O maltrapilho e o "jackpot"

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Porquê tanta euforia com "Quem quer ser Bilionário?"?

"Quem Quer Ser Bilionário?" é um fenómeno tão grande que ninguém pode deixar de reparar nele. As metáforas usadas para descrevê-lo são reveladoras do impacto - "um tsunami de afecto", foi como o crítico do "Los Angeles Times" Patrick Goldstein se referiu à unanimidade com que o filme foi recebido, pelo público e pela crítica (ao ponto de sugerir que uma crítica dissonante fazia parte de uma deliberada campanha contra o filme; não é difícil perceber porque é que Goldstein pensa isso quando se vê com quem ele tem andado a falar: a única fonte citada é a directora de marketing da distribuidora americana de "Quem Quer Ser Bilionário?", a Fox Searchlight).

O filme talvez venha a definir um novo patamar de fenómenos imprevisíveis - o que se passou no último mês foi uma epopeia anabolizante, que varreu os prémios e as nomeações principais do cinema americano, encheu as caixas de comentários de blogues e jornais, teve uma ascensão mercurial nas salas e tornou-se no "must" da temporada. Segundo a Associated Press, vários votantes da Academia de Hollywood viram o filme (nomeado para dez Óscares) seis ou sete vezes.

Indian dream

A história parece tanto mais improvável por, neste caso, a acumulação de experiência não ter servido para nada: tudo começou e está a passar essencialmente pela América, onde um filme estrangeiro, parcialmente legendado, sem estrelas e com um orçamento modesto (para Hollywood) não costuma chegar tão longe.

"Quem Quer Ser Bilionário?" é a história de um miúdo de um bairro de lata de Bombaim, na Índia, órfão e quase analfabeto, que, contra todas as probabilidades, vence o concurso televisivo Quem Quer Ser Milionário (e fica com a rapariga no fim). As comparações entre o protagonista e o percurso do filme tornaram-se tentadoras - os dois são "winners", vencedores que contrariaram os obstáculos e atingiram o "jackpot". Danny Boyle, o realizador britânico, tem reagido como o vencedor da lotaria que ainda mal acredita na sorte que teve.

As coisas grandes são as mais complicadas de ver ao microscópio: porquê tanta euforia?
Anand Giridharadas, colunista do "International Herald Tribune" sediado em Bombaim, um filho de indianos nascido na América, escrevia, há duas semanas, que "Quem Quer Ser Bilionário?" talvez fosse "o primeiro filme internacional sobre a Índia a descartar as velhas e manchadas lentes com que se olhava o país". Não foi a única novidade trazida pelo filme, reforça, e começa aqui a teoria que outros também aplicam: "O filme retrata uma Índia em mudança, (...) uma terra de 'self-makers', onde um maltrapilho de um bairro de lata pode, contando apenas com o seu esforço, elevar-se socialmente, ignorar as suas origens e romper com o destino". Isto, defende Giridharadas, talvez explique "o estranho fascínio" que o filme está a ter junto dos americanos: ele reflecte a fantasia americana, Gatsbyana da auto-invenção (o "Gatsby" de F. Scott Fitzgerald deu ao "American dream", a ideia da terra das oportunidades, a sua frase seminal, sobre os "segundos actos nas vidas americanas").

"É um elogio à Índia", diz Constantino H. Xavier, investigador no Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI), que viveu quatro anos em Nova Deli até 2008. "Vem demonstrar uma nova Índia, Gatsbyana, com a assunção do individualismo e da ascensão social." O que parecia uma impossibilidade até há pouco tempo, no país das castas, do determinismo social. "A história do filme é fantástica mas bastante real", um reconhecimento da "grande capacidade de persistência" dos indianos. O protagonista "ganha o concurso graças aos saberes que acumula na vida e não numa escola de elite. A Índia hoje é isso: pessoas que vêm do nada, de zonas rurais subdesenvolvidas e esquecidas, e que conseguem subir na vida", conclui.

