O nosso 2008

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MÚSICA/POP
Escolhas de João Bonifácio, Luís Maio, Mário Lopes, Nuno Pacheco, Pedro Rios e Vítor Belanciano 

1. Vampire Weekend
Vampire Weekend
XL Recordings, distri. Popstock

Não são os primeiros a atingir um desígnio superior pulverizando as partes no todo, fazendo nascer um outro e admirável organismo. Reconhecemos neste álbum de estreia todos os elementos que o constituem. Mas surpreendemo-nos pelas disposições possíveis de concretizar a partir de materiais já explorados. E pela determinação contagiante que libertam, apostando numa sonoridade melódica. A voz é maleável, a secção rítmica balança vigorosamente, as orquestrações são certeiras, as guitarras provocam movimentos em cascata e daqui resultam canções vibrantes.
Provenientes de Nova Iorque, os Vampire Weekend simbolizaram o ambiente criativo de Brooklyn onde, em 2008, germinou parte considerável da produção mais entusiasmante do ano (Dirty Projectors, High Places, Yeasayer, MGMT, TV On The Radio, Deerhunter, Gang Gang Dance, Santogold). Ao mesmo tempo que personifi caram a descoberta das sonoridades africanas pelas novas gerações dos cenários pop mais alternativos. Refrescante, desinibido e charmoso, onze canções em estado de graça. V. B.

2. Gang Gang Dance
Saint Dymphna
Warp, distri. Symbiose

De figuras de culto "underground" a "uma das bandas do momento" ("New York Times"), tiveram em 2008 o seu ano de maior exposição. A culpa foi do quarto álbum, em que há percussão africana, grime, pop sem vergonha à Madonna ("House Jam" é uma das canções do ano), pós-punk e outros territórios díspares. É, ao mesmo tempo, filho do seu tempo e totalmente único. P. R.

3. Portishead
Third
Island, distri. Universal

O mais fácil, des anos depois, seria voltarem na versão charmosa e nocturna que lhes granjeou sucesso. Mas não. Puseram-se em causa num disco abrasivo. As canções mudam de direcção bruscamente, a melancolia existe, mas não conforta, perturba. A voz de Gibbons mantém o poder de sedução, mas está agora rodeada por subúrbios onde o horror irrompe. Ou campos bucólicos onde a desolação impera. O que se mantém é a gravidade emocional, a justeza da intensidade dramática, a vontade de atribuir o nome exacto às coisas, porque não pode ser de outra forma. V. B.

4. High Places
High Places
Thrill Jockey, distri. Mbari

Em Fevereiro lançaram "03/07 09/07", mas foi com este segundo álbum que a dupla Rob Barber e Mary Pearson nos conquistou. São uma espécie de Young Marble Giants lá de Brooklyn. Tal como o mítico grupo do pós-punk britânico, tecem canções artesanais a partir de estruturas ínfimas, feitas de micro-percussões, ligeiras alusões folk, sons da natureza e reverberações que impelem a um torpor gracioso. Música com algo de encantatório e de imaginário infantil. V. B.

5. Buraka Som Sistema
Black Diamond
Enchufada, distri. Sony-BMG

Os três últimos anos têm sido intensos para os portugueses: têm sido anos de consagração. 2008 foi mais um, com actuações pelo mundo e chamadas de atenção na imprensa internacional. "Black Diamond" foi o pretexto. Um disco marcante por razões artísticas (sincretismo dançante de várias origens), de mercado (desvendado que a via internacional é possível) e sociais (mostrando que todas as linguagens e experiências são importantes e enriquecedoras para a modernidade portuguesa). V. B.

6. Tiago Guillul
IV
Flor Caveira

Logo a abrir o disco Tiago Guillul canta "Que se dane o rock'n'roll/ isto é folclore", como quem avisa que aqui se vai a todo lado: à soul, ao rock, ao reggae, ao punk, ao folclore. E no fim sai-se com três mãos cheias de grandes canções pop inclassifi cáveis e tem-se um dos discos pop portugueses mais importante dos últimos anos. J. B.

7. Fujiya & Miyagi
Lightbulbs
Groneland; distri. Última

Conhecemo-los com "Transparent Things" (2006) e não houve como escapar ao feitiço: a precisão do kraut e a dinâmica de electrónica "vintage", o calor orgânico do rock'n'roll e hipnose para pista de dança. "Lightbulbs", deste ano, nem foi passo em frente. Mas perante o poder contagiante da música tal não seria necessário. É o aprimorar da fórmula, acolhendo bem vindos desvios italo-funk, pitadas de experimentalismo sónico e mantendo intacta a elegância desta locomotiva "motorika", estilizada para o século XXI. M. L.

