A marginal onde as pizzas valem mais

Com a Ponte da Arrábida como "padroeira", a Rua do Ouro oferece um surpreendente
leque de restauração, diversão nocturna e lojas de gama média-alta

a A marginal ribeirinha do Porto é marcada pelos contrastes: a proximidade do rio Douro levou à construção de zonas residenciais e comerciais de luxo, mas subsistem populações ligadas à pesca. No Cais da Arrábida, há pequenas embarcações ancoradas e ainda se podem ver pescadores a consertar as redes. Em volta do Cais do Bicalho, domina a pesca recreativa, auxiliada por uma máquina "única no país", instalada na fachada do Bibá Pesca. É em tudo idêntica às que vendem sandes ou chocolates, mas aqui compra-seisco, por 2,5 euros. "Tivemos de a alterar completamente para servir os clientes, quando estamos fechados", explicou-nos Nélson Pereira, funcionário da loja de artigos de pesca. Apesar do relevo da inovação, arriscamos dizer que o actual ex-líbris da Rua do Ouro está nas pizzas: as melhores da cidade.
A nossa atenção centra-se em dois restaurantes: Casad'oro e Nhac! Nhac! O primeiro tem um bónus considerável: ocupa o antigo Pavilhão de Fiscalização da Construção da Ponte da Arrábida (conhecido como a "Casa dos Engenheiros"), da autoria do arquitecto José Galhoz. A partir do Casad'oro, a vista para a ponte e para a foz é privilegiadíssima, especialmente a partir da esplanada. No interior, o restaurante divide-se em dois: no piso -1, o ambiente é formal e há uma selecção de pratos de carne, peixe e massas; no primeiro andar, está a pizzaria, com mesas e bancos corridos. O preço das pizzas varia entre os 6,5 e os 11,5 euros e os ingredientes são importados de Itália.
Também de massa muito fina, as pizzas do pequeno Nhac! Nhac! são igualmente recomendáveis. Existem cerca de 20 variedades, sempre a rondar os 10 euros e preparadas à vista do cliente. Outra sugestão, no âmbito da comida italiana, é o Lancelot, no piso um do Condomínio Douro Foz. No número 133, numa casa amarela, está o Peixes & Companhia, onde o nome diz tudo: é o peixe fresco, acompanhado de legumes e batatas a murro, que domina o menu. O Morfeu na Marginal, no número 400, tem pratos tradicionais portugueses e peixes do dia.
O carro do rei D. Carlos
Mas deixemos a comida e passemos para a M Colecção Automóvel, com entrada pela Rua de João do Carmo, junto ao antigo River Caffé: aqui estão 25 dos 110 automóveis antigos do falecido empresário famalicense António Magalhães. Dos veículos em exposição, destaca-se um Minervette, de 1904, propriedade do rei D. Carlos, que o tinha estacionado em Vidago, para quando visitava o Palace Hotel. Há ainda um Minerva de 1914, exemplar único no mundo, e, para lá de marcas míticas como Ferrari, Jaguar e Rolls-Royce, também há um carro da... Singer! O enquadramento da mostra é modesto, mas o neto Manuel Magalhães diz que a actual sala deve ser apenas "um começo".
Na Rua do Ouro situa-se a loja da estilista Fátima Lopes (no número 418), um cluster de estabelecimentos de arquitectura, design e decoração (composto por Edição Limitada, Casa d'Arte, Miguel Laia e À Procura da Arte), e as joalharias Júlia Ribas e Monseo, no antigo Armazém Frigorífico da Comissão Reguladora do Comércio de Bacalhau, uma construção mercantil do Estado Novo, datada de 1939. Agora chama-se Douro's Place e é um moderno bloco de 31 apartamentos e seis lojas.
O interesse nocturno da Rua do Ouro está concentrado em pleno rio, pouco depois da Ponte da Arrábida. A primeira embarcação visível chama-se Gandufe, alberga o Porto-Rio e é um dos espaços mais alternativos do Porto. O seu leme é o calendário de eventos (www.porto-rio.com), geralmente concentrado nas noites de fim-
-de-semana, oscilando entre os concertos de rock & roll mais marginal e as sessões de disco-jockeys, com destaque para o drum & bass. Ao lado está o Maré Alta, onde as after-hours de domingo são a imagem de marca. O horário de funcionamento, limitado às noites de sexta-feira e sábado, vai ser alargado, até Maio, para todo o dia. Ao almoço, haverá pratos do dia e os jantares serão em regime buffet. O Zoo Lounge seria a terceira opção "flutuante", mas está encerrado para obras, devendo reabrir na Primavera. As esplanadas junto ao Condomínio Douro Foz podem ser uma alternativa tranquila.
Se a passagem do eléctrico número 1 nos remete para o passado, há que referir que o Estaleiro do Ouro, transformado em cemitério de barcos, tem ainda mais para contar. Aqui terão sido construídas, pelo menos parcialmente, as embarcações da armada de Ceuta e as naus que participaram na primeira viagem marítima à Índia, de Vasco da Gama.