Crítica

A América dos sonhos de Springsteen

Como se "trabalhassem" o sonho de Springsteen, a América humana e comunitária por ele sonhada

"Working On A Dream" nasceu por, digamos, geração espontânea. No final das gravações de "Magic", o último álbum de originais de Springsteen, surgiu-lhe uma canção, "What love can do", que não parecia embuída do espírito das demais. Springsteen descreveu-a como uma meditação sobre "amor em tempos de Bush" e viu ali o início de algo novo.Gravado com a E Street Band nos intervalos da digressão de "Magic, "Working On A Dream" foi um disco de produção rápida: um jorro criativo que, agora que o conhecemos, deixa claro não ser reflexo de meditações sobre "amores em tempos de Bush". A canção título foi estreado em palco num comício de apoio a Obama e é precisamente a América anunciada pela eleição do seu novo presidente aquilo que inspira Springsteen. Começa pela América mítica de "Outlaw Pete", "western" épico manchado com crime e sangue, épico musical que cresce de "storytelling" country para um intrincado rock'n'roll com órgão e Mellotron a desenhar cada uma das secções em que se desdobra - frase chave: "we cannot undo these things we've done".

Daí para a frente, saltamos dos míticos Appalaches para a actualidade. Daí para a frente, os heróis das canções de "Working On A Dream" passam a ser o cidadão comum e os sonhos do cidadão comum, passam a ser os anónimos "working class heroes" sobre quem recai a possibilidade de mudança. São eles a "Queen of the supermarket", estão eles no "and the sun shines tomorrow/ it'll be the start of a brand new day" de "Surprise, surprise" ou na faixa extra "The Wrestler" (da banda sonora do filme homónimo), belíssimo pedaço de folk acústica que utiliza imagens improváveis para esbater as diferenças que nos separam - como quem diz, estamos todos convocados: "if you ever saw a one legged dog walking by the street/ if you ever saw a one legged dog, than you've seen me".

Musicalmente, "Working On a Dream" é um álbum de contrastes - apresenta várias facetas da criatividade do seu autor, com resultados desiguais. Ao supracitado épico inicial, sucede-se o rock típico de Springsteen em "My lucky day" (másculo, de bateria tonitruante e sax perigosamente 80s), segue-se um entusiasmante blues ruidoso guiado pelo piano eléctrico e pela guitarra slide ("Good eye") ou um "crooning" surpreendente de uma doçura majestosa que nos conquista às primeiras notas ("This life"). O destaque, esse, chega em "Life itself", canção de aroma psicadélico com guitarras à Byrds desenhando paisagens etéreas.

No final (antes da canção extra, entenda-se), regressamos ao início. Ou seja, a "The last carnival" e às suas imagens arcaicas de comboios expelindo fumo negro pelo ar, às vozes que, ao fim da canção, se harmonizam em coro gospel. Como se "trabalhassem" o sonho de Springsteen, a América humana e comunitária por ele sonhada.

Download gratuito do tema "Life itself" Aqui