8. Buika
Niña de Fuego
Warner, distri. Farol

Terceiro disco da maiorquina Concha Buika, filha de imigrantes da Guiné Equatorial, expõe em todos os seus cambiantes a arte vocal desta extraordinária cantora e a forma como ela absorveu o "duende" flamenco. São coplas, bulerías, rumbas ou rancheras mescladas habilmente com influências de jazz, blues e sons caribenhos. Ouvi-la, em disco ou ao vivo, é uma experiência arrasadora. N. P.

9. Cass McCombs
Dropping The Writ
Domino; distri. Edel

O americano parece destinado a ser nome segredado entre convertidos. "Dropping The Writ", o seu terceiro álbum e um dos primeiros a chegar às lojas portuguesas em 2008, não alterou essa existência insular. De um lirismo surpreendente, chamemos-lhe "storytelling" surrealista. Com uma capacidade de conjugar classicismo pop, etéreos desvios folk e psicadelismo em formato canção, McCombs é um segredo fascinante. Guardemo-lo fielmente. M. L.

10. Camané
Sempre de Mim
EMI

É o disco mais negro de Camané que, em desolação, canta, fado a fado, a solidão. Em 16 temas não há um que acabe em "fortíssimo" e tudo aqui é queda: "Lembra-te sempre de mim", "Tudo isso", "Bicho de conta" são tremendos fados, mas "Te juro", "Sei de um rio" e, mais que tudo, "Ser Aquele", "Este silêncio" e "As palavras" colocam o fadista no panteão dos grandes criadores. Obra-prima. J. B.

11. MGMT
Oracular Spectacular
Columbia; distri. Sony BMG

Tivessem editado apenas o single "Time to pretend" e, só por "aquela" linha de sintetizador, os MGMT já teriam enriquecido a música urbana. Mais que isso, o duo representa na perfeição o que foi em 2008 o centro criativo de Brooklyn: música que cruza referências sem pudor para chegar a esse bem maior a que chamamos canção. Aqui ouve-se a euforia cocainada dos anos 1980, o psicadelismo cósmico da década de 1960, as fantasias pop de uns Flaming Lips e o glam de Bowie. Ouve-se uma colecção de pérolas pop, ponto final. M.L.

12. TV On The Radio
Dear Science
4 AD, distri. PopStock

O terceiro álbum tinha que ser diferente dos anteriores. Em particular, o segundo, "Return To Cookie Mountain", era assombroso, canções desamparadas mas majestáticas, um neo-rock sôfrego. Este possui traços desse universo, mas é mais virado para o exterior. As canções não perderam elaboração, mas estão mais imediatas. A estrutura é mais visível, as melodias mais polidas e as influências alargaramse rock, soul, funk, electrónicas ou jazz embora a paixão e o compromisso sejam os mesmos. Uma das bandas mais entusiasmantes da actualidade. V.B.

13. Girl Talk
Feed The Animals
Illegal Art, distri. Flur

Foi a confirmação do talento de Gregg Gillis, depois de "Night Ripper" ter feito furor no meio "indie". A sua música é produzida a partir de centenas de pedaços de canções alheias, de Cat Stevens aos Metallica, passando pelas estrelas do hip-hop actual. Não lhe chamem DJ, que ele não gosta e com razão: o que Gillis faz são canções a partir de uma manta de retalhos. Uma das melhores homenagens à música popular do ano. P. R.

14. Ney Matogrosso
Inclassificáveis
EMI

Aos 67 anos, Ney canta a corrupção, o amor, o sexo, a miséria, a violência, a marginalidade, a velhice, a mestiçagem ( "Inclassificáveis", o título, vem daí) com espantosa intensidade. A banda, dada ao rock, encaixa na perfeição no projecto. E se ele volta a Cazuza, Caetano e Gil, há no disco excelentes versões e sufi cientes inéditos para acentuar a sua novidade. Um disco luminosamente pop. N.P.

