O pós-modernismo morreu, viva a altermodernidade

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Na trienal da Tate, em Londres, um francês abriu nova etapa na discussão sobre a identidade da cultura e dos artistas de hoje. Modernos ou pós-modernos, quem somos? Nem uns nem outros, antes seres de uma nova era em que se age e cria a partir de uma visão positiva de caos e complexidade. A altermodernidade, segundo Nicolas Bourriaud

Uma parte do debate tem raízes antigas e a sua arqueologia envolve gigantes - Heidegger, Wittgenstein, Benjamin, Baudelaire, Bataille, Lyotard, Foucault, Baudrillard, Derrida, Lipovetsky... -, a outra parte é praticamente de ontem e, para já, envolve um único homem: Nicolas Bourriaud, de 44 anos, fundador e ex-director do influente Palais de Tokyo, de Paris, hoje curador de arte contemporânea desse "bulldozer" museológico conhecido como Tate, em Londres.

O que é a modernidade? Modernos ou pós-modernos, quem somos? Depois de várias vidas aos gritos uns com os outros por causa de questões assim, ei-lo, Bourriaud, a dizer-nos que podemos pegar nesses pontos de interrogação e fazer deles o que bem entendermos, já que, chegados a 2009, essa parte da História está arrumada, vencida por "knock-out" por um só evento: a actual crise económica internacional.

Segundo ele, esse singular evento ligado ao colapso do sistema financeiro a partir da falência do banco de investimento norte-americano Lehman Brothers, em Setembro do ano passado, mudou tudo, mudou, inclusivamente, o que somos. Nem modernos nem pós-modernos. Submersa em nova crise, no final da primeira década do século XXI a humanidade viu nascer uma outra modernidade: a altermodernidade, a primeira era cultural do mundo globalizado.

Caos e complexidade

Este é o pressuposto da quarta edição da trienal de arte contemporânea da Tate, de que Bourriaud é comissário e para a qual cunhou o conceito. Altermodernidade: nem uma visão linear da História, como a do modernismo, nem uma imagem desta a avançar em espirais de eternos retornos, como defendido pelo pós-modernismo; agora, uma visão da História como estando constituída por múltiplas temporalidades simultâneas em que a vida e a arte surgem como experiências positivas de desorientação, traçando linhas em todas as direcções de tempo e de espaço e, assim, explorando todas as dimensões do presente. Por outras palavras: uma era em que se age e cria a partir de uma visão positiva de caos e complexidade.

Em termos absolutos, a ideia não é nova - é tão antiga quanto a filosofia holística dos Vedas, os primeiros quatro livros sagrados do hinduísmo em que tudo é considerado em conjunto, em contexto. Segundo o mais elevado e abstracto nível filosófico dos Vedas, cuja versão escrita data de cerca de 1500 a.C., a realidade é um absoluto impessoal - Brahma - que permeia tudo, um não-tempo contínuo de que faz parte cada elemento do universo, passado, presente ou futuro. Uma ideia de caos articulado que, virada do avesso, dá o branco mais puro, o nada mais absoluto. Qualquer coisa próxima, também, dessa espécie de superconsciência extática que é o vazio Turya budista. Mas, e ainda que Bourriaud seja um conhecedor de filosofia hindu, a sua nova modernidade surge mais como resposta cultural a um conceito político: o de alterglobalização, a corrente à esquerda da globalização liberal, respeitadora da lógica do planeta horizontal, mas defensora de que esse planeta não deve fazer implodir as diferenças e especificidades identitárias.

"Ainda que, à época, países como o Brasil e a Índia se tenham juntado à discussão, a modernidade foi um conceito ocidental. Hoje vivemos num labirinto mais complexo e temos que extrair dele significados específicos para o século XXI. A modernidade de hoje não é nem pode ser totalizadora nem continental", diz-nos, a dada altura, Bourriaud em conversa telefónica. É também ele que numera os "depois" em que temos estado mergulhados nos últimos 35 anos: o pós-modernismo, o pós-feminismo, o pós-colonialismo, o pós-político... "Com todos os 'pós', acabamos com a sensação de estar em eterna nostalgia do passado, o que redunda numa preguiça de pensar. Pareceu-me produtivo tentar decretar o fim desse conforto, tentar periodizar de outra forma", explica. E porque é que isto importa? Ele escreve no catálogo da Tate: "O papel histórico do modernismo, enquanto fenómeno saído do domínio da arte, reside na sua capacidade de nos catapultar para fora da tradição; incorpora um êxodo cultural, uma fuga ao confinamento do nacionalismo e etiquetamento identitário, mas também [uma fuga] ao 'mainstream', cuja tendência é reificar pensamento e prática. Sob a ameaça do fundamentalismo e da uniformização orientada para o consumismo, ameaçada pela massificação e o abandono à força da identidade individual, a arte precisa hoje de se reinventar a si mesma, e, isto, à escala planetária."

