Pré-publicação de “A Casa da Praia do Açúcar - Em Busca de uma Infância Perdida em África” de Helene Cooper (ed. QuidNovi)

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Leslie Cashen

Capítulo 25

Monróvia, Setembro 2003

[…] Mesmo para quem quisesse ignorar os danos causados pela guerra – os buracos das balas e da artilharia nos prédios e nas casas, os cartuchos de balas à beira da estrada, os campos de desalojados e os postos de controlo das forças de manutenção da paz – Monróvia parecia um inferno. O país deixara de ter electricidade ou água corrente em 1992. As ruas da cidade estavam cobertas de lixo e fervilhavam com pessoas a pé, fugindo das zonas de guerra do interior para Monróvia. Órfãos de guerra escanzelados, os olhos parecendo enormes nos rostos mirrados, corriam para o nosso carro, de mãos estendidas.

Eu estremecia cada vez que via uma criança a correr para o Pajero que, como todos os outros veículos, estava a andar depressa demais para conseguir parar a tempo se alguma das crianças tropeçasse e caísse à nossa frente. Nenhum dos semáforos de Monróvia funcionava e, por isso, só parávamos quando chegávamos a um posto militar de controlo. Sempre que parávamos, homens mais novos vinham a empurrar na nossa direcção cadeiras de rodas, e até carrinhos de supermercado, com mulheres muito velhas e de aspecto débil, de mãos estendidas. Mas eram ignorados tanto pelo senhor Greene como por Sacki.

Os cheiros misturados da urina, do lixo e das carcaças de animais encheram-me as narinas. Mas ainda havia esse cheiro familiar, de que eu tanto gostava, da erva e do carvão queimados.

O que eu estava a ver, à medida que Sacki nos conduzia, alimentava- me como se também eu fosse uma refugiada com fome.

Lá estava a Primeira Igreja Metodista Unida, estabelecida em 1922, com um buraco numa parede, onde um foguete a perfurara. Lá estava o Complexo Parker, onde haviam morado Philip e Richard e onde eu tivera lições de piano. A tinta das quatro casas estava a despegar-se das paredes e os telhados tinham caído. Três das casas estavam reduzidas à estrutura interna e pareciam esqueletos, depois de as pessoas terem de lá retirado todos os materiais que acharam úteis. E lá estava a Gelataria da Sophie, coberta de trepadeiras.

O letreiro, com manchas de tinta azul, do cinema Relda ainda lá se encontrava, tal como a tabuleta onde estava escrito «Relda». Mas o telhado caíra. No entanto, o Relda ainda parecia ser o centro da acção em Monróvia. O parque de estacionamento, à frente do cinema, estava cheio de desalojados, alguns deles a remexerem no lixo e outros a aproveitarem a sombra da fachada.

Eu estava no meu país e o meu país era o Inferno.

E, no entanto...

Havia alguma coisa mais. Orgulho. Não perante aquilo em que Monróvia se tornara, mas pelo facto de a cidade ainda lá estar, pois isso provava que eu tinha uma origem.

O senhor Greene e Sacki levaram-me ao Hotel de Mamba Point, onde se alojavam quase todos os jornalistas que estavam a cobrir a guerra na Libéria. Ficava próximo da embaixada americana e possuía um gerador e, por isso, dispunha com frequência de electricidade. O proprietário era libanês e sabia qual era a maneira de atrair jornalistas em zonas de guerra: com um bar digno de confiança. Quando cheguei, vi no pátio um grupo de funcionários da ONU e de organizações de ajuda humanitária.

O funcionário que estava na recepção do hotel chamou um porteiro para me ajudar a transportar a bagagem. Depois de pousar os sacos de viagem no chão do meu quarto, no segundo andar, o porteiro voltou-se, para se ir embora.

– Espera – disse-lhe eu, falando o inglês liberiano, enquanto procurava uma nota de cinco dólares na minha carteira. – Eh, ouve uma coisa.

O porteiro olhou para mim, surpreendido. Sabia o que ele estava a pensar. Eu parecia uma jornalista americana – nenhuma mulher liberiana que tivesse um mínimo de respeito por si própria usaria botas de caminhada – mas falava inglês liberiano?

– Ma, como se chama? – perguntou o porteiro.

– Helene Cooper.

Ele sorriu, voltou-se e saiu do quarto, fechando a porta suavemente atrás de si.

Sentei-me na cama, finalmente sozinha, e respirei fundo.

Nas últimas semanas, refugiara-me nos formalismos: tratar do voo, encontrar um sítio onde ficar, obter um visto liberiano, organizar-me, instalar o telefone-satélite para o poder utilizar no meu novo computador portátil – o anterior ficara esmagado durante o acidente no Humvee, no Iraque – e até, como agora, dar uma gorjeta ao paquete do hotel. Mas a partir daqui havia um número muito menor de coisas para fazer entre o meu aqui-e-agora e aquilo que, na realidade, eu queria fazer.

Todavia, ainda adiei por mais um dia, recorrendo à justificação de que devia encontrar um carro e um motorista para a minha estadia na Libéria. Passei a jornada a fazer o que toda a gente faz em Monróvia: a andar de um lado para o outro. Primeiro, precisei de encontrar alguém disposto a alugar-me o seu carro (a quarenta dólares por dia). Depois, precisei de ir à Imigração para obter o visto de estadia. A seguir, fui à empresa de telemóveis para arranjar um cartão SIM utilizável apenas na Libéria, para o telemóvel que comprara recentemente. Na Libéria não havia linhas de telefone fixas e, por isso, a única forma de comunicar telefonicamente era através de um telemóvel. E carregar a bateria de um telemóvel obrigava a encontrar alguém que dispusesse de um gerador.

Depois de passar um dia inteiro nisto, cheguei exausta ao hotel, onde o recepcionista me entregou um papelinho cor-de-rosa. «Aquele Parker veio cá para a ver», disse-me.

Sorri, sentindo-me, por um momento, outra vez com treze anos. Philip e eu havíamos mantido contacto ao longo dos anos e Richard, o irmão de Philip, que vivia no Gana, continuava a ser um dos meus melhores amigos. Aliás, passei a noite com Richard durante a minha estadia em Accra, quando fiz escala na viagem para a Libéria.

Telefonei a Philip. Ele atendeu-me com uma exclamação: «Cooper!»

Combinámos jantar nessa noite. No meu quarto, tirei o estojo de maquilhagem da bagagem e franzi a testa. Em que estivera eu a pensar, ao fazer as malas? Só tinha rímel e batom. Apliquei os dois, muito cuidadosamente, e encaracolei o cabelo com o ferro de frisar. Depois, desci para o bar do hotel, onde fiquei à espera de Philip. Não podia competir com a maioria das mulheres liberianas que estavam no bar, de saltos altas e saias justas. Os vinte e três anos passados nos Estados Unidos haviam-me feito esquecer um dogma fundamental da mulher liberiana: vestir bem.

Ficha do livro

A Casa da Praia do Açúcar - Em Busca de uma Infância Perdida em África Autor: Helene Cooper
Tradução de Pedro Garcia Rosado
Editor QuidNovi
352 págs., €16,65

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