15. B Fachada
Viola Braguesa
Flor Caveira

"Viola Braguesa" começa com "Tradição" e não demora a dizer ao que vem: "Perguntei ao sangue a minha tradição/ E o sangue respondeu-me esta canção". Ao quarto disco, B Fachada descobre a sua voz. Revelase: a tradição é o que resgata da rua (ou entre quatro paredes) para traduzir em voz e viola braguesa. Fá-lo com amor e humor, sarcasmo e doçura. A partir de agora, B Fachada é "tradição" que não poderemos ignorar. M.L.

16. Why?
Alopecia
Tomlab; distri. Flur

Cada canção de "Alopecia" é sufocante mas caminha em direcção a um precário altar melódico que, camada após camada, revela uma obsessiva construção: campainhas, pianos, harmonias vocais, órgãos estranhos, flautas, xilofones, riffs derivados do blues acústico, metais, tudo isto se une numa pop que subverte os cânones, tão melodicamente retorcida quanto harmonicamente irrepreensível, tão negra quanto solar. J. B.

17. Beach House
Devotion
Carpark; distri. Nuevos Media

Um simples órgão e uma guitarra eléctrica desenham minúsculas harmonias. Por cima delas Victoria Legrand canta lentas e tristes melodias. Há a ocasional flauta, uma pandeireta, pouco mais, em canções de construção minimal, românticas e etéreas - aqui com um valsear outonal, ali possuídas por uma quase-alegria, acolá outonais, mas sempre versando o amor com uma esfíngica beleza. É o disco mais melancólico de 2008 e um dos mais bonitos. J. B.

18. Earth
The Bees Made Honey In The Lion's Skull
Southern Lord, distri. Sabotage 

Os Earth encontraram na tradição americana guardada em bandas sonoras como "Dead Man", de Neil Young, uma frutuosa segunda via para a sua música hipnótica e repe. Neste disco, com convidados como Bill Frisell, elevam essa estética a outros territórios, por vezes psicadélicos e "jazzísticos", sempre sem descurar a sacrossanta hipnose que fez deles referências de muito do rock actual. P. R.

19. Fleet Foxes
Fleet Foxes
Bella Union, distri. PopStock

Na categoria de "melhor álbum conservador do ano" não lhes faltou concorrência, mas a estreia dos americanos merece destaque. Súmula de folk e rock que os seus pais, avós e, provavelmente, bisavós ouviam, o colectivo de Seattle parece vir de outro planeta, de uma floresta encantada ou de uma congregação religiosa isolada do mundo. Um som tão barroco quanto bucólico, guiada por guitarras acústicas, pianos, blocos harmónicos e coros - evocadores, em partes iguais - de cânticos célticos, gregorianos, profundamente americanos. V.B.

20. Dirty Projectors
Rise Above
Rough Trade, distri. PopStock

É um álbum que reconstrói, de memória, "Damaged", de 1981, dos Black Flag. É um disco re-imaginado pela mente de David Longstreth, o homem por trás dos Projectors. Disco de canções alienígenas, de harmonias anómalas, de irritações espontâneas de guitarras, de vocalizações estranhas, de uma amálgama sonora excêntrica, onde as paredes estão sempre seguras. Disco de canções distorcidas, como se o grupo preparasse o acesso à norma, e, depois, lhe desferisse golpes. E no fim, daqui resultasse um sonho fantástico de canções mal resolvidas, tonificante reestruturação rock, folk, jazz e sabe-se lá que mais. V.B.

21. Scout Niblett
This Fool Can Die Now
Too Pure; distri. Popstock

Tal como outros discos de Niblett, "This Fool Can Die Now" varia entre baladas acústicas e despidas e a violência da guitarra eléctrica, e finca-se no elemento comum a todas as canções: a voz, uma voz que oscila entre registos infantis e fantasmagóricos, mas sempre, sempre de uma intensidade rara. Não poucas vezes Scout deixa-nos, sem respiração nos cimos de um refrão (sempre dorido), por vezes esse efeito de "suspensão" é ampliado por arranjos de cordas preciosos.. Raros discos conseguem raiar de tão perto a ideia de desespero e sair por cima da beleza. J. B.

22. Sonic Youth
Andre Sider Af Sonic Youth
SYR, distri. Sabotage

Os Sonic Youth trilham dois percursos em simultâneo: o dos discos mais conhecidos e um outro, subterrâneo e experimental, em que cabe este álbum, gravado ao vivo com Merzbow e o saxofonista Mats Gustafsson. Nele, o rock dissonante encontra o ruído digital do primeiro e o jazz mais livre do segundo numa única peça brilhante e a mais extrema da discografia dos Youth, a quem a idade parece não pesar. P.R.

