Protestos e elogios na estreia indiana de “Quem quer ser Bilionário?”

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"Pornografia da pobreza", para alguns; forma de dar visibilidade à maioria da população, dizem outros

"Quem quer ser Bilionário?" estreou sexta-feira nos cinemas da Índia, nas versões em inglês e em hindi. Tem desencadeado protestos de quem considera o filme ofensivo por se centrar apenas nos aspectos mais negros da sociedade indiana. "Pornografia da pobreza" é mesmo o título de alguns tablóides de Bombaim.

Nomeado para 10 Óscares, incluindo os de Melhor Filme e Melhor Realizador, vencedor do Globo de Ouro para melhor filme e desde sábado à noite o filme do ano para o Sindicato Americano dos Produtores de Cinema de Los Angeles, colecciona prémios, a devoção dos espectadores ocidentais, que se renderam à história de um miúdo de um bairro miserável de Bombaim que concorre à versão indiana do concurso televisivo Who Wants to be a Millionaire?, e a polémica.

Um dos icones do cinema indiano, Amitabh Bachchan, cujo "duplo" aparece no filme como objecto de adoração da personagem principal, criticou o filme pelo retrato de uma Índia devorada pela pobreza. O Grande B (como é conhecido na Índia) escreveu no seu blogue que se o retrato que "Quem Quer Ser Bilionário?" faz da Índia como "país sujo no baixo ventre do mundo está a causar dor e desgosto entre nacionalistas e patriotas, que se fique a saber que há um baixo ventre sujo que existe e floresce nas nações mais desenvolvidas."

São os ricos que protestam. Mas também os pobres. Sexta-feira, residentes de um bairro pobre de Bombaim ergueram "slogans", que diziam "A Pobreza está à Venda" ou "Não sou um Cão" [devido ao título 'Slumdog'] à porta da casa de Anil Kapoor, um dos actores do filme - interpreta o apresentador do concurso. Foi uma manifestação silenciosa.

Mas há residentes desses mesmos bairros pobres -as pessoas que mantêm a cidade em funcionamento ao trabalharem como motoristas, vendedores de chá, alfaiates...- que clamam que já é tempo de receberem atenção e de terem visibilidade num país que passa para o exterior uma história de sucesso ao destacar apenas o "boom" económico. E, portanto, merecem que haja filmes sobre eles.

"Talvez as fortunas venham ao nosso encontro, porque as pessoas vão passar a saber que nós existimos", disse ao "Washington Post" Ravi Kumar, 25 anos, um vendedor de chá que serviu a equipa de "Quem quer ser Bilionário?" durante a rodagem. "De maneira geral só há filmes sobre pessoas ricas. Na Índia não se costuma ver o homem da rua no ecrã."

Esta história de amor de um pobre que tem possibilidade de se tornar milionário junta os extremos da Índia a um ritmo frenético (o britânico Danny Boyle, o autor de "Trainspotting", monta as imagens ao ritmo da eletrónica, música indiana e punk rock). Conta a história de Jamal Malik, habitante de um bairro da lata, que se torna concorrente da versão indiana do concurso Who Wants to Be a Millionaire. As autoridade prendem Jamal, acusando-o de batota - de que outra forma, argumentam, ele poderia ter acertado nas perguntas do concurso? Durante um violento interrogatório, a vida de Jamal desfila numa série de "flashbacks" que explicam como é que ele soube as respostas.

"Quem quer Ser Bilionário?", segundo o "Washington Post", é o primeiro filme "mainstream" (desde "Gandhi", de Richard Attenborough, que em 1982 ganhou 8 Óscares) a apresentar um retrato da abjecta pobreza em que vivem milhões de indianos, um retrato de crime, corrupção e tensão social. É também significativo de um corpo cultural que tem negado a ideia da Índia do "boom" económico. Livros como "O Tigre Branco", de Aravind Adiga [o vencedor do Man Booker Priza, vai ser publicado este ano em Portugal, pela Presença], têm sido olhados como retratos mais fiéis dos problemas da maioria da população.

É raro os realizadores de Bollywood utilizarem os labirintos da pobreza de Bombaim como cenário dos filmes. A indústria indiana é mais conhecida pelos seus filmes de quarto horas de duração, extravagâncias de bailados e canções, contos de fadas escapistas filmados na Suíça, na Austrália ou em New Jersey.

"Na Índia, os realizadores são conhecidos como mercadores de sonhos", diz Boyle, 52 anos, ao "Washington Post", numa entrevista num hotel de cinco estrelas a poucos minutos do bairro de lata de Juhu. "É maravilhoso um filme como este ser sobre pessoas comuns. Elas merecem estar no cinema. Vai ser interessante perceber como funciona na Índia."

Um argumentista indiano, do "território" dos filmes de arte e ensaio, Saurabh Shukla, interpreta um chefe de polícia que espanca Jamal durante o interrogatório. Diz que os filmes indianos deixaram há muito de mostrar o lado negro do país, preferindo ajudar as pessoas a escapar aos seus problemas.

"Porque é que a pobreza nos embaraça tanto? É saudável fazer arte com a pobreza. O que me parece verdadeiro e comovente em ‘Quem quer ser Bilionário?' é a possibilidade de um miúdo das barracas ter os mesmos sonhos que qualquer outra pessoa."

Um antigo colunista do "Evening Standard", Ninpal Dhaliwal, hoje colunista de um semanário de Nova Deli, foi convidado a escrever para o "Guardian", a responder à indignação da estrela Amitab Bachchan. Diz que os produtores de Bollywood, "tal como Bachchan, estão demasiado cegos em relação ao que é a realidade indiana para poderem lidar com ela. Os pobres, como aqueles de ‘Quem quer ser Bilionário?', não são apenas o ‘baixo ventre' do país, como Bachchan descreve. Eles são o país. Mais de 80 por cento dos indianos vivem com menos de 2.50 dólares por dia; 40 por cento com menos de 1.25 dólares. Um terço das pessoas mais pobres do mundo são indianos, como são indianas 40 por cento das crianças mal nutridas. Só em Bombaim 2.6 milhões de crianças vivem nas ruas ou em bairros da lata, e 400 mil prostituem-se. Mas estas pessoas estão ausentes do cinema de Bollywood."

Ainda ao "Washington Post", Avakash Patel, 26 anos, professor voluntário nos bairros pobres, diz que os ricos da Índia nunca pensariam um segundo que fosse nos bairros da lata se não houvesse um filme. "A única razão por que se fala agora tanto nos pobres é porque há um filme nomeado para os Óscares e com Globos de Ouro. Não deixa de ser uma centelha de esperança, vamos ver o que acontece."

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