José Sócrates enfrenta "poderes ocultos" e diz-se de pedra e cal no Governo

Primeiro-ministro reagiu pela quinta vez numa semana às notícias que o dão como suspeito antes de ir falar com o Presidente da República. PCP rejeita vitimização

a José Sócrates pôs ontem fim, de forma enérgica, ao suspense que se viveu no meio político durante todo o dia sobre a eventualidade de uma demissão do primeiro-ministro na sequência das notícias que o dão como suspeito em Inglaterra de ter "solicitado, recebido ou facilitado" pagamentos no licenciamento do Freeport de Alcochete. Já passava das 18h quando o chefe do Governo falou pela quinta vez em oito dias sobre o assunto para afirmar que acredita numa "campanha negra", orquestrada por "poderes ocultos", destinada a atingi-lo "pessoalmente e politicamente". E garantiu, uma vez mais, que nada o "demoverá" do seu "caminho". "As fugas de informação selectivas, manipuladas e orientadas têm um único objectivo: atingir-me pessoalmente e politicamente", disse. Numa comunicação lida ao país antes da reunião semanal com o Presidente da República - que se mantém em silêncio sobre o caso e com quem Sócrates terá ontem falado pela primeira vez sobre o assunto -, o primeiro-ministro reagiu às notícias publicadas ontem nas edições das revistas Visão e Sábado, recordando que foi alvo das mesmas "calúnias" durante a campanha eleitoral para as eleições legislativas de 2005. "Já não é a primeira vez que passo por esta provação - ter de enfrentar uma campanha negra e com as técnicas habituais, as técnicas de sempre, as técnicas da deturpação e da insídia, com o intuito de afectar a minha honra e pôr em causa a minha integridade pessoal."
"Teste de resistência"
O primeiro-ministro recorreu ao comunicado de ontem da Procuradoria-Geral da República (PGR) para frisar que através da "única autoridade competente para prestar esclarecimentos idóneos, o país ficou a saber que a verdade do caso Freeport não corresponde àquilo que tem sido noticiado". Em concreto, citou o ponto onde se afirma que "os alegados factos que a polícia inglesa utiliza para colocar sob investigação cidadãos portugueses são aqueles que lhe foram transmitidos em 2005 com base numa denúncia anónima".
E reafirmou que a autorização ambiental do outlet de Alcochete "obedeceu ao cumprimento rigoroso de todas as normais legais em vigor", apontando que a declaração ambiental do projecto foi "emitida sem nenhuma espécie de favorecimento nem outra motivação que não fosse a defesa do interesse público".
Alegando que está a enfrentar um "teste de resistência", Sócrates disse crer que "em democracia não vencem os que usam a arma da calúnia" e reiterou a sua "total confiança nas instituições da Justiça".
No momento destinado a responder às três perguntas dos jornalistas - exigência do gabinete de imprensa do primeiro-ministro -, Sócrates disse, quando questionado sobre se está disponível para ser inquirido e para ver investigadas as suas contas bancárias, que não se coloca na "posição de suspeito". Contudo, apontou, "todos os cidadãos estão à disposição da Justiça e eu tenho uma maior obrigação enquanto primeiro-ministro".
Quanto a Manuel Pedro, sócio da Smith & Pedro, a empresa que intermediou o licenciamento do outlet, José Sócrates negou conhecê-lo, acrescentando não conhecer "os dirigentes do Freeport". Aliás, terá sido apenas através dos "jornais" que soube que Manuel Pedro estava presente na reunião que o primeiro-ministro teve com "os promotores do Freeport, a pedido da Câmara de Alcochete". "Se passar por ele na rua não o conheço", frisou.
Minutos depois, no Parlamento, o deputado comunista António Filipe considerava que a declaração do primeiro-ministro "não trouxe nada de novo" ao caso, defendendo que a Justiça deve funcionar "com a celeridade possível". "Não se justifica nem uma condenação a priori nem uma operação de vitimização em ano eleitoral", afirmou. Pouco depois, o porta-voz do PS, Vitalino Canas, salientou que o primeiro-ministro respondeu com "firmeza às notícias" do caso Freeport e que "ficou claro que o Governo está em condições de governar".
À direita, o líder parlamentar do PSD, Paulo Rangel, remeteu para os comentários que tinha feito na véspera, quando disse que "o primeiro--ministro merece a confiança institucional" do seu partido. Pelo CDS, Pedro Mota Soares recorreu à velha fórmula "à justiça o que é da justiça, à política o que é da política". Desta vez, foi o BE que nada quis dizer sobre o assunto.
Sorrisos cor-de-rosa
Tinha sido um dia de nervos para os deputados socialistas, agitados pelas notícias e por rumores de que o seu líder se podia mesmo demitir ainda ontem. A reunião da bancada quase não existiu e o debate sobre o Plano de Estabilidade e Crescimento e o orçamento suplementar, que noutro contexto seria um momento de grande interesse parlamentar, foi praticamente ignorado pela maioria dos eleitos.
Nos corredores, havia quem criticasse o "neocolonialismo" dos ingleses ao pretenderem investigar um primeiro-ministro de outro país da União, quem prognosticasse sobre o arquivamento garantido à investigação ao licenciamento do Freeport, quem temesse pela travessia no deserto que o PS sofreria caso o Governo caísse e quem, pelo contrário, garantisse que o cenário da demissão era o mais favorável para a renovação da maioria absoluta. Ninguém parecia saber o que estava para acontecer.
Durante a comunicação de Sócrates, os poucos deputados no plenário acompanhavam as notícias pela Internet ou via rádio. Até os ministros das Finanças e dos Assuntos Parlamentares viram o directo na sua bancada. Só depois os socialistas respiraram de alívio e voltaram cheios de sorrisos ao plenário. "A imagem de determinação, de quem enfrenta todos os inimigos, dá-lhe força. Antes assim", comentava uma alegrista.