A revelação do mundo

Foto

Le Clézio, Nobel da Literatura em 2008, escreve como se vivesse na pele de cada um. Uma revelação do mundo, como fogueiras acesas na história humana.

O "L.A. Times" nem se esforçou. "Le Clézio - quem é ele?", foi a pergunta, em título, quando se soube que o Nobel da Literatura de 2008 ia para J.M.G. Le Clézio. Por baixo, o editor de livros do jornal proclamava que não só não tinha lido Le Clézio como nunca ouvira o seu nome, garantindo que o mesmo se passava com vários ilustres das letras americanas, do National Book Award ao National Endowment for the Arts.

Isto num suposto contexto de guerra fria entre a Academia Sueca e os escritores americanos - como era possível Philip Roth não ganhar, enquanto o Nobel ia para um tal Le Clézio quase sem livros traduzidos em inglês, provavelmente fora do mercado?

Demonstração de paroquialismo americano ou dos preconceitos da Academia, o debate seguiu para quem quis. Também houve quem visse nisto uma evidência de como a obra de Le Clézio se esquiva à ordem dominante.

Convocado para uma conferência de imprensa, o atordoado Nobel disse que não ia perder tempo de escrita por causa do prémio, que de resto é dinheiro, ou seja tempo de escrita. Estava a escrever um novo livro e tencionava continuar.

Em Dezembro cumpriu os seus compromissos suecos com um discurso de tributo a quem o fez ser quem é, incluindo, nome a nome, muitos escritores de quem o editor do "L.A. Times" e boa parte do mundo literário em geral provavelmente nunca ouviram falar. E depois a Gallimard começou a responder que "Mr. Le Clézio não vai dar qualquer entrevista", como no mail ao Ípsilon.

Le Clézio é o homem que durante três anos foi viver com os índios quando se cansou de escrever livros sobre a loucura nas cidades. Viajou por todos os continentes, entre mares de piroga e desertos a pé. Está com 68 anos, continua a viver uns meses em Nice (o lugar onde nasceu), uns meses no Novo México (o lugar que escolheu), uns meses na Maurícia (o lugar dos avós), de vez em quando na Bretanha (o lugar dos tetravós), e ainda recentemente viajou pela Oceania, de onde trouxe o maravilhoso "Raga" (tradução na Sextante).

Que não perca tempo com trivialidades pós-Nobel, nem perca as folhas de papel Revolución em que escreve à mão, é o que podem desejar os seus leitores, incluindo os portugueses, que têm boas razões para não ter de perguntar "Le Clézio - quem é ele?" Além do texto que Herberto Helder incluiu em "As Magias", estão publicados em Portugal cinco romances, uma biografia, um livro de ensaios e um livro de viagens.

Não é muito, se pensarmos que o franco-maurício publicou 43 títulos (romances, ensaios, livros para crianças, livros de viagens, textos sobre cinema, aguarelas). Mas é uma escolha ampla, em que o mundo se vai revelando em partes distintas, como fogueiras momentaneamente acesas na grande história dos homens - das metrópoles aos povos das águas, das caravanas de África às plantações do Índico, de Frida Khalo às trincheiras da I Guerra.

Em "Raga" Le Clézio escreve (e talvez não fosse boa leitura de fim-de-semana para o editor do "L.A. Times"): "As sociedades dos grandes blocos continentais, apesar das suas religiões 'reveladas' e do carácter aparentemente universal das suas democracias, falharam a sua missão e negaram os próprios princípios sobre os quais assentavam."

Este é o gigante louro que aos 23 anos voltou costas à Paris-a-seus-pés, que estava disposta a adorá-lo como um Steve McQueen existencialista, com fotografias de Cartier-Bresson e tudo.

E neste pré-apocalíptico começo do século XXI, é da Oceania que vê isto, e nos escreve: "A escravatura, a conquista, a colonização e as guerras à escala mundial puseram em evidência essa falha.

Esses acontecimentos revelaram placas tectónicas cujos movimentos criaram os sismos actuais, e que ainda servem aos teóricos e aos falsos profetas dos 'choques de civilizações' para justificar as guerras de dominação. O fracasso dessas grandes sociedades é sem dúvida a maior ameaça que o mundo hoje enfrenta."