23. Santogold
Santogold
Lizard King Records, distri. Edel

Caleidoscópio do mundo urbano de hoje, onde as divisões de tipologias há muito deixaram de fazer sentido, no caldeirão sónico de Santogold cada canção é um jogo de figuras que acaba por formar um todo homogéneo, intersectando-se de maneira lúdica. Podemos falar da energia vocal, da flexibilidade de dinâmicas rítmicas, do agregado sonoro que se vai desmultiplicando de canção para canção - do rock ruidoso ao balanço físico do dancehall, dos materiais do dub à pop electrónica -, num jogo de mudanças de intensidade onde existe tensão mas também celebração. V.B.

24. Robert Forster
The Evangelist
Taition; distri. Ananana

Durante bem mais de duas décadas Robert Forster partilhou os Go-Betweens com Grant McLennan. Das dez canções que compõem o disco, três ainda têm o dedo de McLennan (que melhor maneira de o homenagear?), e é o fantasma dele que inspira as restantes canções de um disco que encontra Forster em estado máximo de inspiração, sem afectações de poseur na voz, entregue apenas a guitarras acústicas, pianos e cordas. "And he knew more than I knew/ and he hated/ what I hated too: this world", canta Forster no final de um disco tremendamente bonito. J. B.

25. The Matthew Herbert Big Band
There's Me And There's You
!K7, distri. Symbiose

O inglês é um agitador. Mas não confunde forma com substância. Voltou a ser assim no segundo álbum da Matthew Herbert Big Band, onde reuniu uma vintena de músicos de jazz e a cantora Eska Mtsungwazi, operando transformações plásticas, apostando na imponderabilidade, conjugando sensibilidade pop, ideias de laboratório e saber erudito, numa espécie de cabaret futurista, do qual resultaram em canções de protesto, mas de balanço físico insinuante, com espaço para o glamour e para a elegância que se espera de um colectivo de músicos de jazz. V.B.

26. Wooden Ships
Vol.1
Holy Mountain; distri. Sabotage

São perigosa música de dança - pegam nos padrões hipnóticos de uns Neu! e lançam-nos até à estratosfera. São rock'n'roll regenerador - música feita de riffs inebriantes e de eléctrica irrequietude. Banda de São Francisco, inventam o psicadelismo de uns anos 1960 que nunca existiram - porque não estiveram lá, porque estamos em 2008. "Vol. 1", álbum colectânea de singles e EPs, é um manifesto que dispensa palavras. Só existe este som, que não cessa de ecoar nos ouvidos e de ressoar no esqueleto. M. L.

27. Vetiver
Thing Of The Past
Gnomonsong; distri. Flur

Álbuns de versões nunca trouxeram nada de relevante ao mundo. Eis então uma excepção, o segundo álbum dos Vetiver de Andy Cabic - um milagre. O seu coração é o sereno folk-rock californiano da década de 1970 e o milagre nasce da forma como estas canções, de nomes conhecidos como Loudon Wainwright III e de gente que nunca ouvíramos antes, como Biff Rose, chegam até nós - sentimos que pertencem por inteiro aos Vetiver. O segredo? um cantautor que compreende o poder de uma canção, que sabe como este reside tanto tanto na sua criação como na nova vida que lhe confere. M.L.

28. Glass Candy
B/E/A/T/B/O/X
Italians Do It Better, distri. Sabotage

O segundo álbum da dupla Glass Candy repousa sobre ideias análogas às dos companheiros de editora Chromatics, ou seja, cenários electrónicos expansivos sobre os quais desenvolvem o seu talento de ourives, acrescentando-lhes motivos "disco", ritmos que parecem amortecidos e fantasias com sintetizadores do antigamente lá dentro. Isto enquanto a cantora Ida revela o seu timbre sensual etéreo. São canções minimalistas, quase oníricas na maneira como integram diferentes temperaturas, do glaciar ao mais cálido, canalizando-as para criar um espaço de sensualidade. V.B.

29. The Last Shadow Puppets
The Age Of The Understatement
Domino, distri. Edel

O vocalista dos Arctic Monkeys, Alex Turner, é um dos mais fascinantes criadores do espaço pop contemporâneo. Este ano aliou-se a Miles Kane (The Rascals), para um disco pop de feição diferente dos Monkeys, evocando a frescura de alguns quadrantes pop dos anos 60 - Scott Walker, David Bowie -, alguma canção ligeira francesa ou bandas-sonoras de policiais. É um disco onde a dupla ergue canções pop de recorte inocente, emocionalmente delicadas, servidas por arranjos de cordas que lhes transmitem sumptuosidade. São canções que navegam entre o esqueleto acústico e o impacto cénico da pop barroca. V.B.

