Livro liga-o ao tráfico de armas

O amigo libanês de Manuel Dias Loureiro

Este texto foi publicado a 16 de Fevereiro de 2005
Num livro publicado em Espanha em 2004, o dirigente social-democrata Manuel Dias Loureiro surge como sócio do libanês Abdul Rahman El-Assir, ali citado como "traficante de armas", e, segundo a imprensa internacional, uma das personalidades mencionadas na megainvestigação que nos anos 80 envolveu um banco ligado ao narcotráfico internacional.

Em declarações ao PÚBLICO, Dias Loureiro explicou que deu já indicações a um advogado, em Espanha, para impedir que em futuras edições o seu nome continue a constar como "sócio" de El-Assir, mas reconhece que o empresário o ajudou "a resolver um negócio em Marrocos" e admite manter com ele uma relação de amizade, tendo sido por seu intermédio que conheceu o Rei de Espanha, Juan Carlos.

"Logo que tive conhecimento da existência desse livro, procurei agir de modo a repor a verdade dos factos e a evitar que em futuras edições essa mentira fosse repetida," disse ao PÚBLICO Dias Loureiro, 54 anos, quando confrontado com a informação de que seria sócio de Abdul Rahman El-Assir, conforme consta da obra publicada em Espanha, com o título "Los PPijos". Os autores, os jornalistas Carlos Ribagorda e Nacho Cardero, analisam uma nova geração de políticos/homens de negócio do Partido Popular espanhol, à volta dos 40 anos, agrupada em torno de Alejandro Agag, genro de José Maria Aznar. À data da edição do livro, Agag era oficialmente colaborador do Banco Português de Negócios (BPN), de que é accionista Dias Loureiro.

Após tomar conhecimento da publicação de "Los PPijos", conta o dirigente social-democrata, que encarregou o professor de Direito Penal da Universidade de Valência Javier Beox de accionar os procedimentos necessários a clarificar o seu relacionamento com o libanês. Em declarações ao PÚBLICO, Beox confirmou ter "interposto" um requerimento notarial a solicitar a correcção apenas da informação constante em "Los PPijos", que indica o seu cliente como "sócio" de El-Assir. Isto, por se entender que a alusão "afecta o seu bom nome". O notário pode aceitar o pedido de Dias Loureiro ou recusá-lo. "[Se for assim], afirma o ex-deputado, depois decidiremos."

O amigo libanês

Contactado telefonicamente pelo PÚBLICO El-Assir afirmou não ter qualquer ligação empresarial com Dias Loureiro, que "é apenas um grande e bom amigo". O empresário libanês confessou não ter lido "Los PPijos" , considerando que "nem tudo o que se escreve é verdade".

A imprensa espanhola ("El Mundo", 16/05/04) menciona o facto de El-Assir, de 54 anos, e com nacionalidade espanhola, estar proibido de entrar na Suíça e nos EUA, uma informação que o empresário contesta, adiantando que tem naquela localidade "residência" e mais de três mil empregados nos EUA, onde é proprietário de uma petrolífera, Gulf. O seu nome consta ainda de vários textos publicados nos últimos anos em "sites" internacionais como tendo estado associado ao escândalo que envolveu nos anos 80 o Banco de Crédito e Comércio Internacional (BCCI), com sede no Panamá, instituição que foi acusada de ligações ao narcotráfico mundial. Nos EUA, esta investigação foi liderada pelo ex-candidato presidencial John Kerry. Confrontado com o facto, El Assir assegura apenas que "nunca teve nenhuma conta pessoal ou empresarial no BCCI".

Dias Loureiro disse ao PÚBLICO que não é "sócio" de El-Assir e "nada" saber "sobre o seu passado". "Não tenho quaisquer razões para pensar mal dele. O seu círculo de amigos é gente respeitável, ele sempre me tratou bem, com amizade e respeito", notou. "[E ainda recentemente] ajudou um meu amigo a entrar em contacto com um médico em Inglaterra."