O tetravô bretão

Como é que a Bretanha vai dar à Maurícia e produz tal espécime? Segundo contou Le Clézio ao seu biógrafo Gérard de Cortanze ("J.M.G. Le Clézio, vérité et légendes", Éditions du Chêne, Paris 1999), foi uma história de cabelos compridos no meio da revolução francesa.

Depois da batalha de Valmy, os combatentes bretões perderam o direito a usar os cabelos compridos, e François Alexis Le Clézio, tetravô do escritor, recusou-se a cortá-los. Decidiu então partir para as Índias. Mas ao fim de seis meses de viagem, exausto, ficou pelo caminho, na então Île de France, hoje Ilha Maurícia. Meteu-se em comércios e ganhou dinheiro, mas acabou por perdêlo para um corsário. Mais prudente se revelou a sua descendência e no século XIX os Le Clézio ergueram uma mítica casa familiar na Maurícia a que chamaram Eureka, até a perderem.

J.M.G. nasceu depois, mas é para conhecer essa casa - e aquele tetravô, aquele mar, aquela natureza, aquelas plantações de açúcar com capatazes e trabalhadores como escravos - que continua a escrever, como escreveu "O Caçador de Tesouros" (tradução de Ernesto Sampaio, na Assírio & Alvim), "Voyage à Rodrigues" ou "La quarentaine".

Na época de Napoleão, a Maurícia foi colonizada pelos ingleses e os Le Clézio tiveram de adoptar a cidadania britânica para poderem ficar. A família quebrou-se em partilhas e no século XX uma parte foi para França. J.M.G., nascido em Nice em Abril de 1940, faz parte já da segunda geração em França. Mas, como a ascendência maurícia é tanto do pai como da mãe porque os seus pais eram primos direitos, na sua infância francesa "comiase maurício e contavam-se histórias maurícias", disse ele numa de poucas entrevistas.

Cresceu assim bilingue, mestiço - e filho da guerra, como dirá tantas vezes.

O pai, médico, passou a II Guerra na Nigéria, mas continuava a ser cidadão britânico, e portanto inimigo, do ponto de vista da ocupação alemã. Le Clézio, o irmão e a mãe tiveram por isso de sair de Nice para as montanhas. Ficaram a viver perto de Saint-Martin-Vésubie, um gueto judeu.

A memória da guerra há-de ser essa "opressão permanente", aquele homem a disparar, aquele bombardeamento, e a exclusão dos judeus, que Le Clézio sente ter vivido em paralelo - décadas mais tarde, uma menina judia de Saint-Martin-Vésubie, Esther, será a protagonista de "Estrela Errante" (Dom Quixote), o romance em que se cruzam os perseguidos que enfim chegam à terra prometida com os refugiados que deixam de ter uma terra, no momento da criação de Israel.

Finda a guerra, os Le Clézio voltam a Nice, mas o pai continua ausente. Ao seu biógrafo, o escritor desdramatizou essa falta, dizendo que fora um período "muito fácil, sem dor". O pai era uma espécie de tio distante a quem as crianças iam escrevendo ritualmente, sob os cuidados e carinhos da mãe.

O rapazinho Le Clézio quer ser autor de bandas desenhadas. Tanto lê a "Revista do Tintim" como "As Viagens de Gulliver" e de Marco Polo, o "Dom Quixote" ilustrado, Stevenson, Conrad, a história dos gregos e aquele fabuloso "Dictionnaire de la conversation", de 1858, em muitos volumes, que pertence a uma das três bibliotecas herdadas dos avós maurícios.

A avó materna conta-lhe histórias. Há livros de viagens em partes misteriosas, globos, mapas, cartas do céu. No apartamento junto ao velho porto de Nice, Le Clézio cresce com o mundo a alargarse pelos livros. "Ler era a possibilidade de uma outra visão", pela primeira vez a consciência de estar vivo.

E ainda não fez oito anos quando inicia a sua primeira grande viagem, que ficará como "a grande viagem" - quando parte ao encontro do pai, lá na Nigéria. São semanas e semanas de barco.