30. Jamie Lidell
Jim
Warp, distri. Symbiose

Até aqui, Jamie Lidell queria ser cantor soul. Com "Jim" já não quer. É mesmo. É por isso uma obra que transpira prazer. Não é, evidentemente, um álbum tão ousado como "Multiply". Mas é também mais livre. É o disco de alguém que já não está preocupado com fintar influências. Assume-as, não para se fazer passar por outros, mas para transmitir o prazer que lhe vai na alma em ser ele próprio. V.B.

 

 

MÚSICA/JAZZ
Escolhas de Nuno Catarino, Paulo Barbosa e Rodrigo Amado

1. Anthony Braxton /Milford Graves /William Parker
Beyond Quantum
Tzadik, dist. Flur

Já próximo do final do ano surge, pela mão de John Zorn (produtor) e da sua label Tzadik, esta extraordinária sessão gravada por três grandes mestres da improvisação. Claramente distinto da produção habitual de Braxton, "Beyond Quantum" afirma-se hoje como paradigma do jazz moderno. Três músicos com ilimitados recursos técnicos comunicam intensa e telepaticamente, fazendo convergir as linguagens que fizeram a história do jazz no século XX e transformando-as em algo maior, com uma identidade tão forte que nos faz esquecer todas essas referências. A abstracção cubista do mestre Braxton, em saxofone, é transformada em matéria e emoção nas mãos orgânicas de Graves (bateria) e Parker (contrabaixo) que a trabalham, cada um, de forma distinta: ao baterista cabe o detalhe, enquadrado num fluxo rítmico inabalável, enquanto Parker fica responsável pela pulsação rítmica, a respiração da música. Num encontro em que Braxton e Parker se encontram pela primeira vez com Milford Graves, um dos grandes ritmatistas vivos, é evocada toda a magia da "great black music" para um registo histórico e intemporal. R. A.

2. Charles Lloyd Quartet
Rabo de Nube
ECM, dist. Dargil

Aos primeiros compassos de "Prometheus", o primeiro tema, percebemos que algo está diferente em Charles Lloyd. Apesar de "Sangam" possuir já uma energia vital que renovou o trabalho do saxofonista, aqui essa renovação foi ainda mais longe. E isso acontece sem que o som perca qualquer da sua acessibilidade ou beleza. Com Reuben Rogers no contrabaixo, Eric Harland na bateria e Jason Moran no piano, a música de Charles Lloyd soa vibrante, tão alto como nas nuvens. R.A.

3. Bill Dixon
With Exploding Star Orchestra
Thrill Jockey, dist. Mbari

Admirador do lendário trompetista Bill Dixon, Rob Mazurek, talentoso músico de Chicago, também ele trompetista, cujos conceitos se desenvolvem nas margens do jazz, do rock e da música concreta, aproveitou um encontro ocasional no Guelph Jazz Festival e convidou Dixon para gravar com a sua Exploding Star Orchestra -notável formação que integra alguns dos melhores improvisadores de Chicago. No centro da ordem e do caos ergue-se o trompete de Dixon, timbre mercurial, inspiração criativa absoluta, verdadeiro sol. R.A.

4. Vandermark 5
Beat Reader
Atavistic, dist. Sabotage

Em "Beat Reader", Ken Vandermark consegue novamente erguer-se acima das altíssimas expectativas que rodeiam cada uma das suas gravações. Temas complexos, arranjos precisos, excertos de energia bop, solos descontraídos mas intensos, inúmeros trechos compostos a funcionar como âncora das improvisações e, sempre, a sensação de que estamos a ouvir a música mais actual do momento. R.A.

5. Esbjorn Svensson Trio
Leucocyte
Act, dist. Dargil

Ritmos pesados e marcados, contaminação electrónica e uma multitude de efeitos de pós-produção. Gravado em jam sessions realizadas em estúdio durante a digressão australiana da banda, capta o trio em processo de criação, numa atmosfera de liberdade que contrasta com os seus anteriores álbuns, mais estruturados, e aponta algumas das direcções que poderiam vir a tomar. Groove crepuscular no último disco do trio, estrelas jazz cuja carreira foi interrompida com a morte de Esbjorn Svensson. R.A.

