A arte vence o nojo?

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Até 1 de Março um ciclo no CCB confronta nazismo e cultura.

É um momento de tensão. Em "Valquíria", o filme de Bryan Singer, o coronel Claus von Stauffenberg está na sala de Hitler, tem na mão o "dossier" da Operação Valquíria e espera a assinatura do ditador - que estaria assim, sem o saber, a assinar a sua sentença de morte. A alteração dos planos da Operação Valquíria deveria permitir aos oficiais alemães revoltosos derrubar o regime depois de assassinar o "Führer". Stauffenberg espera, ansioso, a decisão. Hitler faz uma pausa, olha para a capa do "dossier" onde se lê "Valquíria" ("Die Walküre" é o nome da ópera de Richard Wagner) e diz uma frase que terá ficado para a História: "Não se pode compreender o nacional-socialismo sem se compreender Wagner".

Mas a paixão por Wagner conta apenas uma parte ínfima (e enganadora) da história da relação entre nazismo e cultura. O ciclo "O Nazismo e a Cultura: Confrontações" (CCB entre 5 de Fevereiro e 1 de Março) conta outras partes dessa história, mais complexa e contraditória - da ópera "Der Kaiser von Atlantis", composta por Viktor Ullman no campo de concentração de Theresienstadt, até às imagens da aclamação de Hitler em Nuremberga, filmada por Leni Riefenstahl, passando pela improvável história de amor entre o filósofo Martin Heidegger e a sua aluna judia Hannah Arendt e pelo enigmático caso do escritor Ernst Jünger.

À medida que se foi tornando clara a natureza do regime nazi, a grande maioria dos intelectuais começou a abandonar a Alemanha. Para escritores, artistas e pensadores, era impossível viver num país que os perseguia, onde 20 mil livros foram queimados num auto-de-fé em 1933, e onde a cultura era vista exclusivamente como meio de propagar a ideologia nacional-socialista. Para a grande maioria deles, a situação era insustentável. Mas não para todos.

"Deixem o Jünger em paz"

Ernst Jünger (1895-1998) é, para o presidente do CCB, António Mega Ferreira, "um dos casos mais fascinantes e enigmáticos". Herói da I Guerra Mundial, foi o mais jovem oficial a receber a mais alta condecoração, a Pour le Mérite, em 1918, e durante a década seguinte ligou-se aos meios da extrema-direita alemã, escrevendo um livro, "Tempestades de Aço", que "pode ser lido como uma exaltação da guerra".

E, no entanto, diz Mega - que, no ciclo, fará uma sessão sobre "O Caso Jünger" - "ele nunca é um nazi", apesar de também nunca condenar publicamente a ideologia nazi. Enquanto os outros intelectuais deixavam o país, Jünger não só se manteve no Exército alemão como fez parte das forças de ocupação de França. "Permaneceu em Paris durante os anos da guerra e frequentou, sem visível incómodo, quer os seus camaradas de armas do Exército de ocupação, quer intelectuais como Jean Cocteau". Curiosamente foi também, durante esse período, próximo de oficiais envolvidos na Operação Valquíria - embora não haja indício de que tivesse tido conhecimento prévio dela.

Jünger consegue este feito de, em 1939, quando é mobilizado para servir na Wehrmacht, estar a escrever "Sobre as Falésias de Mármore", livro "que, uma vez publicado, é lido como alegoria crítica do nazismo". E consegue o feito maior de sobreviver no meio de tudo isto. "Quando o livro sai, conta-se que altos responsáveis nazis vão ter com Hitler e dizem-lhe que a obra tem que ser proibida, ao que ele terá respondido: 'dDeixem o Jünger em paz'".

Mais tarde, já no final da guerra, quando as opiniões sobre Jünger se dividem entre os que o defendem e os que o acusam de ter pactuado com o nazismo, mais uma vez "conta-se que terão dito ao [dramaturgo] Bertolt Brecht que era preciso denunciar o Jünger e que ele terá dito: 'Deixem o Jünger em paz'". Verdadeira ou não, a história é significativa. "A obra dele, que fala largamente sobre a tirania, é sempre lida nesta fronteira: há quem diga que foi um resistente no interior, e quem o acuse de ter pactuado com o regime".

No seu diário, enquanto escreve "As Falésias de Mármore", Jünger manifesta um desejo impossível: que o livro não seja lido como alegoria do nazismo. Terá também dito que quando o escreveu "não estava a pensar em Hitler, mas em alguma coisa mais terrível que Hitler". O livro é, para Mega Ferreira, "uma obra que está, como ele pretendia, fora do tempo". E, se o autor foi protegido, "é porque ambos os lados eram sensíveis ao facto de ele ser um extraordinário escritor".

