Não, não sabia

Pode faltar o dinheiro e podem estar a falir jornais e revistas a eito, mas, neste intervalo em que vivemos, entre a papirocracia que reinava antes da Internet e a electrocracia que aí vem, somos quase todos infomilionários.Temos tantas fontes e formas de comunicação e entretenimento à nossa mercê que cada um pode compilar um pacote multimédia feito à medida, que mais ninguém tem - ou quer. Dantes (os que podíamos), víamos e líamos mais ou menos as mesmas coisas. Havia quatro canais; quatro jornais; quatro paredes caiadas e um cheirinho a alecrim. As conversas no dia seguinte eram aconchegadas e previsíveis; regendo-se pelo duro código do "Ó vizinha!".
Eram os dias do "Viste o...?/Então não vi!" . Ajudava a conversar - mas o subtexto era claustrofóbico e aldeão: "Que remédio...". E, nos dias maus, que raramente faltavam, era cá uma festa descobrir uma coisa que se pudesse ver ou ler com agrado.
Agora não. Entrámos na época da pergunta contrária: do "Não sabias?!". Todos temos o nosso próprio (respire fundo) portefólio léxico-audiovisual. Mas - hélas! -, por muito que o queiramos vender aos nossos amigos (para podermos fazer uma pequena ideia do que estão a falar), eles não o compram, porque não abdicam dos portefóliozinhos deles. "Não viste? Nunca ouviste? Não sabias? Não conheces? Não me digas! Ah, tens de ler! Eu vou-te mandar! Vais adorar!": é esta a nova banda sonora.
Diga adeus ao diálogo e seja bem-vindo aos monólogos do futuro.