Hollywood namorou com Bollywood numa cerimónia pouco americana

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Eis a cerimónia: Hollywood a mastigar a sua memória, enquanto o palco se enchia de ingleses, australianos, espanhóis, de músicos e orquestras indianas, e o filme vencedor era uma produção britânica devedora da estética da MTV e do espírito de Bollywood

"O musical está de volta!", gritou Hugh Jackman por duas vezes, a abrir e a fechar o número de bailado (por sinal, bastante enfadonho) com que a cerimónia da madrugada de segunda-feira cumpriu o aceno da praxe à memória e à tradição de uma Hollywood que já não existe - nem a clássica propriamente dita, nem a dos anos 70. Pareceu, primeiro, um pouco despropositado, até aleatório. O musical está de volta? Porquê proclamá-lo agora (Mamma Mia?) e não há meia dúzia de anos, quando o Óscar principal até foi para Chicago, um filme (mal ou bem, mais mal que bem) ortodoxamente inscrito no género musical tradicional? Pareceu, à segunda, e depois do giro pela memória, uma coisa um pouco mais desesperada, ou sonhadora. Wishful thinking: o musical está de volta, se todos o quisermos com muita força, se Hugh Jackman o gritar muitas vezes. Hollywood, a fábrica de sonhos, volta e meia é a primeira cliente da sua própria estratégia de produção de ilusão. E acredita, sinceramente, que a tradição, toda a sua riquíssima história, se actualiza e se reformula aqui e agora pela simples acção de uma quantas palavras mágicas. O wishful thinking de Jackman foi o momento em que se exprimiu um drama que Hollywood, nalgumas ocasiões nem por isso muito desajeitadamente, tenta resolver a cada cerimónia dos Óscares: que faremos nós com esta história, com esta herança? Que faremos nós com esta espada?

A globalização

É simples a razão por que o musical não está de volta: o mundo do musical - do musical de que Jackman falava - já acabou e ninguém espera que regresse. A cerimónia de anteontem também o provou. Hollywood a mastigar a sua memória (graças a Deus que ainda existe Eva Marie Saint e bem de saúde), enquanto o palco do Kodak Theatre se enchia de actores ingleses e australianos, de músicos e orquestras indianas, e o filme vencedor da noite era uma produção britânica devedora da estética da MTV e do espírito de Bollywood. Um pós-Hollywood e, sobretudo, um para além de Hollywood. A espada é poderosa, mas é uma espada de outro tempo, incapaz de resolver os problemas deste. Um tempo em que as fábricas de sonhos se multiplicaram, em que a indústria de Hollywood se sente cada vez menos sozinha. Quando Spielberg, o "patrão", foi ao palco entregar o Óscar da consagração a Slumdog, pudemos ver ali qualquer coisa de simbólico: a oficialização do namoro de Hollywood a Bollywood, com os britânicos como chaperons e os oceânicos como testemunhas. A joint-venture perfeita: é que os chineses, também na indústria de cinema, estão cada vez mais poderosos.

Um mundo novo. De volta, garantidamente, só os Óscares, daqui a um ano. Reconfortantes no seu folclore, superficiais nos seus processos de legitimação, e, de vez em quando, muito de vez em quando, comoventes. Como quando se fez um silêncio esquisito na sala para acolher o Óscar de Heath Ledger. Ou quando Sean Penn se referiu ao seu rival derrotado: "Mickey Rourke rises again, and he's my brother." Ainda há poesia nos Óscares, quem diria.

Foram 24 os prémios atribuídos, mas poucos foram para norte-americanos. Os quatro prémios de interpretação foram para actores de quatro nacionalidades diferentes e apenas um foi norte-americano, Sean Penn (melhor actor). Os outros foram para uma inglesa (Kate Winslet, O Leitor), uma espanhola (Penélope Cruz, Vicky Christina Barcelona) e um australiano (Heath Ledger, O Cavaleiro das Trevas).
Nas outras categorias principais, o melhor filme, Quem Quer Ser Bilionário?, é uma produção inglesa, e o seu realizador (Danny Boyle) e argumentista (Simon Beaufoy) também britânicos. O prémio da melhor banda sonora e a melhor canção foram para o indiano A. R. Rahman.