pequena equipa com que trabalha ("É assim que posso ser o autor de tudo", disse ao New York Times) e a imunidade às modas. "Devoção", "humildade", "visão penetrante" e "poesia subtil" são outros elementos que o júri usa para descrever a sua obra, elogiando o papel de Zumthor na reafirmação do lugar essencial da arquitectura "num mundo frágil".

O arquitecto Nuno Brandão Costa, Prémio Secil 2008, disse ontem ao PÚBLICO que o trabalho "único" de Zumthor já merecia o Pritzker exactamente por enfatizar "a disciplina como a arte e a cultura da construção". Seu colega geracional, o português considera que a subtileza da obra do suíço "vem de uma certa ausência de forma, que depois se potencia espacialmente pelo valor quase primitivo dos materiais" usados.

Resistência à fama

A obra de Peter Zumthor, de 65 anos, esteve em espírito e exposição em Lisboa em Setembro. O arquitecto trouxe a mostra retrospectiva Peter Zumthor Edifícios e Projectos 1986-2007 à LX Factory, em Alcântara, por ocasião do Warm-Up da bienal ExperimentaDesign. Em 3000 m2 e durante cerca de dois meses, quatro salas da LX Factory encheram-se de vídeos, maquetas gigantes e modelos. No local, nem uma fotografi a do autor dos edifícios. Zumthor resiste à fama, à celebridade que, com o aumento da popularidade da arquitectura nos últimos anos, se agiganta para os seus executores, mais expostos nos media, mais conhecidos pelo nome.

Como disse na altura ao PÚBLICO, gosta de projectos com enunciados: "Se me disserem que posso fazer o que me apetecer e que basta ter o meu nome, então estou fora".

O seu trabalho mais conhecido é as Termas de Vals (1996), na sua Suíça natal, que já disse considerar a sua "obra-prima". O júri do Pritzker destaca-as e também menciona a Capela de St. Nikolaus von der Flüe (2007), próximo de Colónia (Alemanha), e, também em Colónia, o Kolumba Museum (2007). O presidente do júri, Thomas J. Pritzker, presidente da Fundação Hyatt que atribui o prémio desde 1979, considera que os edifícios do arquitecto suíço "têm uma presença forte e intemporal" e que ele combina com "raro talento" o pensamento "rigoroso" com uma "dimensão verdadeiramente poética".

Peter Zumthor nasceu em Basileia e estudou na Kunstgewerbeschule, Vorkurs and Fachklasse e no Pratt Institute de Nova Iorque. Descreveu-se profi ssionalmente ao PÚBLICO como alguém "que não está interessado em fazer dinheiro, em fazer superfície". Um defensor de uma "arquitectura clássica, que se preocupa com os detalhes, com o espaço". Por isso prefere tarefas com "algum valor humanista, social, artístico", como escolas, lares, museus. Aceita poucos projectos e demora-se neles. "Amo os espaços e os edifícios. Gosto que eles sejam completamente concentrados na essência. Tento conseguir isso trabalhando muito - chego a trabalhar dez anos num edifício". "Os meus edifícios são feitos para a vida". Foi aprendiz de marceneiro, a profissão do pai que, a par dos arquitectos clássicos do Modernismo, continua a citar como uma das suas principais influências.

Nos últimos dez anos, os europeus dominaram a lista de premiados do Pritzker, com sete vitórias. Uma delas foi a da dupla de suíços Jacques Herzog e Pierre de Meuron (2001), tornando Zumthor o segundo suíço a ser distinguido com o Pritzker e consagrando a arquitectura suíça. O prémio (um medalhão de bronze e 75,7 mil euros) é entregue a 29 de Maio em Buenos Aires, Argentina.

Termas de Vals, 1996

Vals, Suíça
O edifício original era um complexo hoteleiro construído na década de 1960. Zumthor apropriou-se do espaço e criou uma estrutura de paredes de betão cobertas por finas lajes de rocha vulcânica local, que viriam a ser preenchidas pela água. Esta obra criou, dizem os críticos de arquitectura, um "efeito Vals", semelhante ao "efeito Bilbau" de Frank Gehry após a construção do seu Guggenheim basco. As termas são um espaço vivido - cerca de 40 mil visitantes por ano.

Capela de St. Nikolaus von der Flüe, 2007

Mechernich, Alemanha
A cofragem da capela fez-se de 112 troncos de árvore em cone, depois cobertos por betão. Durante três semanas, manteve-se um fogo no interior para que os pedaços ressequidos dos toros fossem retirados facilmente. Nas mãos de Zumthor, os materiais "são usados de uma forma que celebra as suas qualidades únicas, tudo ao serviço de uma arquitectura de permanência", destacou o presidente o júri do Pritzker, Lord Palumbo.

Museu Kolumba, 2007

Colónia, Alemanha
Foi erigido sobre as ruínas de uma igreja gótica destruída na II Guerra. Diz o júri do Pritzker: "Uma obra contemporânea sensacional completamente à vontade com as suas múltiplas camadas de história".