O factor Zumthor em Portugal

Capela de St.Nikolaus von der Flüe, 2007, 2007
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Capela de St.Nikolaus von der Flüe, 2007, 2007

Foi em 1990 que Peter Zumthor fez a primeira conferência em Portugal. Nas Belas-Artes do Porto pela mão de, entre outros, Eduardo Souto de Moura. Mas se Zumthor entra pelo Porto, é na arquitectura de Lisboa que encontrará maior reprodução. Em 2008, a exposição na LX Factory e a conferência na Aula Magna representam o reconhecimento definitivo da sua presença na nossa produção arquitectónica. Nesse intervalo, emergiu como uma das referências centrais para os arquitectos formados nos anos 90 ou com obra realizada a partir desse período. Quais são as razões desta afectividade?

A obra e a personagem de Zumthor encarnam bem aquilo que se procurava à saída dos "excessivos" anos 80: o recentramento na "disciplina", como então se dizia, contra o "culto da imagem". Uma retórica do silêncio contra as "arquitecturas falantes"; o detalhe construtivo e a respiração dos materiais em substituição das "arquitecturas de papel".

O breve discurso de Zumthor tinha ainda alusões culturais "sérias" depois das abordagens populistas e mundanas. As coisas voltavam ao seu lugar. O arquitecto português saía do centro que ruidosamente ocupara nos anos 80 e regressava ao atelier, à "disciplina".

Este regresso é feito segundo a armadura "arquitectura-arte", ironicamente uma conquista dos anos 80. Mas fica a "arte" e sai a "rua". A "arquitectura-arte" permite adiar os embaraços do confronto com a sociedade, é uma forma legítima de lidar com a crescente bagunça que os arquitectos não podem controlar. Depois de se envolver com as ciências exactas, a sociologia, a política, o urbanismo, a mundanidade, o arquitecto português quer ser "artista" e Zumthor é central nessa ambição.

A obra do arquitecto suíço ajuda ainda a resolver um problema sentido em Portugal desde os anos 50: a integração dos edifícios na paisagem sem recurso a fórmulas tradicionalistas ou kitsch.

Cruzando técnicas artesanais com a cultura moderna, Zumthor cria modelos que serão utilizados com sucesso em intervenções na nossa massacrada paisagem. A sua infl uência é sentida a diferentes níveis: na representação gráfi ca, os "pretos" e "brancos" dos irmãos Aires Mateus; na geometria severa e expressão telúrica dos materiais no Museu da Aldeia da Luz, de Pedro Pacheco e Marie Clément, ou na Casa das Mudas (Madeira) de Paulo David; ou, ainda, no exercício neovernacular abstracto da Casa em Cortegaça de João Mendes Ribeiro.