Manoel de Oliveira por Manoel de Oliveira

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O cinema e a vida. Singularidades de um cineasta em discurso directo de Berlim, onde apresentou "Singularidades de uma Rapariga Loura"

Em Berlim, onde veio apresentar "Singularidades de uma Rapariga Loura", Manoel de Oliveira respondeu durante uma hora as perguntas de jornalistas europeus, numa conferência de imprensa insuficientemente concorrida devido ao adiantado da hora. Oliveira falou sobre muita coisa e, sobretudo, sobre a sua visão do cinema e da vida. Excertos em discurso directo

"Pensei muito qual seria a melhor música que se ajustaria ao filme e decidi que o melhor era não pôr música. Acho que a música soa bastante melhor num filme romântico do que num filme realista; a única música que se ouve no filme é a que se toca [durante a acção]. Ouve-se o badalar ds sinos porque é aquilo que ouvi enquanto fimava no exterior. Achei interessante que não se usasse música nenhuma e penso que não fará falta."

"A intenção [de filmar até onde puder] é boa, agora quanto tempo demoro por cá... Não depende de mim. Nenhum de nós nasceu por vontade própria; a idade e a felicidade estão dependentes de forças obscuras que não controlamos. Não somos senhores do futuro."

"No livro [de Eça de Queiroz], Macário confessa-se a um companheiro. [No filme, confessa-se a uma senhora sentada ao seu lado no comboio, interpretada por Leonor Silveira.] Achei mais viável o desabafo a uma senhora do que a outro homem, achei mais bonito, mais sedutor. De resto, as mulheres têm esse pendor, elas percebem os homens, já que eles não as percebem tão bem... A mulher é o lado feminino do universo, a parte fundamentel na continuidade das espécies. Já Agustina Bessa-Luis dizia, referindo-se à Virgem, que a Mulher é a Mãe de Deus. A mulher, digo eu agora, é a mãe da humanidade."

"Ingmar Bergman, quando tinha um diálogo mais rico, mais profundo, parava completamente a câmara e parava o movimento dos actores, para darem atenção ao que se dizia. Quando os Lumière faziam fotografias móveis, o interesse deles é que as pessoas se movessem dentro das fotografias - o écrã está sempre parado, há uma distinção importante entre acção e movimento."

"Há uma fórmula que adoro, que li escrita no jornal a propósito de uma escultura em Modena de Donatelli, que dizia 'ele consegue a simplicidade dos gregos e o realismo da Renascença'. Achei esta ideia magnífica: ser simples quer também dizer ser claro, e ser claro é trazer á superfície o que é mais profundo."

"Há poucos realizadores que separam o lado íntimo do lado público. Pasolini foi um dos que foi mais longe no perfurar do lado íntimo das pessoas. Muito poucos realizadores respeitam esse lado íntimo. Buñuel é um homem escandaloso, mas que respeita o lado íntimo, tal como Bresson, o próprio Orson Welles. É uma questão de valores que se vão perdendo."

"Tenho uma ligação com a Alemanha na parte cinematográfica, na história da câmara e das máquinas... Tenho percorrido aqui muito tempo, nunca esquecendo os grandes mestres alemães como Fritz Lang, Murnau, Ernst Lubitsch, e os actuais como Wim Wenders, um homem extraordinário. O cinema de cada país não é este ou aquele realizador; não é singular, é plural. São o conjunto dos realizadores desse país que representam o cinema desse país, cada um à sua maneira e não um só. Na Renascença, todos pintavam a mesma coisa e eram todos diferentes; a verdadeira originalidade está na personalidade do autor."