UHF

A personalidade dos UHF construiu-se em e com Almada, a cidade onde nasceram. Agora que editam Absolutamente Ao Vivo, e quando passam 30 anos da edição do primeiro single, António Manuel Ribeiro guia-nos pelos locais que os definiram. Por Mário Lopes

a Aqui onde estamos, António Manuel Ribeiro lembra-se de jogar futebol em descampados que já não existem ou de correr até cair num buraco escondido no chão. Ficou preso nele um par de horas e salvou-o o cão fiel. A casa dos pais ficava abaixo, depois da pequena horta escondida entre vegetação bravia. Por trás, o Cristo-Rei. Aos seus pés, estendia-se a quinta dos seus avós, à direita está ainda o campo do Almada Atlético Club. Foi aqui que tudo começou para António Manuel Ribeiro. Ou melhor, recomecemos.Encontrámos o líder dos UHF na Aroeira, perto da Costa da Caparica, onde hoje vive. Daí, levou-nos em viagem pela sua cidade e por locais que enformaram aquilo que viria a ser a banda de Cavalos de corrida. Aquilo que ela é ainda, 31 anos depois da sua formação, 30 passados desde o lançamento do primeiro EP, Jorge Morreu, começou a ser desvendado em almoço com vista para a praia.
Foi ali, Cristo-Rei por trás de nós, campo de futebol à direita, que tudo começou para António Manuel Ribeiro. E foi ali em baixo, entre o casario emaranhado de Almada que converge para os antigos estaleiros da Lisnave, que tudo começou para os UHF. "Na altura [em 1978, quando a banda começou], havia o punk dos UHF, feito com botas alentejanas, e havia o punk da Avenida de Roma, feito com roupa que se ia comprar a Londres", descreve-nos, em "provocaçãozinha" atenuada pelas três décadas que dista a recordação. Já lá vamos. Antes, um pouco do presente.
Absolutamente Ao Vivo é o último registo dos UHF, edição de CD e DVD em paralelo, que recupera o concerto que os levou ao Coliseu dos Recreios, em Lisboa, em Setembro de 2006. Começa com António Manuel Ribeiro em registo spoken word: "Nem sempre tenho sido sincero para vós, para mim. Dá para perceber." Chamou ao poema No Palco e a falta de sinceridade de que fala não é coisa grave. É inevitabilidade do estar em palco, ininterruptamente, há tanto tempo: "Aquela frase mágica do 'show must go on' é muito verdadeira", dir-nos-á.
Depois do poema, em Absolutamente Ao Vivo, sucedem-se vinte e muitas canções. Históricas como Cavalos de corrida ou Rua do Carmo, momentos marcantes do chamado "boom do rock português". Recentes como Matas-me com o teu olhar, de Há Rock no Cais (2005), ou Os putos vieram divertir-se, de La Pop End Rock (2003). Sucessos populares, como a versão de Menina estás à janela, e sucessos improváveis na forma de Saravejo, essa que conheceu intensíssima rotação no início da década de 1990. Também se ouve por ali Rapaz caleidoscópio, "o homem de faces cavadas na noite", que "veste cabedal e napa preta" e "cruza o Bairro Alto em passos largos de dança". Em 1981, incluído no álbum de estreia dos UHF, a canção surgia como personificação almadense e lisboeta da personagem da Ribeira cantada por Rui Veloso em Chico Fininho. António Manuel Ribeiro detalha: "Era o tipo que trabalhava três meses na Lisnave, mas não queria realmente trabalhar." Explica: "Trabalhava porque precisava de ganhar dinheiro e depois ia passear aqui e ali, ia a Londres comprar uns discos. Quando ficava sem dinheiro, voltava para a Lisnave para picar navios - o pior trabalho que havia." A personagem não era efabulação de uma realidade meramente tacteada. "O Rapaz caleidoscópio era mistura de um amigo de Almada e um jornalista, também meu amigo, de Lisboa."
