Crítica

Six Organs of Admittance

"RTZ" é um objecto que fazia falta na discografia de Six Organs of Admittance, o projecto do guitarrista norte-americano Ben Chasny. Este disco duplo junta temas que estavam dispersos por registos obscuros, partilhados com os Charalambides, Vibracathedral Orchestra e Magic Carpathians, dois discos difíceis de encontrar (um deles é "Nightly Trembling", de 1999) e material inédito nunca lançado.

Agora que os Six Organs são um projecto com uma exposição que extravasa em muito o seu círculo inicial de adeptos, "RTZ" arruma o passado e mostra de que universo vem Chasny àqueles que só chegaram a ele por volta do fabuloso "School of the Flower" (2005).

Eram tempos em que Chasny, inspirado por uma certa ideia de misticismo oriental e espiritualidade sem deus definido, fazia longas peças com várias secções, pacientemente construídas e gravadas num quatro pistas. O som, apesar da remasterização de que foi alvo para este disco, mantém-se poeirento e pouco definido, limitações teóricas que se tornam em qualidades.

Atente-se em "Warm Earth, Which I've Been Told", de 2003, com 18 minutos, que começa com uma daquelas frases memoráveis que Chasny encontra na guitarra acústica e repete. A voz corre como um "mantra", enquanto, em segundo plano, há um órgão em ruminações contínuas, sinos, chocalhos e o que parece ser uma pandeireta, tudo junto num festim anárquico. Mais à frente, fica apenas o órgão e uma guitarra eléctrica dissonante até ao regresso da voz.

"RTZ" documenta tempos em que Chasny ainda procurava a sua voz no cenário "underground" da folk que convivia com o psicadelismo e o ruído. Ouvimo-lo em "You can always see the sun" e, apesar das boas pistas, ainda encontramos um artista à procura de um fio condutor para as suas "ragas" acústicas, pontuadas por silvos de guitarra eléctrica. Nos discos mais recentes de Six Organs, esta mesma "psicadelia" é filtrada sob a forma de canções, mais concisas e eficazes.

Entre as explorações nascidas na solidão do quarto de Chasny, destaca-se "You can always see the sun" (2002), um tratado de 20 minutos ao psicadelismo solitário, burilada a partir de rendilhados acústicos e paisagens de "feedback" eléctrico. Algures no meio da peça, o "fuzz" da guitarra eléctrica entrelaça-se, com efeitos mágicos, com a "raga" acústica (na escola de Robbie Basho e John Fahey, mas menos virtuosa) e surge a voz de Chasny, um sussuro indecifrável. Um exemplo do talento bruto, ainda por limar, mas já transbordante de ideias, que "RTZ" regista para a posterioridade.