"Quem quer ser Bilionário?": apoteose do telelixo

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Vai ser o ano dele nos Óscares, diz-se. Faz sentido. É a apoteose da televisão.

Amitab Bachchan, "lenda" de Bollywood que teve o seu zénite nos anos 1970, escreveu a semana passada no seu blogue (e citamos o "Guardian") que se o retrato que "Quem Quer Ser Bilionário?" faz da Índia como "país sujo no baixo ventre do mundo está a causar dor e desgosto entre nacionalistas e patriotas, que se fique a saber que há um baixo ventre sujo que existe e floresce nas nações mais desenvolvidas."

Que estas declarações sejam proferidas por Bachchan não deixa de ser simbólico: para além de ser a maior estrela indiana, a sua "personagem" entra na ficção de "Quem Quer Ser Bilionário?". O "astro" é uma das figuras que o adolescente do filme, habitante de um bairro da lata de Bombaim, encontra, como quem vai directo à divindade que desceu à terra. Numa sequência em que se roça, aliás, a abjecção: para "furar" a multidão que se acotovela em torno da estrela que desceu dos céus em helicóptero, o nosso pequeno herói mergulha num poço de excrementos para, com o cheiro, conseguir afastar a multidão. Adiante...

"Quem Quer Ser Bilionário?" é o pequeno-filme-acontecimento deste ano e, pelos vistos, destes Óscares (10 nomeações, abaixo das 12 de "The Curious Case of Benjamin Button", mas é do filme de Boyle que todos falam e nele aposta-se para vencer nas categorias principais). Os tempos mudaram, admiram-se alguns, gritam outros, por um filme sobre a Índia, com personagens de Bombaim, estar a enternecer tanta gente no primeiro e ocidental mundo, sobretudo na América que não costuma ser curiosa em relação ao "outro". (Parece-nos, com isso dos "tempos mudaram", que se está a apostar sobretudo nas expectativas mais íntimas, logo menos rectificadas pela realidade; como se diz, é "wishful thinking". Ou então é participar do coro: a tão inebriante, tão esperada "era Obama"... que se vai instituindo como atraente slogan)

Ou seja, entre a ingenuidade e o oportunismo.

Os aplausos, os prémios (Globo de Ouro para o filme, para o realizador, para o argumentista Simon Beaufoy e para o compositor AR Rahman, agora as 10 nomeações) são ocidentais. As vozes indianas que mais se têm feito ouvir protestam contra aquilo a que chamam "Indian exotica" ou "pornografia da pobreza" - essa coisa da violência, crime e dos bairros da lata com exotismo musical em fundo. Esses protestos eram esperados, escreveu-se já neste site. Esta semana, por exemplo, o filme estreou em Bombaim, e Danny Boyle teve de responder a essas acusações. Disse que quis mostrar a incrível "capacidade de regeneração" dos 17 milhões de habitantes da cidade.

Há quem responda aos ataques indianos argumentando que se trata de nacionalismo deslocado. E pode ser (voltando a Bachchan: escreveu que se ""Quem Quer Ser Bilionário?", filme baseado no livro de Vikas Swarup, diplomata indiano, não tivesse sido realizado por um ocidental o filme não teria o reconhecimento global que está a ter; já lhe responderam que foi um ocidental que fez o filme porque a indústria indiana fechou-se nos musicais e na fantasia e só um ocidental consegue olhar a realidade).

A questão, no entanto, não é essa oposição entre fantasia/realidade. O filme de Boyle não é mais "real" do que um musical de Bollywood - aliás, o filme de Boyle acaba como um musical de Bollywood, tentativa de passar a mão pelo pêlo do espectador indiano. A questão é esta: não há razão para começar a gostar agora do cinema de Danny Boyle. Que continua incorrigivelmente superficial, capaz de sacrificar a própria mãe (qualquer possibilidade de atribuir nobreza às personagens; qualquer hipótese de deixar a realidade mostrar-se) por um efeito. Ele quer gritar "pop" e fazer-se ao ar do tempo, multiculturalismo, mistura, "sujidade". Mas... isso é o quê? Mergulhar uma personagem num poço de excrementos e conseguir com isso provocar gargalhadas? É ter M.I.A. na banda sonora?

A relação que "Slumdog Millionaire" tem com a realidade - e não falamos apenas dos bairros da lata de Bombaim - é a mesma de um concurso televisivo. Ou seja: ideias feitas que se pintam com ligeireza, facilidades redentoras que se simulam, vidas que se espremem no tempo de um espectáculo e para dar espectáculo. Passou a ser essa a fantasia da nossa existência: já não é o cinema, agora é a televisão. Danny Boyle atraca-se a isso como um parasita. E assim "Slumdog Millionaire" é uma apoteose. É muito "hoje". Torna-se significativo. É essa a maior partida deste filme.

Não há outra razão para explicar o sucesso de "Slumdog Millionaire".

Foi você que pensou na palavra "telelixo" (e não estamos a falar dos bairros de lata de Bombaim)?