Crítica

Felizmente, ainda há Henry James

A delicada arte da escrita de Henry James.

A edição de "Daisy Miller e Outros Contos" chama a atenção para a delicada arte da escrita de Henry James, autor quase esquecido durante décadas mas que renasceu para o grande público, primeiro graças ao cinema que não se cansa das suas tramas psicológicas e depois pelo sucesso de livros como "Autor, Autor" e "The Year of Henry James" de David Lodge, "O Mestre" de Colm Tóibín, "A Linha da Beleza" de Alan Hollinghurst e "Felony" de Emma Tennant, todos directamente relacionados ou sobre o eminente escritor.

Henry James (1843-1916) e Mark Twain (1835-1910) são referidos como dois representantes opostos da literatura e cultura americanas da segunda metade do século XIX. O primeiro, educado numa elite intelectual e social - era filho do teólogo e erudito Henry James Senior e irmão do filósofo e psicologista William James e da diarista Alice James - viveu quase toda a vida na Europa, em Inglaterra, França e Itália, e era cosmopolita por gosto e vocação; o segundo, que preferia a sua terra natal, foi o exemplo perfeito do americanismo. James era tímido, sério, discretamente irónico e, em vida, nunca chegou a receber o reconhecimento que lhe era devido; Twain, imprevisível e truculento, foi uma pop-star que arrastou multidões, chocando e fazendo rir os fãs, em idênticas proporções. Twain professava um desdém cómico pelos estranhos hábitos e vetustas pedras dos monumentos dos "nativos" europeus (o seu tour pelo Mediterrâneo ficou registado no satírico "The Innocents Abroad", 1869, e, mais tarde, em "A Tramp Abroad", 1880) e preferia as grandes planícies americanas e o sensual rio Mississipi, enquanto James não imaginava a existência sem a sofisticação dos costumes e modos europeus.

Twain e James foram os rostos do novo realismo mas, como frisou o crítico Philip Rahv, James imprimiu-lhe elaborada riqueza, apoiando-se numa refinada análise psicológica, estética e moral e penetrando fundo na mente das personagens, enquanto Twain preferiu soltar a linguagem e explorar o materialismo caótico do pós-guerra civil, com as suas confusões, contradições, esperanças e nostalgias.

Os dois homens - o "cara-pálida" James e o "pele-vermelha" Twain - tinham em comum a percepção nítida de que viviam tempos de profundas alterações na América e ambos desejaram - e conseguiram - mudar o rumo da literatura, privilegiando o conto como género e fazendo dele um campo de experiências para posteriores romances e novelas.

Em "Daisy Miller e Outros Contos" é possível observar como James - meticuloso apreciador da revisão dos seus textos - "treinou a mão" com o intuito de utilizar este material em obras posteriores. É inegável que, aqui, a "jóia da coroa" é "Daisy Miller" (1878), uma novela perfeita que condensa o que existe de mais "jameseano", isto é, o tema da jovem americana, bonita, fresca, desinibida e "livre" à solta numa Europa envelhecida, decadente e cínica (representada pelo italiano Giovanelli), seguida de perto por um americano europeizado, Winterbourne, que observa, constrangido e fascinado, a queda da compatriota, literalmente corrompida pelos vírus do Velho Continente.

Daisy não é uma heroína e deseja apenas divertir-se, atraindo os homens com a sua inocência e ingenuidade, virtudes que contribuirão para a sua perda. Não é promíscua mas impetuosa, ignorante e desdenhosa das convenções, "pecados" imperdoáveis que serão punidos. Pateticamente caprichosa e dramaticamente tonta esta "margarida" que perde o viço tornouse o protótipo de um "produto", fruto de um país demasiado novo e que enriqueceu rapidamente, e um leitmotiv em inúmeros contos de James, mais tarde plenamente conseguido na figura de Isabel Archer em "Retrato de Uma Senhora" (1880).

A história de "O Último dos Valerii" (1874), que Leon Edel incluiu na categoria dos "contos fantasmagóricos" relata o enamoramento e casamento de uma jovem (mais uma) "americanazinha estúpida" com um conde italiano. Tudo corre bem até que o idílio é quebrado quando, no jardim da villa, é desenterrada uma estátua de Juno. O conde Valeri fica de tal forma ensimesmado pela deusa que perde o interesse pela mulher e pelo mundo, fechando-se com a sua amada de mármore numa ciumenta reclusão. James enfatiza aqui o fascínio pelo antigo universo pagão da Itália clássica - representado pelo conde - em contraste com o pragmatismo dos nativos do Novo Mundo, mentalmente mais saudáveis e relutantes em deixarem-se arrastar pelos fantasmas da memória e pelo peso da História.

Em "Os Originais" (1892) relata a complicada procura de modelos adequados para ilustrações de novelas populares por parte de um artista que é abordado por um venerável casal, os Monarch, membros da aristocracia britânica falida - e desesperada - que insistem em ser aceites para o trabalho de pose. Argumentam que são "genuínos" (o título original do conto é "The Real Thing"), a verdadeira essência da nobreza, perfeitos para os papéis de gente respeitável. No entanto, com modelos tão perfeitos, as imagens perdem a emoção, e os desenhos onde eles surgem, rígidos e pomposos, para ilustrar romances audazes, de mistérios e aventuras, revelam-se insatisfatórios uma vez que o artista percebe que precisa de modelos que sejam capazes de criar uma perfeita ilusão.

Quanto à "Lição do Mestre" (1888) é um conto enigmático e cruel sobre o casamento, o celibato - temas que reflectem as angustiantes opções pessoais de James - e sobre a posição do artista no mundo. O jovem e ambicioso escritor Paul Overt instala-se para um fim de semana numa casa nos arredores de Londres, onde reúne um número de convidados nos quais se inclui o famoso romancista Henry St. George e a mulher. Paul quer observar de perto a "grande figura" e fica perplexo quando se apercebe que a Senhora St. George considera a insigne obra do marido uma "mercadoria", cuja função é proporcionar-lhes bem estar material. Paul conhece também a jovem, simpática e inteligente Marian (que cresceu na Índia e é por isso mais uma figura de mulher "diferente") por quem desenvolve um interesse amoroso. Mas, uma noite, St. George, numa conversa em que começa por elogiar os dotes do jovem escritor, lança-se num longo discurso sobre o destino do artista - a "lição" do título - e aconselha o deslumbrado pupilo a dedicar-se de alma e coração à escrita, referindo o seu próprio falhanço - avaliação que Paul não partilha - e atribuindo-o à vida mundana e aos constrangimentos do matrimónio. Convencido, Paul renuncia a Marian e parte para a Europa, decidido a procurar a "perfeição artística" no isolamento. Mas, quando regressa, é surpreendido pela notícia do casamento do seu ídolo, que entretanto enviuvara, com Marian e pela declaração da renúncia à arte, em prol da vida, por parte do Mestre.

Henry James, que nestas histórias desenha os esboços das suas grandes obras, o magnífico narrador que, com a sua amiga Edith Wharton, aprofundou as subtilezas dos contrastes entre o Velho e o Novo Mundo, fazendo a ponte entre a literatura do século XIX e a corrente modernista, nasceu americano e morreu europeu. Em 1915, um ano antes de desaparecer deste mundo, naturalizou-se inglês como forma de protesto por os EUA não entrarem na Guerra, ao lado dos Aliados. Estava convicto de que o jovem sangue americano deveria servir para proteger, de todas as barbáries, a cultura e os tesouros europeus.