Crítica

Perguntar não custa

Uma espécie de consultório filosófico

Há não muito tempo, Alexander George, com mais alguns filósofos, teve a ideia de aproveitar a Internet para criar um sítio onde pudessem ser dadas respostas a toda a espécie de perguntas filosóficas que costumam, de uma forma mais ou menos espontânea, ocorrer às pessoas ao longo das suas vidas. Se essas perguntas, que tão bem nos distinguem enquanto seres humanos, são perguntas filosóficas, por que não dar, então, uma oportunidade aos especialistas em filosofia de mostrarem serviço à comunidade e, em contrapartida, devolver à filosofia uma posição mais próxima do quotidiano das pessoas? O desafio para estes filósofos era, pois, alcançar um público que primasse pela generalidade, o que implicava proporcionar-lhe respostas acessíveis às suas inquietações mais humanas, mas, ainda assim, de forma a poderem ser levadas a sério filosoficamente, ou seja, como respostas feitas com argumentos, alguns mais complexos, outros mais humorados, mas todos genuínos, distintos e susceptíveis de discussão. Numa palavra, sem confundir nunca filosofia com leituras de autoajuda e afins.

O "sítio" que albergou esta espécie de consultório filosófico ( www.askphilosophers.org) foi e continua a ser um sucesso, contando hoje com um arquivo de milhares de perguntas e respostas para consulta do público, bem como o registo da colaboração de largas dezenas de filósofos "profissionais", tendo, sem dúvida, valor didáctico para o ensino escolar da filosofia.

O livro que agora se edita, com o título "Que Diria Sócrates?", e o subtítulo "Os filósofos respondem às suas perguntas sobre o amor, o nada e tudo o resto", equivale a um "Best of" desses milhares de perguntas e respostas. A única diferença relativamente ao sítio na Net está no facto de as perguntas no livro se arrumarem segundo uma disposição mais clássica, distribuídas por quatro secções, cada uma dedicada a uma das quatro grandes questões que Kant considerou centrais no inquérito filosófico: "Que posso saber?", "Que devo fazer?", "Que posso esperar?" e "O que é o homem?" Esta arrumação terá ficado a dever-se menos a preocupações de sistematização quanto a razões de facilidade de manuseamento para os leitores, como se de secções de um breviário se tratassem, fazendo-se a leitura das questões sem que nenhuma ordem de precedências esteja em causa, podendo até marcar-se páginas como quem escolhe perguntas e respostas favoritas.

Se a ideia era mostrar como a filosofia é acessível e interessante para a vida quotidiana das pessoas, então o resultado parece muito bem conseguido. Este é, de facto, um daqueles livros que se oferece bem a qualquer um e que é facilmente lido por qualquer espécie de gente.

Novos ou menos novos, atreitos à especulação ou menos dados a deambulações, todos temos hesitações que nos fazem perguntar.

Por isso, talvez o maior mérito esteja não tanto na inteligência e pluralismo das respostas dadas, mas na vitalidade renovadora das perguntas lançadas por pessoas de um público geral, perguntas tão extraordinariamente concretas como "Estarei moralmente obrigado a dizer à minha parceira sexual se fantasio com outra pessoa quando estou a fazer amor com ela?", "A sorte e o azar existem, ou foram simplesmente inventados para proporcionar desculpas?"; "O facto de uma coisa existir na imaginação de alguém não dá a essa coisa pelo menos um mínimo de realidade?"; "Porque devemos respeitar os mortos?" O surpreendente é ver como este simples exercício de verbalizar perguntas que arriscavam calar-se em silêncio por despropósito de alguma espécie pode ser recompensado com respostas com sentido, inteligentes, até bem-dispostas, e que isso é filosofia. Perguntar não custa, liga a filosofia à sua origem mais sensível e humana.