David Adjaye, sensualidade e bom senso

Foto

Foram as casas e os interiores, realizados no final da década de 90, que revelaram o arquitecto David Adjaye. Clientes singulares e disponíveis, provenientes do meio artístico londrino, da televisão e do cinema, propiciaram arquitecturas com certa dimensão de radicalidade, mas também e paradoxalmente carregadas de "bom senso" e pragmatismo. Nessas obras encontraram-se a redução expressiva com uma absoluta informalidade e sensualidade na escolha da organização dos espaços e dos materiais. A tudo isto deve juntar-se o impressionante boom económico (e por isso um boom criativo e optimista) que atravessou Londres nos últimos dez anos e que permitiu aos jovens arquitectos iniciar o seu trabalho com pequenas encomendas privadas.

O panorama arquitectónico britânico não fora conhecido desde os anos 80 pelas melhores razões. Um príncipe Carlos com muitas ideias sobre arquitectura (e um certo fascínio pelo pastiche historicista), arquitectos de gerações mais maduras fascinados pela tecnologia como meio e fim da própria arquitectura (facto hoje conhecido por "high-tech") e uma cultura assumidamente conservadora não facilitaram a investigação e o trabalho às gerações mais jovens. Por isso provocaram uma reacção que procurou fora desse panorama dominante as suas referências. Estas passavam por uma ideia de "resistência" cultural, um interesse renovado por programas públicos de habitação e principalmente uma atenção ao que ocorria na chamada "cultura de rua" (que não é necessariamente cultura pop mainstream).

Aí estava David Adjaye, nascido na Tanzânia, e que está em simultâneo nos antípodas da arquitectura pós-modernista e do high-tech. Trabalhou com David Chipperfield e Eduardo Souto de Moura, arquitectos cuja obra assenta no rigor conceptual e numa síntese radical dos elementos que compõem a construção e que protagonizaram uma alternativa concreta na arquitectura do final da década de 80.

Casa polémica

A casa Elektra, uma antiga fábrica de sapatos em Whitechapel, Londres, com a sua parede cega para a rua, revestida a contraplacado negro, e um interior branco e cheio de luz, marcou o início do percurso de Adjaye. Não sem alguma polémica. Quando esta casa foi capa da publicação do Royal Institute of British Architects os protestos alimentaram a correspondência da revista durante meses. O Reino Unido, apesar do optimismo económico, mostrava-se ainda céptico a uma arquitectura fora das suas convenções duvidosas. Hoje, com obras públicas e privadas em curso na Europa, Estados Unidos e China, o arquitecto David Adjaye desdobrou em três o seu escritório: Londres, Berlim e Nova Iorque.

Mas o percurso de David Adjaye não se caracteriza apenas pelo interesse por um certo tipo de arquitectura alternativa àquela dominante no Reino Unido, já que outros escritórios, que mantêm um perfil discreto, como as duplas Sergison Bates ou Caruso St. John, descendem também desse caminho de "resistência" que remonta até ao panorama pós-Segunda Guerra Mundial. Adjaye estabeleceu desde o início uma relação muito próxima com o universo da arte contemporânea (com artistas cujo trabalho é hoje globalmente reconhecido, como Jake Chapman, Chris Ofili e Olafur Eliasson). Daí resultaram obras como The Upper Room para a pintura de Ofili ou o Pavilhão em Veneza para a peça Your Black Horizon de Eliasson. Estas colaborações revelam-se depois nas obras de Adjaye no rigor com que domina o balanço entre efémero e perene, o trabalho sobre o ambiente interior e o trabalho expressivo sobre a estrutura.

Outra particularidade do seu percurso é ter assumido o papel de divulgador de arquitectura e ter apresentado o programa Dreamspaces para a BBC, o que o tornou uma figura conhecida para além do mundo disciplinar. Em 2005 apresentou o programa de televisão Building Africa: Architecture of a Continent, numa aproximação à sua cultura de origem, e tem hoje em curso uma investigação sobre as condições de vida nas capitais africanas que resultará num livro e numa exposição em 2009. Neste sentido a encomenda do Estado português para um museu de arte contemporânea africana em Lisboa acaba por ser consequente com o seu percurso e interesses.

Da obra construída ressaltam os edifícios públicos que concluiu recentemente: o Museu de Arte Contemporânea de Denver nos Estados Unidos ou o Centro de Artes Visuais Rivington em Londres. São obras muito diferentes nos seus pressupostos e respostas e mostram um arquitecto que não está à procura de expressão ou método que o identifique. Para Adjaye cada projecto parece construir-se isoladamente tirando partido de cada situação e contexto.

Mercados de rua

Os seus trabalhos mais surpreendentes até hoje (para além das casas em Londres) parecem ser as Idea Stores em Chrisp Street e em Whitechapel. São centros cívicos que cruzam serviços de biblioteca e mediateca com comércio, em contextos culturalmente híbridos e menos favorecidos de Londres. Os projectos socorrem-se do ambiente dos mercados de rua que são depois transpostos para uma arquitectura de espaços informais, mas que não abdica de uma sofisticação construtiva e um ambiente intensamente urbano. Para a cidade ficam os prismas de vidros coloridos a azul e verde que lembram os tecidos às riscas das bancas dos comerciantes asiáticos de Whitechapel.