O ex-deputado ao ser contactado pelo PÚBLICO considerou que o assunto é muito delicado", reconhecendo que mantém uma relação de amizade com o libanês, mas "apenas desde 2001", ano em que este o "ajudou a resolver um negócio em Marrocos", onde estavam "a EDP, a Pleiade e o grupo espanhol Dragados" e ainda um sócio marroquino. Em causa esteve a venda da marroquina Redal (concessão de distribuição de água, de electricidade e de saneamento básico), de que Dias Loureiro era presidente, ao grupo francês Vivendi. Segundo o ex-ministro foi El-Assir que o "pôs em contacto com um responsável de Rabat", o que possibilitou "ultrapassar alguns obstáculos de ordem burocrática" e viabilizar o negócio com os franceses.

O social-democrata conta ter sido apresentado ao empresário libanês por "um cunhado dele", "amigo [de Dias Loureiro] e casado com a irmã da actual mulher" de El-Assir, a espanhola Maria Fernandez Longoria, filha de um ex-embaixador de Espanha no Cairo. Desde 2001, garante o presidente da mesa da assembleia geral do PSD, passaram "a ter uma relação social", não voltando a ter "contactos" profissionais. "Apenas tenho conhecimento de que possui uma empresa ligada ao petróleo nos EUA." Dias Loureiro esclarece que a última vez que falou com o libanês "foi na passagem do ano".

Caçadas com o Rei de Espanha

"El-Assir é muito bem relacionado", observa o dirigente social-democrata. "Ele convidou-me várias vezes para caçar com o Rei de Espanha e jogar golfe." Foi ainda por seu intermédio, conta, que conheceu o ex-Presidente dos EUA Bill Clinton e o presidente do Partido Democrata norte-americano, Terry Macauliffe, o homem que trata das finanças dos democratas. "Jantei com Bill Clinton nas casas dele [El-Assir] em Madrid, Barcelona e Londres." El-Assir é visto regularmente na sua propriedade em Marbella, no Sul de Espanha, onde é vizinho dos pais de Alejandro Agag. "[Ele] é amigo do Rei de Espanha e do neto de Franco [Francis Franco], com quem tenho estado", acrescentou Loureiro, adiantando que já se encontrou "umas seis vezes" com Juan Carlos "em casa" de El-Assir para caçar, "a última das quais foi em Setembro". A "proximidade" do monarca espanhol a El-Assir tem sido aliás objecto de comentários por parte da imprensa espanhola, que põe em causa algumas das ligações de Juan Carlos, observando que três dos seus amigos "mais íntimos", Manolo Prado (envolvido em escândalos económicos), Javier de la Rosa (ligado à KIO) e Mário Conde (ex-presidente do Banesto), estão condenados criminalmente. O referido artigo do "El Mundo" tem mesmo como título: "Abdul El-Assir: outro amigo estranho do Rei."

De acordo com os jornalistas, El-Assir deslocou-se em 2003 a Portugal para assistir ao casamento da filha de Dias Loureiro, Joana, com o filho do então secretário-geral do PS, Ferro Rodrigues, João. O ex-ministro de Cavaco Silva confirma-o: "É verdade que esteve nos casamentos das minhas duas filhas e o seu cunhado também." No Convento do Beato, em Lisboa, "junto à nata da política portuguesa [Durão Barroso, Cavaco Silva, Mário Soares...], Agag e a mulher partilharam a mesa com El-Assir: todos velhos conhecidos, todos amigos para convites e para os negócios", escrevem Ribagorda e Cardero. E lembram que o libanês foi igualmente convidado, em 2002, para o casamento de Alejandro Agag com a filha de Aznar, onde estiveram mil pessoas, incluindo um ex-primeiro-ministro português António Guterres, o então chefe de Governo, Durão Barroso, e um ex-ministro da Administração Interna, Dias Loureiro. Daí concluem: "Como se pode apreciar, as conexões de uns e de outros fazem com que tudo fique em casa."