6. Evan Parker
Boustrophedon
ECM, dist. Dargil

Evan Parker, saxofonista excelentíssimo e um dos maiores improvisadores de sempre, continua no vortex do jazz internacional. Gravado com a mesma formação de "Composition/ Improvisation1, 2&3" de Roscoe Mitchell, a Transatlantic Art Ensemble, "Boustrophedon" equilibra de forma notável composição e improvisação em oito movimentos impressionistas que desafiam categorizações. 14 músicos às voltas com as complexidades e os significados ocultos do tempo e do espaço. R.A.

7. Kurt Rosenwinkel
The Remedy, Live at the Village Vanguard
ArtistShare

É comum referir a comunicação telepática que reina entre o guitarrista Kurt Rosenwinkel e o saxofonista Mark Turner. Mas a verdade é que o grau de empatia entre os dois justifica comparações com outras duplas que, pelo mesmo motivo, cravaram bem fundo o seu nome no jazz. Em "The Remedy", ao vivo e acompanhados por uma secção rítmica de elevado calibre, retrato de uma das grandes formações jazz do momento. Paulo Barbosa

8. António Pinho Vargas
Solo
David Ferreira Inv. Editoriais, dist. EMI

Magnífico regresso. Pegando nas suas velhas composições, Pinho Vargas aventura-se em regravações em formato piano solo. O que há de novo? À partida, nada. E, na verdade, tudo. Os velhos temas transfiguram-se, concentram-se na essência da melodia e as improvisações (por vezes contidas, outras vezes alongadas) são veículos para uma rara luminosidade. Nuno Catarino

9. William Parker
Double Sunrise Over Neptune
AUM Fidelity, dist. Trem Azul

Extraordinária a capacidade do contrabaixista William Parker para se desdobrar em múltiplos projectos, todos eles com relevância assinalável. Ao vivo no Vision Festival de Nova Iorque, Parker conduz um ensemble de 15 músicos ao longo de quatro andamentos que exploram a espiritualidade e transcendência física legadas por Sun Ra. Jazz Cósmico, num caleidoscópio multicultural que o eleva a uma nova dimensão. R.A.

10. Brad Mehldau Trio
Live
Nonesuch, dist. Warner / Farol

Brad Mehldau é, a par de Keith Jarrett, o mais venerado pianista da actualidade. Neste regresso, em forma, do seu celebrado trio com o contrabaixista Larry Grenadier e o baterista Jeff Ballard, cada tema representa um conjunto de possibilidades para a improvisação, estabelecendo vias que a criatividade e o poder de comunicação destes músicos desenvolve de forma brilhante. P. B.

11. James Carter
Present Tense
Emarcy, dist. Universal)

Ancorado na tradição, James Carter não inventa (e isso é bom). Ao longo dos dez temas explora uma imensa diversidade estilística, sempre temperada com extremo bom gosto. Hardbop de alta intensidade, bossanova, standards variados e uma grande variedade de sopros - flauta, clarinete baixo e saxofones soprano, tenor e barítono - são os veículos para Carter reafirmar as suas credenciais como um dos mais interessantes saxofonistas da actualidade. N. C.

12. Paulo Curado
The Bird, The Breeze and Mr Filiano
Clean Feed, dist. Trem Azul

Improvisador notável e excelente instrumentista, Paulo Curado lidera um trio onde se destaca o contrabaixista americano Ken Filiano. Com Bruno Pedroso no lugar da bateria, "The Bird, The Breeze and Mr. Filiano" conjuga excelência instrumental, interacção musical profunda e uma dinâmica de grupo invejável, características fundamentais quando estão em causa discursos improvisados. Venham mais destes.

13. Maria João / Mário Laginha
Chocolate
Universal, dist. Universal

A expressão "simple is better" nunca fez tanto sentido. Com um som orgânico, uma integração perfeita dos instrumentos com a voz, e a participação do som mercurial do saxofone de Julian Arguelles, João e Laginha exploram uma simplicidade e contenção que lhes era desconhecida. E fazendo adivinhar para a sua música um futuro mais jazz e "bluesy" profundamente contaminado por uma sensibilidade pop. R. A.

