Contra mundum

Lembremos a frase de abertura de "Quel Che Resta di Auschwitz", livro escrito em 1998 por Giorgio Agamben: "Num campo, uma das razões para sobreviver, é a de que podemos tornarmo-nos uma testemunha." O poeta Yitskhok Katzenelson, um dos gaseados nesse lugar infame, deixounos em herança um texto intitulado "O Canto do Povo Judeu Assassinado", composto por versos escritos em yiddish, numa prisão para "personalidades" situada em Vittel, entre 3 de Outubro de 1943 e 18 de Janeiro de 1944.

"Exterminaram-nos a todos sobre esta terra, do mais pequeno ao mais/ grande, assassinaram-nos a todos" lê-se na última parte do poema (XV, "Depois do Fim"), que termina assim: "Não se amontoem numa bola de matéria para aniquilar os maus deste mundo, deixem-nos destruírem-se a eles próprios sobre esta terra!"

Os escombros da II Guerra Mundial são o ponto de partida de "bone lonely".

A viagem proposta na exposição de Paulo Nozolino traduz o estado de incerteza que hoje se vive, mas essa inquietude tem uma origem e essa é a do mal absoluto, simbolizado por Auschwitz - e no momento presente pelos acontecimentos em Gaza.

Ninguém sobreviveu àquele lugar: cada um de nós vive recluso de uma época sem fim, na qual a barbárie continua a ditar, desde o campo de concentração, a lei. Homens sós, resta-nos olhar e testemunhar esse crime sem legenda possível: por isso as imagens surgemnos na penumbra, numa linha contínua, sem data, nem geografia, ao contrário do que tinha acontecido até agora no percurso de Nozolino. Captadas nos últimos trinta anos, estas fotografias, inéditas, procuram revelar silêncios, o não dito, o abuso de poder, a usura.

Escutamos agora Ezra Pound, que, em 1942, recusou a permissão para ser evacuado, juntamente com alguns dos seus compatriotas, de Itália para Lisboa. Ouvimos a sua "Voz da Europa", uma das alocuções que o levaram a ser acusado de traição pelos Estados Unidos, tendo, por isso, sido internado no St Elizabeths Hospital for the Criminally Insane, um manicómio onde ficará mais de uma década e do qual só irá sair em 1958, já com setenta e dois anos. São palavras de um Pound fascista, transmitidas na Rádio Roma, a 28 de Maio de 1942: "Até onde a minha memória chega, a América quis a diplomacia do dólar.

Não tendes quaisquer escrúpulos com a diplomacia do dólar, com essa penetração comercial a pretexto da expansão do domínio; faz agora quarenta anos, ainda eu não tinha o Dodge preto." (in "Esta é a Voz da Europa", Hugin Editores, Lisboa, 1996).

De um lado o campo de concentração, do outro a expansão do domínio. E ainda há os totalitarismos e a pequenez da delação. Ninguém está imune. Há o lixo que se amontoa.

Ideologias ardem: Lenine e Estaline, os carros parados, cobertos de neve americana, as chaminés sem fumo. A revolução industrial há muito que estagnou e o neo-liberalismo não tem saída, tal como do outro lado dos muros não há solução. Um homem está parado no meio desta destruição, "bone lonely." Testemunha que "nada dura para sempre"; sente "a carne a envelhecer e prova a saliva seca na sua boca" (excertos da apresentação do livro que acompanha a exposição, a ser editado pela Steidl, em Maio deste ano, com poemas em inglês de Rui Baião). Tenta resistir dando-nos a ver imagens desse anunciado destino, porque estas são também imagens de guerra: "contra mundum", elas desafiam qualquer crença aceite sem discussão.

Tente-se o jogo da adivinha. São 32 imagens a preto e branco colocadas numa sequência não cronológica, quase coladas umas às outras. O formato é pequeno. Sabe-se que foram captadas entre 1976 e 2008. A primeira mostra prédios em ruína: Londres após o Blitz, fotografia tirada no Imperial War Museum. A última revela uma rede em arame, pontiaguda nas pontas: mais ruínas, as do fórum romano, em Roma. Nada está de pé, contudo a história testemunha os acontecimentos: os impérios caíram, as ideologias ruíram, os homens retiraram-se para uma noite que percorrem sem saberem muito bem porquê. Entre estas obras, há imagens de morte, de uma morgue, de funerárias, de mortos, de prédios, de colchões, de tanques de lavar a roupa, de um sem abrigo, de um bar de alterne, de estreitos corredores, de graffitis, de paredes sem saída, de sombras, de montras, de desejos. Angeiras e Sarajevo, Lisboa e Berlim. Não existe passado, nem futuro. Apenas tédio. E está tudo a arder, está tudo coberto de sujidade nestas fotografias onde um único corpo se despe para nós, de frente, oferecendo-nos a possibilidade de sexo, sonhado de encontro a um vidro onde a pornografia é vizinha de um esqueleto.

"Cadáveres dispostos no banquete/ às ordens de usura", assim se pode resumir, com recurso ao célebre canto XLV, de Ezra Pound, "bone lonely".