O bairro cultural de Lisboa

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Partindo de uma reflexão sobre actividades culturais em relação com o desenvolvimento dos territórios, o investigador Pedro Costa analisou o Bairro Alto no livro "A Cultura em Lisboa".

Há-os em muitas cidades. O seu modelo é variável mas, por norma, são zonas que foram reconvertidas, com um ambiente criativo e informal, mistura de cafés, bares, galerias de arte ou salas de concertos, onde artistas emergentes podem experimentar.

São os chamados bairros culturais, cada vez mais enaltecidos por permitirem um estilo de vida de escala humana e por serem sinónimo, quando equilibrados, de desenvolvimento económico sustentável. As suas fronteiras podem ser indefinidas, mas quando desembocamos num desses locais sentimos de imediato que não só entrámos numa comunidade cultural como podemos participar dela, de maneira interactiva.

Hoje, esse tipo de territórios ganhou nova pertinência, também porque o sentido de cultura foi alterado, englobando indústrias culturais tradicionais, novas indústrias de conteúdos, formas consagradas de arte ou manifestações emergentes associadas às formas de sociabilidade urbana juvenis.

Motivado por isto, há quatro anos, Pedro Costa - professor do Departamento de Economia do ISCTE e investigador do Dinâmia (Centro Estudos Sobre a Mudança Socioeconómica), que lidera o grupo de trabalho para as Estratégias para a Cultura em Lisboa - concluiu uma tese de doutoramento que parte de uma reflexão sobre as actividades culturais em relação com o desenvolvimento dos territórios e que incide sobre a Área Metropolitana de Lisboa, em particular o principal bairro cultural da cidade, a zona do Bairro Alto e Chiado. Uma versão dessa tese foi lançada em livro: "A Cultura em Lisboa - competitividade e desenvolvimento territorial (edi. Imprensa de Ciências Sociais)."

"Esta é a zona da cidade que mais facilmente se poderá assemelhar a um bairro cultural", diz-nos, "não só pela quantidade e diversidade de agentes que aqui se localizam, como pelo potencial simbólico que usufrui na cidade, bem como pelos efeitos externos gerados pela conjugação dessas características. Isso foi decisivo para me debruçar sobre este eixo, dedicando atenção ao papel da inovação e da criatividade nas dinâmicas geradas na zona, bem como na sua afirmação competitiva e na sua sustentabilidade, não deixando de lado os conflitos existentes."

Sinergias e diferenças

Entre o Bairro Alto e o Chiado existem sinergias, mas também diferenças. "São dois sistemas autónomos", reflecte, "o lado mais nocturno ligado à transgressão, a actividades emergentes, no Bairro Alto, e o lado mais institucional, diurno, no Chiado, onde existe a maior concentração de livrarias do país."

A zona é um dos pólos principais da cidade no que respeita à animação nocturna, às artes performativas, à moda, aos antiquários, ao sector do livro, a segmentos da produção audiovisual ou a alguns dos mercados alternativos das indústrias culturais, por exemplo. Evidencia-se pela quantidade de actividades culturais aí implantadas, mas sobretudo pelo desenvolvimento de um meio criativo propício à circulação da informação, à difusão da inovação e à maneira tolerante como são recebidas as demonstrações culturais mais alternativas.
"É um espaço onde é necessário estar, ir, ser visto, encetar contactos e divulgar lá coisas", afirma. "É um pólo nesse sentido, funcionando como base do sistema produtivo das actividades culturais. Por outro lado, possui um sistema de (auto)governação específico e um sistema de representações próprio - os agentes que lá estão reconhecem o local como um bairro cultural e, externamente, é visto dessa forma, o que beneficia quem lá está."

Uma das conclusões que mais o surpreendeu foi ter percebido que os agentes do bairro não tinham especial apetência para reclamar políticas públicas em termos culturais. "Não queriam apoios nem intervenções estatais. Queriam, isso sim, ver resolvidas questões como o estacionamento, a aglomeração automóvel ou a requalificação do espaço público". Ou seja, o que é necessário são políticas transversais que possam garantir a estabilidade da área.

Modelos

O exemplo do Bairro Alto difere do de outros bairros culturais pela sua duração. Não é comum uma zona com estas características manter a centralidade durante tantos anos. "Nos EUA são normais fenómenos de gentrificação. Os artistas dão nome e visibilidade ao bairro, criam valor imobiliário, a zona é apropriada por outras pessoas e os artistas vão saindo."

Em Inglaterra é diferente. "As operações são conduzidas pelos poderes públicos, promovendo agências de desenvolvimento local, que actuam, por norma, em zonas industriais, facilitando o aparecimento de actividades culturais", funcionando como veículo de requalificação urbanística de espaços degradados ou reconvertidos. "A Expo, nesse particular, foi uma oportunidade perdida. Houve reconversão urbana, mas em termos culturais não se pode dizer que tenha tido sucesso."
Um outro modelo é aquele que permite que, através da iniciativa de vários agentes da mesma área de actividade, se tente criar uma área com motivações comuns. É isso que tem sido tentado em Lisboa com o projecto "Santos Design District", em Santos.

No Bairro Alto ainda não existe um fenómeno de gentrificação, mas anos depois de ter desenvolvido o seu trabalho, Costa é da opinião que existe um perigo de massificação. "Não é compatível ter uma área criativa e vanguardista sendo massificada. Já se sente isso, com pessoas a saírem para zonas envolventes, da Bica ao Cais do Sodré. Por outro lado, socialmente, mais pessoas pode ser sinónimo de mais conflitos."
Quando começou a desenvolver o seu trabalho, a importância e o valor estratégico das actividades culturais para o desenvolvimento territorial ainda não tinham o reconhecimento que hoje têm. Mas no último ano, modelos como o das "cidades criativas" ou noções como o de "indústrias criativas" ganharam visibilidade em Portugal porque parece existir, por fim, até da parte do poder político, a noção que são necessários novos modelos de desenvolvimento que cruzem cultura, urbanismo, economia e questões sociais. Mas Pedro Costa espera que a questão não se fique apenas pela retórica. Até porque se "por um lado existe esse tipo de discurso, depois reduz-se o orçamento do estado para a cultura." Ora, o que faz sentido quando se acredita numa área de actuação nova é aumentar o orçamento e não reduzi-lo.

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