A moda das bandas-tributo pode matar a música?

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Uma das mais conhecidas bandas-tributo do mundo, The Australian Pink Floyd Show, actua em Lisboa.

Cinco jovens juntam-se para tocar música e têm perante si um dilema: apostar em material próprio ou fazer uma banda-tributo e sair para a rua. A situação é apresentada por Tozé Brito, compositor, autor e produtor musical. E é também ele quem responde: "A segunda é a opção mais viável, é muito mais fácil aparecer a tocar músicas que as pessoas já conhecem." E esta facilidade justifica um debate cada vez mais actual.
Hoje, o Coliseu de Lisboa recebe a banda-tributo dos Pink Floyd mais elogiada em todo o mundo. Os Australian Pink Floyd Show actuam pela terceira vez em Portugal, mas agora com um espectáculo "maior, mais completo" do que o exibido anteriormente, promete, em contacto telefónico, Jason Sawford, teclista do colectivo australiano. Joana Godinho, da promotora Música no Coração, entra em detalhes: "Esta é a produção total do espectáculo 'The Wall': lasers, insufláveis, é muito mais do que apenas uma experiência musical."

Lisboa recebe com entusiasmo os clones mais aplaudidos de Roger Waters, David Gilmour & Cª, um grupo de músicos australianos que se juntaram em 1988 apenas pelo gozo de "tocar Pink Floyd", recorda Jason Sawford. "Depois evoluiu e nunca mais parou", conta. "Linda e cansativa", a lista de espectáculos dos Australian Pink Floyd Show, assemelha-se a uma qualquer digressão mundial de uma banda de topo: em 2008, deram 132 concertos em 20 países.

Já se disse deles que "tocavam Floyd melhor do que os Floyd" e o próprio David Gilmour lhes teceu rasgados elogios. Mas então, num universo de "n" bandas que fazem vida de homenagear os Pink Floyd, o que torna estes australianos um caso tão especial? "Tivemos sorte, acho. Também ganhámos o primeiro concurso de tributo aos Floyd e isso deu-nos um bom impulso no início", analisa Jason Sawford. Falta o essencial: "E somos bons tecnicamente."

Sufocar os originais

Pode um músico rock sentir-se realizado com uma rotina profissional de tocar músicas de outros? "Sim", dizem os portugueses Zé Pedro, guitarrista dos Xutos & Pontapés, e Tiago Santos, compositor, guitarrista dos Cool Hipnoise e radialista (na Oxigénio). "Há músicos muito bons que não têm capacidade para compor. Os grandes compositores são, normalmente, autodidactas", explica o primeiro. "Hoje em dia, quase toda a música é feita em tributo a algo do passado. A originalidade já não é um valor nuclear", acrescenta o segundo. "Sempre houve músicos a tocar músicas dos outros. É parte do que esta profissão faz...", completa Jason Sawford.

Não é, portanto, chocante, fazer vida de tocar as músicas de outros. Tanto mais que, como salienta Tozé Brito, "isso prova que as canções originais são boas, capazes de resistir ao passar das décadas". Certo. Mas não será frustrante? "É muito mais saudável do que andar pelos bares a tocar o que o povo pede. Tocar o que se gosta é sempre melhor", sentencia Zé Pedro.

Tiago Santos alarga o âmbito da discussão. "Frustrante é, hoje, haver mais condições para fazer um projecto ou discos de tributo do que de originais. Começa-se a afunilar, as pessoas procuram cada vez menos coisas novas. E esse é o lado pernicioso desta moda das bandas-tributo", analisa.

Não que a coisa em si seja um bicho de sete cabeças. Tiago tem um projecto paralelo, os Cais Sodré Fun Connection, que se dedica a recriar êxitos funk e soul dos anos 60 e 70; Zé Pedro entrou recentemente em espectáculos de tributo aos Clash e aos Sex Pistols.

O sucesso dos 2U

Naturalmente, o fenómeno das bandas-tributo contagiou Portugal. Quando, em 2002, João Diona reuniu quatro amigos para formar os 2U nunca pensou chegar onde está hoje. O professor João (guitarra e teclas), o jurista Nuno Castelhanito (voz), o profissional de hotelaria Ivo Palitos (bateria) e o músico profissional, "o único do grupo", Nuno Espírito Santo (baixo) juntaram-se porque todos gostavam de U2.

Subiram ao palco e a adesão foi brutal. "Tocávamos sempre às terças-feiras à noite, no Jardim da Música, em Lisboa, um espaço que entretanto fechou. Nesses dias, o bar estava sempre cheio", recorda João. Daí para cá, o processou acelerou-se: "Em sete anos, fizemos Portugal inteiro, tocámos em Espanha e fomos convidados para as festas de lançamento dos últimos dois álbuns dos U2, na FNAC."

