Daniel Moreira pôs a Economia entre parêntesis

É o jovem compositor português residente da Casa da Música. Alternou o estudo da música com a formação
em Economia. Já compôs mais de 22 peças. Interessa-lhe fazer música que possa comunicar com o ouvinte.

Este jovem de estatura média, óculos e presença tão discreta quanta a sua roupa cinzenta, que vemos no bar da Casa da Música, no Porto, tanto podia ser um dos muitos músicos que diariamente se cruzam neste espaço off do edifício, como um estudante de música, ou até mesmo um compositor, ou tão só um espectador à espera de entrar numa das salas de concertos... Daniel Moreira é tudo isto em simultâneo: espectador melómano, estudante de música, membro de um coro e guitarrista, e também compositor. É ainda licenciado rm Economa, com o curso concluído na Universidade do Porto (em 2006, com 18 valores), mas ainda sem exercer no mercado do trabalho - e sem vontade de o fazer.A música é, por agora, a vida deste portuense de 25 anos. No bulício diário do bar do edifício do arquitecto Rem Koolhaas, dificilmente se adivinharia que se trata do compositor português residente, este ano, na Casa da Música.
Daniel Moreira saía de um ensaio do Remix Ensemble, que nessa manhã preparava uma peça sua para a primeira audição mundial, três dias depois (a 13 de Março), num concerto do Festival Suggia. "Limiar (Homenagem a Haydn), para ensemble" (2008/9) é a primeira obra das três encomendadas pela instituição, no âmbito do convite dirigido ao compositor - as outras duas, uma para orquestra e outra para saxofone e piano, serão estreadas mais para o final do ano.
"É simultaneamente uma honra e uma responsabilidade muito grande" ser o compositor residente da Casa da Música, diz Daniel Moreira. O compositor foi escolhido pela direcção artística da Casa em meados do ano passado - é o terceiro a assumir esse estatuto, sucedendo a Vasco Mendonça (2007) e Luís Cardoso (2008), ambos de Lisboa. António Jorge Pacheco, actual director artístico, diz que a selecção do compositor convidado se faz através de contactos com o meio musical no país, nomeadamente em seminários e workshops, mas também nas sessões de leitura de obras que o Remix faz regularmente, na busca de novos autores para o seu reportório. "O Daniel Moreira foi uma escolha natural. E já é claro, para nós, estarmos perante alguém com um talento enorme e com uma maturidade intelectual e artística notável para a sua idade", diz António Jorge Pacheco, depois de ter ouvido "Limiar" e outra peça já interpretadas pelo Remix.
Como uma bolsa
Daniel Moreira vê também com naturalidade a sua chegada à Casa da Música, entendendo o convite quase como "uma bolsa", que está a permitir-lhe trabalhar naquilo que mais lhe interessa. Em cinco anos, já compôs mais de vinte peças. Fazê-lo, agora, para a Casa da Música não é mais difícil, mas é diferente. "Aqui tenho algumas coisas certas: conheço a sala, e as suas características de grande reverberação, e conheço os músicos do Remix", diz. "E sei que as peças vão ser tocadas e estreadas num dia determinado. Isso impõe-nos um ritmo de trabalho próprio."
O que é que o leva a compor? "Pode ser a vontade de abordar uma determinada combinação de instrumentos, um quarteto, por exemplo", ou apenas "um pedido formal", como os que tem recebido ultimamente. Mas o compositor não quer criar à sua volta nenhuma "aura demasiado sublime." Compor, tocar, cantar, estudar... é o seu trabalho. Apenas isso.
O seu interesse pela música "foi nascendo de maneira muito progressiva", sem qualquer precocidade. Quando frequentava o 6º ano de escolaridade, ingressou no Conservatório do Porto, onde começou, "como toda a gente", por tocar flauta de bisel - "é o instrumento mais acessível para quem começa". Experimentou também o clarinete, mas, aos 13 anos, descobriu o instrumento da sua vocação - a guitarra.
A música era, contudo, nessa altura, apenas um dos seus múltiplos interesses de estudante aplicado, ao lado da história, das ciências sociais e da matemática. Acabou por encontrar na economia "o cruzamento disso tudo". Era, pelo menos, aquilo em que acreditava, mas, quando chegou à Universidade, constatou que a economia que aí se ministrava "era mais matemática do que outra coisa qualquer..."
Cumpriu e completou o curso. Mas arrumou a Economia no currículo e virou-se de alma e inspiração para a música. Frequenta actualmente o mestrado em Teoria e Composição Musical na ESMAE (Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo), no Porto, e a música é mesmo, por agora, o seu projecto de vida. "Não é fácil ter um emprego seguro e estável, como o seria na Economia - embora, hoje, isso também não seja tanto assim", admite.
Bach, Grisey
e Peixinho
Daniel Moreira tem como compositores de cabeceira Bach, Mozart e Chopin, a trilogia de "clássicos" preferidos. Os dois primeiros, pelas razões universalmente reconhecíveis; Chopin - "não é que eu não goste de Beethoven", ressalva -, "pela concepção sonora que ele tem do piano, bastante inovadora na época", e porque é uma música de "um lirismo fabuloso e de um dramatismo também muito grande."
Nos contemporâneos, elege Ligeti, Berio e o francês Gerard Grisey (1946-1998), fundador, com Tristan Murail e outros, da depois chamada "música espectral". "Foi muito importante, na época, precisamente pela tendência que a música europeia tinha para a abstracção. Ele procurava criar pontos de orientação para o público". Nas suas composições, preocupa-se também em "criar pontos de referência", e falar uma linguagem que possa ser "partilhada por todos." É a sua forma de, "modestamente", seguir a lição de Grisey, e de Murail, quando este dizia que o compositor, quando apresenta uma peça em público, "tem que ter consciência de que está a retirar alguns momentos da vida dessas pessoas."
Na música portuguesa, o compositor destaca Fernando Lopes-Graça, e o seu "reportório extraordinário", na música coral, mas também nas sonatas para piano e nos motetes. E, duma geração mais recente, Jorge Peixinho, que, "apesar de ser uma música de vanguarda, tem também um grande lirismo."
"Não podemos ser puramente egoístas. Não quer dizer que vamos ceder aos impulsos mais primários da expressão musical. Significa que temos de ter em conta que o objectivo fundamental da música é a comunicação", professa o jovem compositor. Com uma obra já em curso, e muito mais para vir. a