Le Clézio descobre o que é estar num porão, a balançar. Descobre o mar, essa liberdade, a beleza e a violência. Escreve dois romances que mais tarde perderá (e até publicar o primeiro livro escreverá uns 30, encadernados e encapados pela mãe).

Quando o barco chega, tem oito anos. Pisa então África, vai viver na zona do antigo Biafra. O pai trabalha incansavelmente, trata dos leprosos, dos miseráveis. É aquele homem décadas depois evocado em dois livros não traduzidos em Portugal, "Onitsha" e "L'Africain".

De volta a Nice, com toda a família reunida, a regra desse pai continuará a ser a parcimónia. É ele quem o põe do lado dos pobres, há-de sugerir Le Clézio, que escreverá de muitas formas sobre isto: "Detesto o dinheiro. O dinheiro é o gosto das coisas fúteis, é a possessão derrisória, é também o medo de o perder."

Um embrião já da ideia índia de que é preciso viver na beleza sem a possuir.

Ainda na infância, oferecem-lhe um livro sobre os aztecas, princípio de um amor irreversível. Depois lê Salinger. Desiste de ser desenhador por não ser bom o bastante, mas não de desenhar.

Big bang

Estudante contrafeito, indisciplinado, Le Clézio acaba por se formar em letras com uma tese sobre Henri Michaux. É o tempo da guerra na Argélia, do "Estrangeiro" de Camus, do "Nouveau Roman" nos cafés. Aos 20 anos, Jean-Marie Gustave escreve incansavelmente, casa com uma franco-polaca de quem tem a sua primeira filha e envia um romance chamado "Le Procès-verbal" ("O Processo de Adão Pollo", na tradução portuguesa, Europa-América) para a Gallimard, assinando como sempre fará, J.M.G. Le Clézio.

Big bang. Centrado na figura de um homem que se arrasta por uma cidade sufocante, "Le Procès-verbal" não ganha o Gouncourt por um triz mas ganha o Renaudot. O pai ouve a notícia pela rádio e empurra o filho para Paris. Le Clézio aterra entre os "flashes", como um totem ofuscante, fotogénico. Ele é o acontecimento - e detesta.

"A notoriedade é muito aborrecida", explicou mais tarde. "Ser demasiado solicitado, jantar fora todas as noites, conhecer demasiadas pessoas..." Custalhe falar, exprimir-se entre estranhos - e basta ver o vídeo da sua entrevista à Academia sueca para perceber como isso ainda está lá.

"A linguagem falada pode ser uma traição, uma exposição de nós mesmos", aprenderá. "Os poderes do silêncio, o homem índio conhece-os de instinto."

Em 1968 faz o serviço militar como cooperante na Tailândia, de onde é expulso por denunciar a prostituição infantil. Mandam-no para o México classificar fichas de biblioteca no Instituto Francês e ele aproveita para ler. É então que lê Artaud entre os Tarahumaras. Mergulha nos índios.

De volta a França, continua a escrever sobre o mal nas cidades, com elogios de Foucault e Deleuze, entre pesquisas sobre Lautréamont, mas é para os índios que se quer voltar, em busca de outro saber. "Eu precisava de um choque físico.

Queria deixar de ser alguém puramente cerebral." Isso alimentaria o que estava por escrever.

E então? "Entre 1970 e 1974, tive a sorte de partilhar a vida dum povo ameríndio, os Emberas, e os seus primos, os Waunanas, na província de Darién, no Panamá, experiência que mudou toda a minha vida, as minhas ideias sobre o mundo e sobre a arte, a minha forma de estar com os outros, de andar, de comer, de dormir, de amar, e até os meus sonhos", escreveu em "La fête chantée".

"Esse mergulho deixou-me mudo durante anos", acrescentou numa entrevista. "Tinha tudo para aprender, ou seja, a reaprender. Como desfazerme do meu ego, respeitar o silêncio, praticar essa espécie de recuo permanente que é a forma mais elaborada de humor."

O lugar dos índios é "onde o próprio momento da criação parece ainda próximo".

Até ao fim dos anos 70, Le Clézio viaja pelo México, traduz textos sagrados maias, aprende navajo. Candidata-se a investigador do CNRS (Centre National de La Recherche Scientifique), mas recusam-no por não ter competências suficientes nas civilizações ameríndias. Só uma década mais tarde o resultado das suas pesquisas - partilhadas, por exemplo em "Le rêve méxicain" - receberá um carimbo académico.