Depois do "flâneur", o nómada

Pode-se argumentar que a necessidade de reinvenção perante o que supõem ser novas ou demasiado velhas circunstâncias é tão antiga como o homem e que cada época produziu a sua própria modernidade, ou seja, a sua própria contemporaneidade. Aí, nada de novo. Ao falar do herói da sua era - e estamos no século XIX - Baudelaire escrevia: "Todas as belezas contêm, como todos os fenómenos possíveis, qualquer coisa de eterno e qualquer coisa de transitório - de absoluto e de específico. A beleza eterna e absoluta não existe, ou, antes, não passa de uma abstracção desnatada à superfície geral das diversas belezas. O elemento próprio de cada beleza provém das paixões, e como temos as nossas paixão próprias, temos as nossas belezas." Isto, a cada nova época. E, para falar do homem a sentir-se elemento de um momento de não uma, mas mil possibilidade, de viagem por Itália, chegado a Palermo em busca da sua Urpflantze, a planta primordial em que acreditava poder vir a encontrar a chave de reprodução de toda a natureza viva, Goethe - e agora estamos ainda mais atrás, no século XVIII - lamentava em carta aos amigos, na Alemanha, a impossibilidade de concentração num único plano da realidade: "Por que razão seremos nós, os modernos, tão dispersivos, por que razão nos deixamos levar por pretensões que não podemos alcançar nem resolver?"

Goethe, como a maioria dos românticos, olhava nostalgicamente para os antigos, o exemplo clássico - "eles representavam a existência, nós geralmente o efeito; eles descrevem o terrível, nós descrevemos de forma terrível; eles o agradável, nós de forma agradável, etc." O modelo modernista de Baudelaire era outro e, deste, a altermodernidade segundo Bourriaud guardou um aspecto essencial: a ideia do "flâneur".

O "flâneur", aquele que percorre a cidade, deixando-se perder na sua observação. Isto era no século XIX, hoje as cidades não chegam - o "flâneur" de uma altermodernidade corresponderá a um nómada global, ou, em rigor, a um errante cultural, aquele que procura o inverso do enraizamento absoluto, ou seja, aquele que põe as suas raízes em movimento, encenando-as em contextos e formatos heterogéneos, negando-lhes qualquer valor como origem, traduzindo ideias, transcodificando imagens, transplantando comportamentos, trocando, mais do que impondo. Um nómada cultural que transforma a "flânerie" numa técnica de geração de criatividade e conhecimento.

"E se a cultura do século XXI fosse inventada a partir daqueles trabalhos que se lançam a si mesmos o desafio de apagar as suas origens e falar de multiplicidades de enraizamentos sucessivos ou simultâneos? Este processo de rasura", diz Bourriaud, "é parte da condição do errante, uma figura central da nossa precária era e que aparece insistentemente no coração da criação artística contemporânea." Uma figura, diz ele ainda, acompanhada por um modo ético predominante: a tradução.

"Networking"

A viagem clássica, sim. Mas também esse outro tipo de viagem da era da hipermobilidade da Internet, em que já nascemos a conceber outras formas de entender o que é o espaço do humano, para lá das formas clássicas no Ocidente, e em que o hipertexto se generalizou como processo de estruturação de pensamento, uma janela a abrir-se directamente para outras infinitas e todas ligadas à distância de um clique.

Já sabíamos isto, claro. Agora Bourriaud deu-lhe novo nome. "O pós-modernismo saiu da depressão da Guerra Fria rumo a uma preocupação neurótica com as origens típicas da era da globalização. É este modelo de pensamento que hoje está em crise, esta versão multicultural da diversidade cultural que tem que ser questionada, não a favor de um 'universalismo' de princípios nem de um novo esperanto modernista, mas no enquadramento de um novo movimento moderno baseado na heterocronia, uma interpretação comum, e na liberdade de explorar", diz Bourriaud.

Dá o exemplo de um conceito que criámos a partir da natureza: "O arquipélago é o exemplo da relação entre o uno e o múltiplo. É uma entidade abstracta; a sua unidade deriva de uma decisão [humana] sem a qual nada seria lido a não ser um espraiar de ilhas unidas por nenhum nome comum. A nossa civilização, que leva as marcas da explosão multicultural e da proliferação de estratos culturais, parece-se com uma constelação sem estrutura, à espera da sua transformação em arquipélago."

É significativo, aqui, que o aparecimento do termo pós-modernismo tenha coincidido com a crise petrolífera de 1973, o primeiro fim contemporâneo da ideia de superabundância, o encerrar de um ciclo de três décadas gloriosas após a anterior crise: a II Guerra Mundial. "A crise do petróleo de 1973 poderia bem representar o 'cenário primitivo' do pós-modernismo, da mesma forma que o petróleo a jorrar de um poço simboliza o modernismo do século XX", diz Bourriaud. E, assim, conclui: "O pós-modernismo é a filosofia do lamento, um longo episódio de melancolia na nossa vida cultural. Tendo a História perdido a sua direcção e capacidade de ser lida, nada restava a não ser ficar face a face com um espaço-tempo imóvel do qual, como reminiscências, se levantavam fragmentos mutilados do passado."

Para Bourriaud, estamos numa nova era e ela tem um nome, altermodernidade - nas conferências da Tate, ligadas à trienal, alguns dos oradores mais críticos comentavam não à boca fechada, mas à boca cheia, que é preciso mais do que querer caucionar exposições e vender livros para pensar a realidade; que é preciso mais do que analisar e relacionar causas e efeitos para cunhar conceitos e estabelecer uma matriz filosófica.