Advogado pede correcção ao livro

Dias Loureiro explicou ao PÚBLICO que "foi um amigo, Antoni Asuncion" [ministro do Interior de Espanha em 1994, quem me] chamou a atenção para o facto de o meu nome constar [da publicação 'Los PPijos', o] que desconhecia." O contacto, disse, ocorreu por volta de 8 de Novembro, oito meses após o livro ter sido editado. Dois dias depois Dias Loureiro entrou em contacto com um advogado para "repor a verdade".

O actual presidente da mesa da assembleia-geral do PSD conta que foi Asuncion que lhe sugeriu que procurasse Javier Beox. "[Na altura], manifestei logo vontade de colocar um processo contra os autores de 'Los PPijos' por difamação", disse Dias Loureiro, admitindo ter sido "aconselhado a não o fazer, já que não havia ali um crime, mas apenas uma inexactidão", pois não é "sócio" de El-Assir, apenas seu amigo. "Nunca fui sócio dele, não sou, nem serei", assegurou ao PÚBLICO. "[Foi por esta razão que] solicitei que em próximas edições o meu nome deixe de constar do livro enquanto sócio de El- Assir."

Genro de Aznar trabalhou para o Banco Português de Negócios

Alejandro Agag é a figura central do "Clan de Becerril", um grupo que gozou de enorme influência nos anos de governação do PP

Em "Los PPijos", editado em Março de 2004, Ribagorda e Cardero traçam um retrato pormenorizado do grupo de jovens políticos do Partido Popular (PP) espanhol, conhecido por "Clan de Becerril", reunidos em torno de Alejandro Agag. Uma nova geração da direita espanhola que prosperou à sombra do ex-primeiro-ministro Aznar e que partilha entre si um espaço de influência no mundo político, social e económico castelhano. Todos têm apelidos sonantes e são ricos e "bonitos".

O "astro" do grupo é Agag, cuja meteórica ascensão ao estrelato do seu país é analisada com detalhe em "Los PPijos". Aos 23 anos já era vice-secretário-geral do PP Europeu por indicação de Aznar. Filho de pai belga, de origem argelina e ex-secretário-geral do Banco Nacional de Argélia, e de Soledad Longo, autarca madrilena, Agag é economista e estudou no Colégio Retamar, da Opus Dei. Em 2002 foi convidado por José Oliveira e Costa, presidente do BPN e antigo secretário de Estado dos Assuntos Fiscais de Cavaco Silva, para ser seu "assessor pessoal". O banqueiro justificou a sua decisão por se tratar de "uma figura muito conhecida em Espanha" e que se adaptava ao "quadro de necessidades do BPN", que pretendia expandir os seus negócios naquele país.

O convite a Agag foi sugerido por Dias Loureiro, administrador e accionista do banco. O dirigente social-democrata admite que, na altura, no quadro das suas funções partidárias, conhecia bem os dirigentes do PP, tendo sido "a pedido deles que trouxe a Portugal duas vezes Aznar". Questionado sobre o seu relacionamento com o resto do "Clan Becerril", diz que não leu "Los PPijos" (a associação do seu nome a Agag e a El-Assir foi-lhe comunicada por um amigo), desconhecendo os outros nomes mencionados no livro.

Linha directa para Berlusconi, Barroso, Chirac...

Quanto a Agag, Francisco Sanches, do BPN, disse ao PÚBLICO que "há cerca de um ano que terminámos a ligação com ele". Mais: o BPN também já não tem qualquer ligação ao grupo de El-Assir, facto que o libanês confirma. O grupo bancário de Dias Loureiro esteve em 2004 sob escrutínio da autoridade de supervisão, o Banco de Portugal, que solicitou à instituição que clarificasse as relações existentes entre a sua actividade bancária e os investimentos empresariais do grupo, que tem tido nos últimos anos elevadas taxas de rentabilidade e crescimento.