E só no começo dos anos 80, com "Mondo et autres histoires" e depois o magnífico "Deserto" (tradução de Fernanda Botelho na Dom Quixote), voltará a ter muitos leitores, o que lhe permite ter dinheiro para viajar e escrever, e sentir que não está isolado - porque, acredita ele, "a leitura é activa" e um escritor precisa de leitores.

O deserto e o mar

No fim dos anos 60, J.M.G. conhece a marroquina Jemia, com quem casará em 1975 e continuará a sua prole de filhas. Hão-de viajar e escrever livros em conjunto. E, desde logo, Jemia será a descoberta de Marrocos e do deserto, em Saguiet el Hamra, terra dos seus antepassados.

Eis o eixo central de "Deserto", em que caravanas de nómadas resistentes à invasão colonial caminham tão vividamente que é possível sentir o delírio do sol, a água suja de lama, as plantas, as pedras, o sangue nos pés, o caminho das estrelas quando chega a noite, se arma a tenda e os homens tocam música.

Escrever, diz Le Clézio, "é ir ver o outro lado da colina". Poucos escritores terão alcançado esta forma mimética de dar a ver o outro lado como se ele fosse eles - a rapariga que dá à luz num barranco de excrementos, o soldado que sente um líquido quente na cara e descobre que por cima de si estão todos mortos, o cigano a ser atropelado por um autocarro quando ia a fugir de uns polícias numa grande cidade, a melanésia que acende o fogo na piroga para fumar carne de porco, os cortadores de cana a atirarem um capataz para dentro de uma fornalha, as víboras que se enlaçam, o cabrito entre as bombas, um ciclone a vir do mar, a árvore a que chamamos do bem e do mal.

Cada ser, cada coisa existem digna e inteiramente, no êxtase e na brutalidade. Tudo em Le Clézio é percepção extrema, humana. Nada é cínico.

"Sou incapaz de falar de mim mesmo de outra forma que não a ficção, porque creio que sou demasiado pessimista e tenho um desgosto profundo pelo 'eu'", disse recentemente. "Ao escrever tenho a sensação que 'eu' não esconde nada. Então, vamos escavar, mas para escavar vamos encontrar personagens que possam substituir este 'eu'."

A escrita é "um pouco dança", ou o "Boléro" de Ravel que a mãe tocava ao piano em Nice, e que para Le Clézio é uma memória de guerra - aquele vazio angustiante em que a música subitamente acaba, como se o chão se tivesse abatido sob os pés, como o vazio antes da guerra.

Para saber quem é, tem que sair de si, pôr-se noutras vidas. Por isso, diz, não escreverá memórias.

Mas cada vez mais, nos anos 80 e 90, as suas histórias imaginadas são trabalho de memória, voltando aos pontos de partida - a infância, a guerra, a viagem, a família.

"Para compreender, para adivinhar o segredo que esconde o mundo industrial moderno em que estou, tenho que me virar para outro mundo. É, à vez, a Nice da guerra e a plantação de açúcar, as ilhas de açúcar sobre as quais se fundou a prosperidade da Europa." Em Nice, quando ele era pequeno, havia uma mendiga que cantava uma "ritournelle" até lhe atirarem uma moeda. Vem daí o título do seu último romance, "Ritournelle de la faim" (que a Dom Quixote prevê editar em Julho).

Em 1981, Le Clézio viajou finalmente pelas Ilhas Maurícias e teve a certeza de que aquela era a sua "pequena pátria". Mantém dupla nacionalidade, e fez questão de receber o Nobel assim. "Quando chego lá, sinto que cheguei a casa."

Chega, mas não fica, como não ficou na glória dos 23 anos. Continua a dizer que o que sente é inquietação. Em "L'Inconnu sur la terre" escreveu: "Não procuro um deus, mas um homem; não procuro um paraíso mas uma terra." Sabe que não é a terra que pertence ao homem, mas o homem à terra.

A sua forma de vida é uma espécie de ser nómada. E o que um nómada faz é recomeçar.