Hoje, já todos "na casa dos trinta", os 2U não lamentam o facto de terem passado ao lado de um álbum de originais. "Era uma coisa que teria de ter surgido naturalmente, não imposta. E há muitas bandas boas, talvez nem haja país para todas", diz João Diona. O que nos traz de volta para o cenário definido por Tozé Brito e criticado por Tiago Santos. Ser original é um problema, hoje em dia?

Editoras evitam risco

"A relação entre músicos e editoras está a mudar radicalmente", analisa Tozé Brito. "Antigamente, estas assinavam contratos apenas para a gravação e venda de discos, deixando para os artistas tudo o que dizia respeito a espectáculos, publicidade e merchandising. Hoje, tem de ser diferente." As pessoas compram menos discos, muito do rendimento das bandas é obtido por aparições ao vivo e as editoras querem uma fatia desse bolo. Até porque gravar é bem mais barato hoje, mas as despesas de promoção continuam a ser elevadas. "E ninguém consegue encher concertos pondo a música no Youtube..."

Ou seja, a tentação de encontrar o caminho mais curto para garantir a adesão popular pode ser irresistível. Acarinhar um projecto novo até ele granjear notoriedade e se tornar atractivo paras as pessoas requer tempo e dinheiro (isto para lá da sensibilidade certa para separar, à partida, o trigo do joio). E, assim, a tal "facilidade" de que fala Tozé Brito passa, muitas vezes, pela opção de dar às pessoas o que elas já conhecem. Chegamos às bandas-tributo.

O fenómeno está longe de ser apenas português. Muito longe mesmo. As bandas-tributo são, por definição, sucessos garantidos. Tocam o que o que o povo gosta de ouvir e são mais baratas do que as bandas que emulam (estas, em muitos casos, até já nem existem). Não precisam de ser promovidas - as canções originais estão lá há décadas a fazer esse trabalho.

Clones para todos os gostos

Basta uma breve pesquisa no Google e há todo um mundo à nossa espera. Experimentem em http://dir.yahoo.com/Entertainment/Music/Artists/Tribute_Bands. ZZTop barbudos à maneira, na República Checa? Sim, chamam-se ZZTop Revival Band. Beatles no século XXI? Sim, basta acrescentar ao nome Bootleg, em jeito de prefixo. Clones femininos dos AC/DC? Claro, e com o maravilhoso nome de Helles Belles. Quem quiser ouvir os Led Zepellin pode contratar os Whole Lotta Led. E por aí fora: há Kiss italianos (Kisskonfusion), Rolling Stones "made in USA" (Sticky Fingers), Queen holandeses (Miracle), Beach Boys australianos (The Beach Buddies), Doors alemães (L.A. Doors). Há mais de 30 novos Beatles, incluindo uns do Brazil (The Brazilian Beatles, naturalmente).

Em Portugal actuaram recentemente os Abba Gold, uma das muitas bandas-tributo aos famosos suecos que regressaram à ribalta com o filme "Mamma Mia". Outra, os Bjorn Again, recebeu 35 mil euros em Fevereiro para tocar durante uma hora numa festa particular. Entre as oito pessoas da assistência estava Vladimir Putin, primeiro-ministro da Rússia.

Nostalgia e curiosidade

"Já fiz uma vez a conversa a um promotor português para que se realizasse um festival só de bandas-tributo", revela Zé Pedro. A ideia andou por aí, mais exactamente por Guimarães, onde Green Dayz, Coolplay e Probably Robbie (fazendo, naturalmente, as vezes de Green Days, Coldplay e Robbie Williams) deveriam ter passado. Mas o festival foi cancelado devido à falta de interesse do público.

Como é possível? Sim, foi em 2006, o conceito de bandas-tributo ainda não estava tão divulgado, mas não havia mesmo ninguém interessado? Pois, não havia. Nesse ano, em 2006, a selecção portuguesa de futebol estava em grande no Mundial e o jogo com a Inglaterra, dos quartos-de-final, calhou mesmo em cima do planeado festival...

Não está prevista qualquer coincidência desse tipo para esta noite e um Coliseu de Lisboa cheio vai viajar no tempo, conduzido pelo profissionalismo virtuoso dos Australian Pink Floyd Show. Porque somos "nostálgicos" e queremos matar saudades de outros tempos, como diz Joana Godinho; ou porque os mais novos sentem "curiosidade de ver como era na altura", aventa Zé Pedro.

Seja lá pelo que for, "noutros tempos, seria impensável", garante Tiago Santos: "As pessoas eram fiéis a uma banda, coleccionavam os discos. Hoje, essa ligação material não é tão forte, o consumo é mais imediato, ninguém se importa de ir ver uns tipos a imitar." Como diz Tozé Brito, "o importante é a música, não o intérprete". Principalmente se este for bom. "Muitas vezes as pessoas ficam surpreendidas. Não sabem bem o que estão à espera e o que vêem é um verdadeiro espectáculo dos Floyd", explica Jason Sawford.

"Tenho de ir ver", dispara João Diona antes de desligar o telefone.