Viagens à Índia

Foto

O que nos desgosta em "Quem quer ser Bilionário?" não é a miséria, mas a pobreza do olhar de Danny Boyle

Dizer que Danny Boyle devia ter ido filmar os bairros de lata do seu próprio país em vez de ir filmar os da Índia, como têm argumentado algumas reacções indianas pouco agradadas com "Quem quer ser Bilionário?", que hoje estreia nas salas portuguesas, não nos leva longe - até porque filmar bairros de lata é em geral actividade pouco apreciada, como em Portugal bem se vê pela indignação de tanta luminária opinativa aos filmes em que Pedro Costa foi filmar os bairros de lata do seu próprio país. É importante que se perceba que o que nos desgosta em "Quem quer ser Bilionário?" não é o bairro de lata, nem é a miséria, mas antes a pobreza do olhar com que Danny Boyle os filma. Num certo sentido, os indianos zangados têm razão: este filme podia ter sido feito em qualquer lado, exactamente da mesma maneira.

Para além de macaquear uns quantos elementos (simples "efeitos", na verdade) que com muito boa vontade podem ser entendidos como referência ao cinema de Bollywood (que agora caiu no goto como se fosse uma vaca sagrada: mas também há a Bollywood intragável no seu "kitsch" irredimiavelmente publicitário), para além disso, perguntávamos, que vê Danny Boyle na Índia que não visse noutro lado qualquer? Até a televisão é a mesma, é a televisão dos "formatos" e o "Quem quer Ser Milionário?"... Danny Boyle é daqueles cineastas que fazem preceder a discussão sobre o seu talento (nulo, diga-se de passagem) de uma discussão sobre a sua "visão do mundo". Dá a impressão que nunca saiu de "Trainspotting", que é assim que vê o mundo, apenas um grande "Trainspotting", esteja-se onde se estiver. Se há alguma "proeza" em "Quem quer ser Bilionário?", ela consiste apenas nisto: num espantoso trabalho de "torção" para fazer caber a Índia dentro da sua estreita visão do mundo. Boyle não foi à Índia, trouxe a Índia para dentro de "Trainspotting", para dentro dos seus estereótipos sociais (ricos e pobres) e figurativos (os efeitozinhos "clipescos" e publicitários). É impressionante a insensibilidade do seu olhar, a falta de disponibilidade - é um filme cego, vê o que as palas que tem nos olhos lhe permitem ver.

No contexto eufórico que aclama "Quem quer ser Bilionário?" como a oitava maravilha do mundo valerá a pena lembrar que outros cineastas ocidentais (mas enfim, não resistimos: verdadeiros cineastas) viveram as suas "viagens à Índia" com o tipo de disponibilidade que falta a Boyle, e com a modéstia (e a inteligência, e a sensibilidade) para construírem os seus filmes no balanço entre as certezas que traziam da Europa e aquilo que a Índia lhes revelou? Que "O Rio Sagrado" de Renoir (para mais um filme com uma perspectiva radicalmente ocidentalizada: são as memórias de um "casulo" na Índia colonial britânica) ou a "Índia" de Roberto Rossellini são filmes totalmente embebidos por um "mistério indiano", um mistério perscrutado numa relação com a geografia (algo completamente ausente do filme de Boyle), com a religião, com a cultura, com a sociedade, com o povo - e que essa Índia, que não exclui a "miséria" (ver por exemplo o "Calcutá" de Louis Malle), é olhada com uma nobreza cinematográfica nos antípodas da vulgaridade de Boyle? Se, por alguma lei obscura (a lei do "só quer entreter"), se invalidar a aproximação do filme de Boyle aos de Renoir e Rossellini, temos à mão um cineasta americano que está bem longe de gozar de tão canónico estatuto. Wes Anderson, cujo último filme, "The Darjeeling Limited", também se passava na Índia. Anderson filmava-a com uma ideia estética - as cores, os aromas, a paisagem, os templos - e fazia a ética decorrer dela. Boyle só tem uma ideia ética (uma imagem esterotipada do "terceiro mundo") - naturalmente infere dela toda a (pobre) estética de "Quem quer ser Bilionário?". Em "Darjeeling", perto do fim, a personagem de Adrian Brody, depois de uma viagem em que nunca pareceu especialmente interessado no que o rodeava, dizia "nunca me vou esquecer do cheiro deste país" e falava do perfume a especiarias. Danny Boyle não conseguiu sentir mais do que o cheiro a merda. Cada um tem o nariz que tem.