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"Watchmen": Zack Snyder, realizador de um filme impossível

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O que ficou de fora, o que vai para o DVD e as cenas mais difíceis

Depois de quase 20 anos de tentativas de transpor a novela gráfica de culto para o cinema, a maior dificuldade de Zack Snyder, realizador de "Watchmen - Os Guardiões", foi a condensação e o respeito pelo original, que não queria desrespeitar.

Alan Moore, divorciado deste filme e de todos os outros que se fizeram com base nas suas criações (do desastroso "Liga de Cavalheiros Extraordinários", que ditou o afastamento de Sean Connery do cinema, a "V de Vingança") fez um livro que "não tem gordura. Todas as ideias estão completas. A parte mais difícil foi chegar a uma duração com que toda a gente estivesse confortável", disse aos jornalistas num hotel do Soho londrino. 

Assumindo-se como "fanboy", o que ele queria era fazer "um anúncio de duas horas e meia para o livro". "Estava a tentar captar a experiência que tive quando li a novela gráfica pela primeira vez. É isso que o filme é para mim." Para ele, fazer o filme é uma oportunidade de apresentar às massas a obra sobre um conjunto de heróis-mascarados que contestam a própria noção tradicional do super-herói perfeito. E acrescentar a emoção à filosofia, a base desse arranha-céus da BD de culto que é a obra de Moore e Gibbons.  "Por exemplo, no livro o Dr. Manhattan (Billy Crudup) é completamente filosófico, com ligação emocional zero. Quando o Billy está ali, prestes a matar Rorschach (Jackie Earl Haley), é uma experiência emotiva. Isso faz algo que a novela nunca poderia fazer - pôr a emoção no lugar da filosofia. É um suplemento."

O filme começa com 20 minutos totalmente dedicados àqueles que não conhecem a história original. Com o genérico e o amarelo "Watchmen" do crachá com o "smiley" do Comediante (Jeffrey Dean Morgan), explica-se o que foram os Minutemen (a primeira geração de heróis mascarados sem super-poderes, nascidos do fascínio pelos "comics" e "pulps" do início do século passado), como surgiram Os Guardiões e como caíram em desgraça. E como Dr. Manhattan acabou com a guerra no Vietname de uma só tacada - atómica.

Há lutas, "flashbacks", eventos finais de tensão acrescida, tudo em honra do livro que Zack Snyder leu pela primeira vez em Londres, quando estava na universidade. O realizador disse que trataram o livro como se fosse um texto sagrado, mas defende a opção de ter alterado e subtraído alguns elementos da história. Nomeadamente o final, algo que está a deixar os fãs em polvorosa na Internet. Ele corre o risco, com a mudança do final, de ter feito toda uma maratona (de 2h41m de filme) para perder o ouro no "sprint" final.

De fora ficou a causadora do apocalipse final, uma lula quase psicadélica - sim, um cefalópode gigantesco que devorava Manhattan. Foi substituída por outro tipo de clímax, que encurtou a narrativa já de si longa. E para o DVD ficou a narrativa paralela do livro de BD sobre piratas, "The Black Freighter", lido por um rapazinho junto de uma banca de jornais ao longo de "Watchmen". "Nunca pensei que o Black Freighter chegasse às salas. Filmámos todos os momentos da banca de jornais e pensei que seria cool para o DVD, na versão de 3h30m."

E há ainda as narrativas que o original publicava em texto corrido, como o livro do primeiro Nite Owl, Hollis Mason, personagem no livro que quase se eclipsou do filme. "Mas o director's cut, que terá 3h10m e poderá ter estreia em salas de LA e Nova Iorque, [virá] com a morte do Hollis e com outras coisas que não chegaram à versão final".

Apesar dos paralelos incrivelmente próximos do livro, das cenas saídas dos quadradinhos, frame a frame, Snyder fez escolhas. Uma das mortes orquestradas por Rorschach, muito plagiada desde então, tem outros contornos, por exemplo. "Senti em parte que um público de massas iria pensar que é o ‘Saw' e todo o tipo de outros filmes." Snyder quis ser mais directo. Noutras cenas, a violência está lá, quadro a quadro. Como a tentativa de violação do Comediante sobre Sally Jupiter, a primeira Silk Spectre.

Sobre ela, Jeffrey Dean Morgan confessou aos jornalistas que "foi provavelmente o dia mais difícil de filmagens" da sua carreira. "Fiz o erro, durante a filmagem, de ir para ao pé do Zach e ver o ‘playback' e era tão ‘hard-core'... Vemos estes filmes, neste género, e é tudo diluído e não é nada assim em ‘Watchmen'. A violência é brutalmente honesta, não há beleza na maneira como lutamos, é cru e brutal. E essa cena em particular foi difícil porque tive essa imagem na cabeça durante dias e era difícil dormir à noite. E quando vi o filme... era brutal".

Pormenores à parte, vários realizadores tentaram e não conseguiram fazer este filme. Pela dimensão, pela temática, pela crueza. E o facto de Alan Moore não querer ter nada a ver com ele, desde o início, foi pior para Snyder. "Acho que pôs mais pressão sobre mim", disse.

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