Poderemos exigir a um intelectual que, para além de ser brilhante, seja consequente? Que os seus actos correspondam às (que imaginamos serem) suas ideias? "Não. Aos intelectuais não se pode exigir nada. Há que julgá-los e avaliá-los por diversos parâmetros, um dos quais é a exigência cívica. Mas não se lhes pode impor nada. Senão caímos nos intelectuais orgânicos, ao serviço de um partido ou de uma causa. Não se pode".

"O amor vence o nojo"

Tão - ou mais - difícil de compreender é a história de amor entre Hannah Arendt e Martin Heidegger. "Tenho mais perplexidades que respostas", confessa João Paulo Cotrim, que no dia 12 apresenta no CCB uma sessão sobre a correspondência entre o filósofo e a aluna, que viria mais tarde a tornar-se uma estudiosa do totalitarismo e uma teórica daquilo a que chamou "a banalidade do mal" a propósito, precisamente, do nazismo. 

"Se esta fosse apenas uma história de amor entre um professor com 35 anos e uma jovem com 18, seria igual a muitas que acontecem todos os dias nas universidades", diz. "A questão é que ela é judia, e ele tem um pensamento filosófico que se aproxima muito do nazismo puro. Ele é nazi antes do nazismo".

Por improvável que isso pareça, "a questão judia só é aflorada uma vez" nas cartas apaixonadas que os dois trocam durante grande parte das suas vidas - numa primeira fase no início da relação, numa segunda quando se reencontram nos anos 50 por iniciativa de Hannah e numa terceira em que a correspondência se torna mais "técnica, já no final da vida [ela, apesar de mais nova, morre um ano antes dele, em 1975]. É ela quem o procura nos anos 50 [já depois da guerra], e a paixão reacende-se quando ele volta a escrever-lhe cartas de amor extraordinárias".

Hannah Arendt sabia - era impossível não o saber - que Heidegger pertencera ao Partido Nazi, e que, enquanto reitor da Universidade de Freiburg, cargo que aceitou em 1933, afastara alunos judeus das suas aulas e recusava-se a falar com colegas judeus. Mas isso não a impediu, até ao fim da vida, de o defender.

"Por paradoxal que pareça, a resposta pode estar mesmo no amor", acredita Cotrim. "Ela pode ter achado que [a ligação ao nazismo] foi um pecadilho, e que ele, como filósofo, devia viver retirado do mundo". A única explicação para entender esta relação é que "ela coloca-o fora da questão do nazismo, vendo-o como um velho filósofo por quem se apaixonou". E, assim, "o amor vence o nojo".

A perda da inocência

E será que a arte também vence o nojo? Somos capazes, ao ler as obras de Jünger e de Heidegger ou ao ver os filmes de Leni Riefenstahl, de esquecer as suas ideias e de os ver apenas como excepcionais pensadores ou artistas?

Mega Ferreira separa os casos. Admirador de Jünger, sente-se "agoniado" perante os filmes da mulher que não só ajudou a construir a estética nazi como se tornou, ela própria, ícone do Terceiro Reich. "São filmes horrorosamente belos. Mas, pessoalmente, não consigo ultrapassar a repulsa. Irrita-me ainda mais porque são muito bem feitos, são muito bem lidas as influências, nomeadamente as do cinema soviético dos primeiros tempos, e postas ao serviço de uma ideologia horrível como a nazi".

Não se passa o mesmo com Wagner, por exemplo. "Há uma apropriação do Wagner pelo nazismo. É evidente que há nele determinados traços, até alguns de anti-semitismo. Há, sobretudo, uma exaltação da germanidade. Mas não podemos esquecer que Hitler sobe ao poder 50 anos depois da morte de Wagner. Não acho possível tentar retrospectivamente encontrar nele as raízes do nazismo".

A música é, por outro lado, uma arte diferente do cinema ou da literatura. "Não estamos num universo com um código de leitura imediato. Gosto imenso da música de Wagner e não considero que isso corresponda a alguma espécie de mal. Os milhões de wagnerianos que existem no mundo não são nazis".

A arte (a pouca verdadeira que sobreviveu à visão nazi da cultura como instrumento da ideologia nacional-socialista) estará assim - como o amor - para lá do horror? "Depois do Holocausto", lembra João Paulo Cotrim, "perdeu-se a inocência em relação ao papel da arte na sociedade. Era suposto ela fazer-nos melhores. E não é necessariamente assim".