Tio de Sócrates explica que foi invocado o parentesco com o primeiro-ministro

Freeport: Júlio Monteiro confirma reunião do filho com responsáveis do “outlet”

Em causa estão as alegadas corrupções no licenciamento da superfície comercial de Alcochete
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Em causa estão as alegadas corrupções no licenciamento da superfície comercial de Alcochete Rui Gaudêncio (arquivo)

O tio do primeiro-ministro, Júlio Monteiro, confirmou hoje que o filho teve uma reunião com os responsáveis do Freeport, na sequência de um email onde invocava ser familiar de José Sócrates.

"Nesse e-mail o meu filho mais velho pedia que lhe fosse dada a oportunidade de ser ouvido e apresentar pessoalmente a proposta/plano da sua empresa para uma acção promocional do Freeport, identificando-se como sendo meu familiar e invocando o facto de eu, seu pai, em tempos ter demonstrado disponibilidade em transmitir ao meu sobrinho uma situação anómala e absurda ligada ao Freeport", garante Júlio Monteiro, num comunicado emitido hoje.

Na nota, o tio de Sócrates reconhece "não ter sido correcto" invocar o parentesco com o então ministro do Ambiente e actual primeiro-ministro para conseguir uma reunião, mas sublinha que as intenções do filho Hugo Eduardo Monteiro "não passavam disso mesmo: conseguir uma reunião e apresentar pessoalmente o projecto da sua empresa para a campanha de marketing do outlet". Júlio Monteiro assume, também, que o email teve resposta por parte do Freeport, tendo sido agendada uma reunião na qual o filho mais velho apresentou o seu projecto, que, no entanto, "nunca foi aceite".

No comunicado, Júlio Monteiro confirmou que abordou com o sobrinho o assunto do Freeport, nomeadamente o "pedido" por um gabinete de advogados "de uma elevada quantia" para o licenciamento do outlet a Charles Smith, o representante da empresa, que diz conhecer desde 1992.

Reunião no Ministério do Ambiente

"A reacção do meu sobrinho" - acrescenta - "foi deveras esclarecedora, atenta a estranheza e a indignação manifestadas, tendo demonstrado todo o interesse em que o assunto fosse devidamente esclarecido. Como tal, perguntou-me se eu não me importava de dizer ao senhor Charles Smith para se dirigir ao Ministério do Ambiente". Júlio Monteiro diz que foi isso que transmitiu a Charles Smith, mas que nunca chegou a saber se o encontro se realizou e garantiu que esse foi o último contacto que teve com o promotor do empreendimento.

No fim-de-semana passado, o primeiro-ministro garantiu que participou em apenas uma reunião relacionada com o empreendimento Freeport, na Câmara Municipal de Alcochete, que teve como único objectivo "a apresentação das exigências ambientais que tinham levado ao chumbo do projecto". José Inocêncio, presidente da Câmara de Alcochete em 2002, confirmou que solicitou a reunião que se realizou nesse ano na presença de José Sócrates, na altura ministro do Ambiente, negando que nela tenha estado presente Charles Smith ou qualquer intermediário do licenciamento do Freeport.

O caso Freeport tornou-se público em Fevereiro de 2005, quando uma notícia do jornal “O Independente”, a escassos dias das eleições legislativas, divulgou um documento da Polícia Judiciária (PJ) que mencionava José Sócrates, então líder da oposição, como um dos suspeitos, por alegadamente ter sido um dos subscritores daquele decreto-lei quando era ministro do Ambiente. Posteriormente, a PJ e a Procuradoria-Geral da República (PGR) negaram qualquer envolvimento do então candidato a primeiro-ministro no caso Freeport. Em Setembro passado, o processo do Freeport passou do Tribunal do Montijo para o Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP).

Já este ano, a 10 e 17 de Janeiro, o Ministério Público emitiu comunicados a esclarecer que, até àquele momento, não havia indícios do envolvimento de qualquer ministro português, do actual governo ou de anteriores, em eventuais crimes de corrupção relacionados como o caso e, na semana passada, prometeu levar a investigação até ao fim.

Na semana passada, a PJ fez novas buscas relacionadas com o caso no escritório de advogados Vieira de Almeida & Associados, na casa e as empresas de Júlio Carvalho Monteiro, empresário e tio materno de José Sócrates, e no atelier de arquitectos Capinha Lopes.

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