A América gostou tanto porque se reconheceu num filme rodado na Índia? "A América descobriu a Índia nos últimos dois ou três anos", explica o escocês Ian Jack, correspondente do "Sunday Times" na Índia nos anos 80 e colunista do "The Guardian". "Tem a ver com a geopolítica. Hoje, na Índia, fala-se de uma espécie de aliança para combater o terrorismo que incluiria a Índia, Israel e os Estados Unidos. Existe o sentimento de que a Índia e a América estão do mesmo lado nesse campo. A ideia que se tinha da Índia, como país meio socialista, um não-alinhado entre os Estados Unidos e a Rússia, desapareceu. Quando comecei a ir à Índia, a partir de 1976, o tipo de sotaque anglófono que se ouvia no país era britânico, tipicamente Oxford-Cambridge-BBC. Agora, cada vez mais, tende a ser americano - o MBA que voltou da faculdade de gestão de Princeton ou Harvard, ou coisa do género. Seguramente, há uma simpatia e um interesse muito maiores de parte a parte."

É a economia, estúpido

O "Wall Street Journal" declarou que "Quem Quer Ser Bilionário?" é "a primeira obra-prima globalizada do mundo do cinema", um híbrido de referências e influências de espírito universalista. A teoria de que tem ressonâncias com a eleição de Obama colhe adeptos, ancorados no optimismo e no apelo universal do filme. Sukdhev Sandhu, crítico do "Daily Telegraph", um inglês de ascendência indiana, tece comparações com o discurso da tomada de posse do novo presidente americano, que foi "muito realista, até austero, num período de recessão económica" mas também acompanhado de uma mensagem de esperança, de "um desejo de mudança".

A ideia de que a popularidade do filme está ligada à crise económica tem sido uma das teses mais repetidas. "São cada vez mais os que, entre nós, vivem numa espécie de bairro de lata", diz Sandhu. "Estamos a perder os empregos, vemo-nos forçados a aceitar reduções de salário, e os nossos sonhos parecem cada vez mais precários. Podemos partilhar as emoções e perceber a natureza do medo da pobreza."

"Vivemos tempos difíceis, por causa da recessão", reitera Naman Ramachandran, crítico que colabora com a revista britânica "Sight & Sound". O filme, com a sua história redentora, surge num "clima em que as pessoas estão desesperadamente à procura de qualquer coisa que as faça sentirem-se bem."

Yudhishthir Raj Isar, especialista indiano em Globalização e Economia que vive em França, acrescenta: "A Índia está na moda, as pessoas perceberam que há uma energia e vitalidade naquele país, até nos seus pobres, que têm mais energia do que os pobres na Europa. No Ocidente, a pobreza está escondida, não falamos dela. Graças ao Estado-Providência, é mais fácil ser pobre do que na Índia."
Isso explica o "box-office", mas será que explica as nomeações para os Óscares?
"A América é a terra dos 'reality shows', e este filme embrulha a realidade com frescura, de uma maneira que nenhum estúdio americano foi capaz de fazer", diz Naman Ramachandran. "Veja 'Benjamin Button': é o 'Forrest Gump' outra vez, não há nada de novo. 'Quem Quer Ser Bilionário?' é uma lufada de ar fresco."

As duas Índias

Mas isso é na América. Faltava saber como é que a Índia iria reagir.
O actor Amitabh Bachchan, decano de Bollywood cuja imagem aparece em "Quem Quer Ser Bilionário?", iniciou as hostilidades no seu blogue [ver cronologia], escrevendo que a pobreza retratada por Boyle não é exclusiva da Índia, mas também existe e prospera no Ocidente. Isso foi interpretado como o ataque de alguém ferido no seu orgulho nacional: Bachchan deu rosto ao milagre económico da Índia - no YouTube pode ver-se um vídeo promocional intitulado "India vs. India", em que o actor diz: "Existem duas Índias neste país. Uma Índia está a puxar a coleira, desejosa de seguir em frente e estar à altura de todos os adjectivos que o mundo tem derramado sobre nós recentemente. A outra Índia é a coleira." Enquanto fala, deixa bem claro de que lado é que está.

