Susan antes de ser Sontag

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"Reborn: Early Diaries 1947-1964" é o primeiro de três volumes dos diários de Sontag. É um "big bang", o embrião de ideias que a acompanharam durante a vida

"Uma vida não é um enredo", escreveu Susan Sontag, num ensaio sobre o brasileiro Machado de Assis em 1990. Podia ser uma epígrafe de "Reborn", pode ser um "post-it" para leitores que não gostam de entrar às escuras nos livros.

Publicado no final de 2008 nos EUA e no início deste ano no Reino Unido, "Reborn" (ed. Hamish Hamilton, à venda nos circuitos de importação) é o primeiro de três volumes dos diários da escritora Susan Sontag, o buraco da fechadura dos anos de juventude de uma das intelectuais mais influentes da América do pós-guerra. A leitura de diários é uma actividade voyeurística, como "Reborn" claustrofobicamente confirma, que, neste caso, tem um "teaser" adicional: Sontag era reservada, mesmo com o seu círculo mais próximo de relações, como o seu filho, David Rieff, escreve no prefácio ("A minha mãe não era uma pessoa que revelasse coisas sobre si própria. Em particular, ela evitava tanto quanto pudesse qualquer discussão da sua homossexualidade ou admissão da sua ambição."). E, mesmo partilhando do mandamento de um Borges atingido pela cegueira de que "um escritor deve pensar no que quer que lhe aconteça como um recurso" (a que ela obedeceu, publicando "A Doença Como Metáfora" em 1976, depois de lutar contra um cancro da mama), Sontag manteve sempre a autobiografia fora dos seus textos. Chegou mesmo a rebelar-se contra a ideia de que a sua escrita pudesse conter o seu retrato: num ensaio de 1995,  "Singleness", contou como numa entrevista lhe perguntaram qual era o seu escritor preferido e que a resposta surpreendeu o entrevistador porque ela nunca tinha escrito nada sobre Shakespeare. "É suposto ser aquilo que escrevo? Nem mais? Nem menos? Mas qualquer escritor sabe que não é assim."

Os anos de juventude

Susan Sontag morreu em Dezembro de 2004, aos 71 anos, não resistindo à síndroma MDS, também conhecida como pré-leucemia. Como David Rieff escreveu no seu "memoir" sobre a doença e morte da mãe, "Swimming in a Death of Sea", Sontag acreditou até ao fim que iria sobreviver, apesar das evidências em contrário (tinha o espírito combativo de alguém que já tinha sobrevivido a dois cancros antes). Por isso, não deixou qualquer indicação do destino a dar aos seus papéis, embora Rieff lembre no prefácio de "Reborn" que assim que soube que estava doente, a mãe lhe terá dito, quase de passagem: "Sabes onde estão os diários".

Rieff não sabe qual teria sido a vontade dela e até admite a sua decisão de publicar os diários de Sontag "certamente viola a privacidade dela". Mas diz que o faz por "razões práticas": em vida, e quando gozava de saúde, a mãe terá doado os seus manuscritos à biblioteca da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, e o acordo era que ficassem à guarda daquela instituição após a morte dela. Rieff conclui, com razão, que se não publicasse os diários da mãe, outra pessoa acabaria por fazê-lo.
E, no entanto, não tem dúvidas, de que esta é uma escrita privada, produzida unicamente para ela própria, e de forma incessante, entre a adolescência e os últimos anos de vida. Sontag deixou cerca de uma centena desses cadernos.
"Reborn: Early Diaries 1947-1964" contém os seus anos de juventude, desde a adolescente apaixonada pelos livros até à mulher de 30 anos, mãe e divorciada, no seu combate solipsista com a escrita, prestes a publicar o seu primeiro livro, "The Benefactor", ficção biográfica (nem mais...) inspirada no "Cândido" de Voltaire.

Nas primeiras páginas de "Reborn", Sontag tem 14 anos mas já parece mais velha (e já revela uma propensão para os aforismos: "As ideias perturbam a planura da vida."). Não é a adolescente desarmada e disponível para o processo de auto-descoberta, inevitável nesta fase. O que sobressai, desde cedo, é uma consciência aguda, um auto-escrutínio crítico, quase como se Sontag se desligasse de si mesma para observar a adolescente que, à excepção de ocasionais "espasmos de desejo incontrolável" e felicidade momentânea relacionados com a experiência amorosa e sexual, ela parece nunca ter sido.


Cresce-se depressa quando se lê livros e Sontag descobre a sua vocação lendo Kafka, Thomas Mann, Kierkegaard, Dostoievski ou Tolstoi, da mesma forma que algumas pessoas veneram actores ou estrelas rock. A 31 de Dezembro de 1957, escreve no seu diário: "Por que é que escrever é importante? Suponho que é sobretudo uma manifestação de egotismo. Porque quero ser essa 'persona', uma escritora, e não porque exista qualquer coisa que eu tenha de dizer."
Tem 15 anos quando declara: "Gide e eu atingimos a mais perfeita comunhão intelectual" (10/9/48). Fica acordada até às 2h30 da manhã para acabar livros comprados no próprio dia, devora o "Ponto Contraponto" de Aldous Huxley em seis horas, e faz listas de tudo o que lhe falta ler, com avidez insaciável. Tem a doença da literatura, como admitirá numa nota de 1961: "Há alguns anos apercebi-me de que ler me punha doente, que eu era como um alcoólico".