Rock da cintura industrial
Chegamos a um parque de estacionamento. Chão sujo, local de ar abandonado a meio da tarde. A emblemática grua com Lisnave inscrito em letras garrafais destaca-se na paisagem. Bem mais próximos, o bar Blue Swan, o clube A Sereia e a discoteca Mona Lisa, que era um antigo clube de rock - António Manuel Ribeiro já não se recorda do nome. Dirigimo-nos para a Avenida 25 de Abril. Ali chegados, paramos no número 3-B. No primeiro andar, as janelas pintadas indicam: Pic-Nic V. Comida italiana e indiana.
Era ali o Canecão, o centro de operações dos UHF em início de carreira. Espaço amplo, alugado por um "preço ridículo", servia de sala ensaios e, depois, aproveitando a oportunidade, de palco de concertos. Quando a banda chegava para os ensaios, deparava-se com gente fazendo fila à porta para tentar assistir. Quando havia concertos, era ver o pessoal descendo a avenida para ouvir o rock dos UHF, dos Aqui D'El Rock (autores daquele que é considerado o primeiro single punk português, Há que violentar o sistema) ou dos UX Bomb, punks de Almada que, descreve António Manuel Ribeiro, eram mais empenhados na atitude e nos copos que na música ela mesma.
Na altura, os que desdenhavam dos UHF classificavam-nos como "rock da cintura industrial". António Manuel Ribeiro, por sua vez, ripostava que os UHF "iam de Manchester ao Barreiro" - e nem via, nem vê, nada de depreciativo na classificação. Vejamos. Musicalmente, cresceu com o folk-rock dos Fairport Convention, com os Doors de Jim Morrison - "que grito é este?", deslumbrou-se ao ouvi-los pela primeira vez - com Bob Dylan e com o Neil Young de Harvest, "um fenómeno de culto liceal". Depois, enquanto lá fora o rock progressivo de Yes ou Genesis, que ele declara abominar, dominava o panorama, cá dentro havia a música de intervenção, "com uma viola braguesa, uma acústica desafinada e uma flauta". "Fora disso", recorda, "não existia música portuguesa". Até que chegaram ecos do punk, com os Ramones que ele adora e os Sex Pistols e aquele "levem lá connosco" de Nevermind The Bollocks: "Veio mostrar-nos que havia música na rua, sem dinheiro."
Os UHF eram a reunião de tudo isso: a vontade de contar histórias do folk-rock unida à violenta explosão do punk. Isso e outra coisa. As botas alentejanas do punk deles eram um reflexo. Enquanto caminhamos, paralelamente aos velhos estaleiros, António Manuel Ribeiro conta-nos de uma manifestação de operários que acabou com uma violenta carga policial. Ele estava lá e a experiência acabou em canção: A caçada, uma das três do EP de estreia. "Eu vivia numa cidade chamada Almada e não podia ser indiferente a esse contexto." Algo que se reflectiu desde o primeiro momento: "A primeira canção dos UHF chamava-se Jorge morreu. Uma canção sobre droga dura e um gajo que morreu por causa dela." Resumindo: "Cintura industrial e drogas duras, uma realidade que existia, mas para a qual ninguém estava a olhar na altura." Esta era a diferença que, no contexto do boom do rock português, estabelecia a singularidade dos UHF.
Pertenciam, por atitude e estética musical, à nova vaga que se revelava em Lisboa - por exemplo, o primeiro concerto da banda aconteceu no há muito desaparecido Bar É, nos Capuchos, e teve os Faíscas, de Pedro Ayres Magalhães, como companheiros de palco. Pertenciam, dizíamos, mas não completamente: "Havia uma grande distância entre Almada e Lisboa, a ponte era maior, tinha quilómetros a perder de vista." Os UHF viviam com essa distância. "Sentíamos esse peso e essa indiferença [em relação à outra margem], mas quando tocávamos [em Lisboa] as pessoas ficavam a falar de nós." Não só pela música: "Tocávamos e íamos embora, porque não tínhamos ali amigos e éramos tímidos. As pessoas ficavam curiosas."