O desabafo do actor no blogue polarizou a discussão na Índia, o filme ganhou inimigos ainda antes de chegar, inimigos que, ecoando os sentimentos de Bachchan, acusavam "o Ocidente" de demonstrar um fascínio mórbido pela pobreza indiana. Ao ponto de a estreia na Índia, a 23 de Janeiro, parecer o maior desafio ao sucesso e unanimidade do filme. Houve protestos de rua, mas é exagerado falar de polémica, garante ao Ípsilon o editor da "Time Out India", Naresh Fernandes. "Uma polémica na Índia é o que se passou com 'Salaam Bombay' ou com 'Os Versículos Satânicos', que mobilizaram multidões sobre as quais a polícia disparou, matando várias pessoas. Os protestos têm sido minúsculos, a televisão mostra sempre o mesmo grupo. Na Índia não é difícil juntar uma pequena multidão. Não é sequer difícil juntar uma grande multidão!", ironiza.

Rasheeda Bhagat, editora no jornal indiano de língua inglesa "The Hindu", também desdramatiza: "As opiniões dividiram-se, mas só uma minoria é que sente que Danny Boyle glamorizou a pobreza indiana e seguiu uma fórmula para conseguir vendê-la aos espectadores ocidentais."
Naresh Fernandes acrescenta que a reacção indiana - "Se olhar para as páginas de opinião de alguns jornais indianos, verá que as pessoas estão a dizer: 'Mas qual é o problema? Quem disse que estamos zangados?'" - parece indicar "que os indianos adquiriram um certo grau de maturidade e auto-confiança".
"Acho que a Índia é hoje um lugar diferente [do que era]", diz Ian Jack. Apesar de ainda prestar atenção à aprovação internacional - "Nenhum romance indiano é declarado um sucesso antes de ser publicado em Londres ou Nova Iorque" - a Índia já não se importa tanto com o que as pessoas pensam dela, argumenta. E isso deve-se a quê? "Dinheiro, dinheiro, dinheiro, dinheiro. Parece-me que os indianos se sentem mais importantes do que nunca."

A verdade é que as mais sonoras críticas a Amitabh Bachchan vieram da própria Índia. As declarações do actor foram criticadas por serem a expressão de uma elite endinheirada com uma crónica atitude de avestruz em relação à pobreza no país, uma elite que quer medir forças com as potências mundiais e que encara tudo o que não corresponde a essa visão como um atavismo. "Quem Quer Ser Bilionário?" mostra a nova Índia, dos arranha-céus, como uma força imparável (e assinala que ali é "o centro do centro do mundo"), mas houve quem denunciasse o filme como ataque deliberado de um Ocidente invejoso à pujança indiana: "'Quem Quer Ser Bilionário?' limita-se a arrecadar toda a porcaria de todos os cantos e a amontoá-la de forma a atingir o poderio crescente da Índia", escreveu o produtor de cinema e guru de marketing Arindam Chaudhuri no seu blogue "Passionate About India". A resposta, do lado da defesa, foi: só um ocidental é que podia fazer este filme porque Bollywood está entretida com os seus filmes faz-de-conta sobre ricos e é cega à realidade do país.

Conta Naman Ramachandran, o crítico que colabora com a "Sight & Sound" e que esteve presente na antestreia indiana do filme: "Foi uma cerimónia repleta das pessoas mais importantes de Bollywood. Aplaudiram o filme e vários realizadores deram os parabéns a Danny Boyle. Em privado, um deles comentou comigo: 'Que absurdo é este? Não existe um enredo nem canções a sério! Não vejo o que tem de especial. Consigo fazer um filme melhor do que este.' A minha resposta foi: 'Então faça, e depois falamos.'"

Na Índia, a versão inglesa do filme tem tido uma afluência de 70 por cento (da ocupação das salas), enquanto a versão hindi, destinada a cativar as camadas mais populares, se tem ficado pelos 25 por cento. Pedimos um comentário a Ian Jack sobre a reacção indiana e a resposta é: "Já esteve na Índia? É um lugar muito difícil de generalizar porque é tão grande. Não sabemos como é que o grosso da população está a reagir ou reagiria. Eu telefonei a membros da chamada elite fluente na língua inglesa, que é uma pequena proporção da população, mas muito influente, e não encontrei ninguém que não tivesse gostado do filme. Mas não sabemos o suficiente. Tudo o que sabemos é que falámos com umas pessoas que sabem inglês e lêem livros."