Big bang

"Reborn" é um livro de revelações, mas não no sentido convencional. Embora o leitor encontre aqui material privado, do tipo que sempre esperamos da escrita biográfica - a culpa de Sontag quanto à sua sexualidade, as precoces relações lésbicas, a fuga para a Europa, deixando para trás o marido e o filho David sem sinal de remorso (aquele "Baby, sweet boy, forgive me!" dirigido ao filho de cinco de anos não é arrependimento, é um apelo para que ele a compreenda), o desconforto com o seu corpo -, a verdadeira e fascinante descoberta é que "Reborn" se lê como um livro genesíaco. Este é o "big bang" de Susan Sontag, onde detectamos o embrião de ideias que a acompanharam durante a vida ou que viria a explorar mais tarde (aos 24 anos, tem em curso um projecto que se chama "Notas Sobre a Interpretação", precursor da famosa colecção de ensaios intitulada "Contra a Interpretação", publicada em 1966, e que estabeleceu a reputação de Sontag) e, mais importante ainda, vislumbramos o processo de construção do seu espírito crítico. Mais do que um diário, "Reborn" lê-se, notou a "New York Magazine" como um "bildungsroman", um desses romances de formação típicos da literatura alemã que Sontag tanto venerava, como um "Retrato da Ensaísta Enquanto Jovem".


O que não quer dizer que é uma narrativa sistemática e consistente. Pelo contrário: "Reborn" é sistematicamente fragmentário, um itinerário de tópicos, mais do que uma exposição unificada. Para um diário, está cheio de buracos negros: em 1950, Sontag, que tem 17 anos, casa-se com Philip Rieff, académico da área da sociologia 13 anos mais velho, mas não relata nada sobre ele ou a sua vida conjugal antes do colapso do casamento. É menos um livro confessional do que "um instrumento, uma ferramenta", como ela admite numa nota de 1958. "Este caderno de apontamentos não é um diário. Não é um auxiliar de memória, para eu me lembrar que em tal e tal data vi aquele filme do Buñuel, ou quão infeliz estava por causa de J, ou que Cádis me pareceu bonita mas Madrid não." Também se poderia descrever "Reborn" como o seu caderno de trabalho, o primeiro receptáculo das suas ideias em bruto, como confirma a profusão de listas (de livros, autores, filmes, palavras, expressões, recomendações, resoluções, aforismos, citações). Até a evocação da infância (o mais próximo que Sontag esteve da autobiografia directa, nota o seu filho) é uma lista - de imagens e pequenas reminiscências - desbobinada à maneira dessa torrente sem filtro que é o "stream of consciousness".


Raras vezes Sontag se permite ser espontânea e quando o faz é para se recriminar, como se tudo tivesse de passar pelo crivo cerebral, pela abstracção. A voz frontal, autorizada - "imperial" na descrição da "Slate" - que reconhecemos dos seus ensaios (e que gerou animosidades) é aqui dirigida contra ela própria, exigindo concentração, disciplina, emitindo juízos tenazes sobre si mesma. Nos anos finais de "Reborn", Sontag ganha terreno a Susan (num terreno - a privacidade do diário - onde Susan deveria ter a primazia). Não quer que nada se intrometa entre si e o seu plano - "Entender o mundo é olhá-lo desligados dos nossos sentimentos" (4/1/1958) - e é aqui que treina o seu tiro.


No prefácio, a sinopse que David Rieff oferece de "Reborn" é a história "da jovem ambiciosa da província que quer tornar-se uma pessoa importante na capital", comparando-a com uma personagem de Balzac. Parece apropriado que Rieff tenha decidido chamar a este volume "Reborn" (o título vem de uma frase que Sontag escreveu em maiúsculas no interior da capa de um dos seus cadernos iniciais: "I AM REBORN IN THE TIME RETOLD IN THIS NOTEBOOK", "eu nasço de novo no tempo recontado neste caderno"), porque este diário é o registo da sua auto-invenção.


Numa nota escrita no final de 1957, Sontag diz: "Superficial encarar o diário como um mero contentor dos pensamentos privados, secretos de alguém - como um confidente surdo, mudo e iletrado. No diário, não só me exprimo mais abertamente do que faria com qualquer pessoa, mas crio-me a mim própria." A seguir, acrescenta: "Ele não só documenta a minha vida quotidiana, efectiva, como - em muitos casos - oferece uma alternativa a ela".


Seria precipitado julgar que este processo de reinvenção tem apenas a ver com ambição - nos bastidores, é detectável a frustração e a vulnerabilidade, o discurso de um mártir. "Cresci, literalmente, sem nunca me atrever a esperar felicidade", escreve a 12/11/1950. A escrita surge como a sua hipótese de sublimação, uma fantasia da felicidade por uma profissional da insatisfação (os "escritores, esses profissionais da insatisfação", escreveu em 2000, no ensaio "Writing as Reading"). "Escrever é um acto belo. É fazer qualquer coisa que dará prazer a outros mais tarde", conclui Sontag numa entrada do seu diário, a 13/8/1961. Ainda não tem 30 anos e ainda não publicou nada. Mas sabe que os livros "nos dão o modelo da auto-transcendência", como escreveu numa carta aberta a Borges em 1996.
Se calhar é isso, a corrupção pela literatura.