Passado pouco tempo, este cenário tornar-se-ia implausível. Porque depois houve Cavalos de corrida e Rua do Carmo, porque depois houve o álbum À Flor da Pele e os UHF deixaram Almada e Lisboa e começaram a correr o país em concertos. Para António Manuel Ribeiro, foram os tempos de "sex, rock'n'roll e muito whisky". À portuguesa: "De repente chegávamos a uma terra perdida no país e tenho a perfeita noção de que alguns concertos começavam com dez mil pessoas e acabavam com duas mil. As duas mil eram os nossos, público que ia ficar e que ainda hoje existe. As outras oito mil iam ver o fenómeno, o barulho que Lisboa lhes mandava para ali - como as velhinhas que faziam marcação à zona em frente ao palco, sentadas nos banquinhos desdobráveis, e que fugiam à primeira música."
Como uma família
Com três décadas de vida, com António Manuel Ribeiro como único membro fundador na actual formação da banda, junta há dez anos e onde se inclui o seu filho, o guitarrista António Côrte-Real, os UHF já não são os punks de botas alentejanas ou rock da cintura industrial. António Manuel Ribeiro vive na calmaria da Aroeira, não se consegue imaginar numa cidade e acredita que as canções podem mudar o mundo - elege duas como exemplo, The times they are a-changing, de Bob Dylan, e Imagine, de John Lennon. Entretanto, os UHF até já gravaram músicas como uma versão de Guantanamera e outra de Menina estás à janela. Gravaram uma ópera-rock, formato ícone do progressivo (La Pop End Rock), e um hino para o Benfica, que António Manuel Ribeiro quis dar de prenda ao pai no seu último ano de vida. "Acho que temos uma identidade nacional muito grande", diz-nos. "Na forma de ser, na forma de nos apresentarmos, no chegar à terra e ir beber um café à tasca, chegar a Amares e aceitar o cabrito e o vinho."
Calcorreamos a zona do Ginjal e um homem, empoleirado à janela de um carro, enquanto fala com os dois adolescentes que bebem cerveja no interior, muda o rumo da conversa: "Aquele é o vocalista dos UHF, 30 anos de postura." Avançamos pela degradada zona ribeirinha e, enquanto António Manuel Ribeiro nos conta, à passagem de um cacilheiro, que Rua do Carmo começou a nascer num, quando a sua rotina de estudante numa escola secundária na Ajuda incluía passagem diária pela zona do Chiado, um dos muitos pescadores alinhados volta-se para nós, acena e começa a entoar, nada discretamente, "mulheres bonitas, subindo o Chiado". Um pouco antes, apresentara-se um açoriano de passagem por Almada. No Verão passado, vira os UHF no Nordeste e queria saber quando regressariam às ilhas.
Durante o almoço, perguntámos-lhe se sentia alguma desilusão por os UHF não terem hoje o mesmo protagonismo que companheiros de geração como os Xutos & Pontapés, indagámos sobre as constantes mudanças de formação da banda nos primeiros 20 anos de carreira.
Não, não há desilusão - e a questão da falta de protagonismo, rematou António Manuel Ribeiro, reflecte uma visão parcial, lisboeta, do cenário. Quanto às entradas e saídas em bom ritmo, a explicação surgiu rápida: "Houve gente com medo que se foi embora, gente chata que veio para ganhar dinheiro, momentos difíceis com uma fase de drogas duras." Prossegue: "Um grupo é uma segunda família e não há espaço para fingimentos. Sepáramo-nos várias vezes porque não éramos nenhuma boys band. O que interessa é que os UHF continuaram e têm um rumo traçado." Insurge-se: "Não posso fazer um grupo assim?" Claro que pode, António Manuel Ribeiro. Ele está aí. Trinta e um anos depois, continua.
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