Crítica

Alquimia Extra Golden

De cada vez que referirmos entusiasmados as "guitarras africanas" de uns Vampire Weekend ou de uns Dirty Projectors, teremos que nos lembrar dos Extra Golden

O processo completa-se, por fim. De cada vez que referirmos entusiasmados as "guitarras africanas" de uns Vampire Weekend ou de uns Dirty Projectors, teremos que nos lembrar dos Extra Golden e da forma como neles se opera verdadeiramente um intercâmbio entre África e Estados Unidos, entre benga queniano e funk ou rock'n'roll americanos.

"Thank You Very Quickly", o terceiro álbum da banda, formada pelos guitarristas Alex Minoff e Ian Eagleson (os americanos), o vocalista Otieno Jagwasi e o baterista Onyango Wuod Omari (os quenianos), integra os dois universos como se de uma nova linguagem se tratasse. E fá-lo com a mesma fluência e naturalidade com que se desenvolvem cada uma das seis canções deste álbum: os ritmos contagiantes, as melodias e os solos de guitarra, as vozes, ora em luo, ora em inglês, vão-se contaminando entre si, vão conduzindo a intensidade do momento seguinte - como se tudo fosse invenção daquele preciso momento.

Gravado na ressaca dos violentos tumultos pós-eleitorais no Quénia, em Janeiro de 2008, é um disco de luz e celebração - os tumultos surgem apenas no tema título, que é também um longo agradecimento aos que ajudaram os membros quenianos a ultrapassar aquele momento conturbado.

Sempre acima dos cinco minutos de duração, todas as canções têm centro em África, "culpa" do magnífico Onyango, uma orquestra rítmica concentrada em tarola e prato de choque. Sobre esse pulsar constante, contudo, vemos nascer diálogos de guitarras que se entrelaçam, que se separam e dançam em paralelo: e, num momento, elas divagam pelos sonhos psicadélicos dos Grateful Dead, no seguinte estão a animar a festa num bar de Nairobi. Com um órgão Farfisa a espalhar luminosidade faiscante sobre todo o som, "Thank You Very Quickly" é mais um passo admirável numa viagem também ela admirável. Uma fusão de culturas musicais que já não é propriamente uma fusão.

Ouça-se, em "Anyango", o movimento irresistível da tarola (o poder do benga) ser acompanhado por guitarras que são blues a descobrir novas paragens (o poder do rock'n'roll). Não, não é uma fusão. Agora, é simplesmente música que acontece assim. Inspiradora.