Com a subida ao poder dos socialistas o "Clan Becerril" viu a sua margem de manobra política diminuir, mantendo-se activo nos bastidores dos grandes negócios e gerindo uma rede "apetecível de contactos". Ribagorda e Cardera descrevem um episódio relatado por "um velho lobo-do-mar da política espanhola, Rodolfo Martín Villa", que, referindo-se ao genro de Aznar, disse: "Fiquei espantado quando o vi sacar do telefone e falar com Berlusconi." Agag também possuía "linha directa" para "Chirac, Barroso". A 11 de Fevereiro de 2003 o "El Pais" dava conta da operação e adiantava que Agag actuou como intermediário, estando já ao serviço do BPN. A 17 de Março um portal imobiliário anunciava que tinha cobrado 300.500 euros pelos seus serviços. Uma versão que Francisco Sanches nega: "Essa operação nada teve a ver com o BPN."

Este episódio envolvendo a Metrovacesa é um de vários narrados em "Los PPijos", onde se destaca uma pequena "história" que diz respeito a um negócio de Estado que terá ocorrido também em 2003. Agag participou então num jantar em Madrid com dois xeques sauditas e António Oyarzábal, presidente da empresa de fabrico de veículos de combate Santa Bárbara. Os árabes vinham para investir em armamento e em "Los PPijos", diz-se que Agag actuava como intermediário, embora este negue. Ribagorda e Cardero contam que o negócio não se chegou a efectuar, estando ainda em causa "um crédito de 60 milhões de euros" concedido a Juan Carlos "em condições muito vantajosas para o monarca espanhol". Um empréstimo que à data da publicação do livro ainda não teria sido liquidado.

As ligações a negócios de armamento

De acordo com os autores de "Los PPijos", El-Assir participou em 1994 em duas operações de venda de armas espanholas ao Reino de Marrocos. O empresário libanês terá pedido "5000 milhões de pesetas ao Governo [de Madrid] para intermediar" os negócios. O "El Mundo", de 16 de Maio de 2004, põe em evidência que o montante final atingiu os 10 milhões de pesetas. O dinheiro "era depositado numa conta na Suíça em nome de sociedades com sede no Panamá e em outros paraísos fiscais", escreveu Ildefonso Olmedo, no "El Mundo". Aí o nome do libanês aparece "junto ao do traficante de armas sírio Al-Kassar, em um dos muitos escândalos que atingiram Menem", o ex-Presidente da Argentina. E em 1996, diz a imprensa, o libanês foi chamado ao Peru para depor no âmbito "do enriquecimento ilícito" do ex-Presidente Alan Garcia, condenado.

O jornalista do "El Mundo" afirma que a partir de 1994 El-Assir optou por "mudar de vida" - "tornou-se invisível" e assumiu uma "trajectória" respeitável. Em Maio de 2001, aparece ao lado de Bill Clinton, numa viagem que este fez a Madrid. Naquele dia, o libanês e Clinton "jogaram golfe", conta o "El Mundo", e jantaram "com Agag e Ana Aznar, ainda noivos".

Outro dos nomes referidos agora em "Los PPijos" pelas suas ligações a El-Assir é o do saudita Adnan Kashogui, o comerciante de armamento internacional, cunhado de El-Assir. Ribagorda e Cardero sublinham a proximidade de Kashogui e de El-Assir. Os seus nomes surgem na imprensa internacional associados a vários escândalos, como o das exportações de armas espanholas nos tempos do PSOE, entre 1982 e 1990.

Para além de outros escândalos ligados à venda de material bélico, o nome de Kashogui é referido como tendo sido alvo de investigações no âmbito do Banco de Crédito e Comércio Internacional, onde se disse que tinha conta pessoal. De acordo com os autores do livro, Kashogui é irmão da primeira mulher de El-Assir, Samira Kashogui (mãe de Dody Al-Fayed, que morreu no acidente que vitimou a princesa Diana), com quem o libanês se casou em 1976 em França. Dez anos depois, voltaria a fazê-lo, desta vez, com uma espanhola, Maria Fernández Longoria.