14. Mauger
The Beautiful Enabler
Clean Feed, dist. Trem Azul

Mauger é Rudresh Mahanthappa no saxofone alto, Mark Dresser no contrabaixo e Gerry Hemingway na bateria. Três extraordinários nova-iorquinos que se juntam pela primeira vez em estúdio. É uma música verdadeiramente colectiva, por vezes exigente, mas sempre intensa e de grande expressividade. Uma revelação. R. A.

15. Atomic / Schooldays
Distil
Okka Disk

Sem distribuição oficial no nosso país, "Distil" regista mais um capítulo brilhante no historial de colaborações entre músicos nórdicos e norte-americanos. Seguindo a estética habitual de "free-jazz meets hard bop", associada a um rigor orquestral e longas improvisações incendiárias, reúne músicos das formações Atomic e Schooldays - Ken Vandermark, Fredrik Ljungkvist, Magnus Broo, Jeb Bishop, Havard Wiik, Kjell Nordeson, Ingebrigt Haker Flaten e Paal Nilssen-Love. R. A. 

 

 

MÚSICA/CLÁSSICA
Escolhas de Cristina Fernandes, Pedro Boléo e Rui Pereira

1 . Bach e Gubaidulina
Concertos para violino Anne-Sophie Mutter Valery Gergiev
Solistas de Trondheim
Orquestra Sinfónica de Londres
DG 477 7948

Pela revelação surpreendente de uma obra-prima terminada em 2007 de Sofi a Gubaidulina, uma das maiores compositoras da segunda metade do século XX e da actualidade, e pela intensidade dramática de todo o álbum que reúne igualmente concertos de Bach, Anne-Sophie Mutter alcança uma das melhores gravações dos últimos anos. Naquela que é a sua primeira gravação de peças de Bach para a Deutsche Grammophon, oferece uma leitura extremamente comovente de dois concertos para violino. Numa linha de forte expressividade e com uma escolha de tempos extremamente adequada, que nem está muito na moda, Mutter alcança uma versão de excelência. Mas a obra que mais destaque dá a este CD é In tempus praesens que a compositora russa Sofi a Gubaidulina escreveu para Anne-Sophie Mutter e que é aqui gravada em estreia mundial. As ligações de Gubaidulina à obra de Bach são recorrentes. Já no seu anterior Concerto para violino, ao qual chamou Off ertorium, utilizava o célebre tema da Oferenda Musical, o qual oferecia gradualmente como sacrifício.
A nova obra tem igualmente um forte sentido de espiritualidade, quer no deambular entre a luz e as trevas, quer em elementos de escrita que nos remetem para a retórica do Barroco. R. P.

2. Vivaldi
Les Quatre Saisons e autres concertos
Amandine Beyer (violino e direcção)
Gli Incogniti
Zig-Zag Territoires ZZT 080803

Parece impossível voltar a surpreender com "As Quatro Estações", mas basta ouvir alguns compassos do mais recente CD de Amandine Beyer para constatar o contrário. Um som magnífi co, pleno de luminosidade e cor, o pulsar dançante do ritmo e uma captação sonora que transporta os instrumentistas para dentro da nossa casa são armas sedução imediata.
O virtuosismo é entendido em função da retórica musical resultando numa sucessão de quadros sonoros de forte poder pictórico. C.F.

3. Firenze 1616
Le Poème Harmonique Vincent Dumestre (tiorba e direcção)
Alpha 120

O agrupamento Le Poème Harmonique dá-nos a conhecer uma original versão musical do mito de Orfeu -"L'Orfeo Dolente" (1616), de Domenico Belli (fl. 1627) -em paralelo com outras belas páginas de Claudio Saracini e de Giulio Caccini que focam diferentes aspectos da técnica do "recitar cantando" em Florença no século XVII. As vozes, a perfeita compreensão da retórica dos afectos, o sublinhar das mais ínfimas nuances ou dos rasgos mais veementes do discurso e a fluência da ornamentação encontram eco em intérpretes com plena consciência estilística. C.F.

4. Francisco Javier: A Rota do Oriente
Hespèrion XXI
La Capella Reial de Catalunya
Jordi Savall, direcção musical
AliaVox AVSA 9856

O CD enquanto objecto de desejo encontra nesta edição um dos seus melhores exemplos. Apresentado com um cuidado inigualável, este projecto começa por uma criteriosa escolha do programa: uma ilustração musical da vida de São Francisco Javier (1506-1553) numa empolgante viagem do berço, em Navarra, à tumba, às portas da China, que decorreu sob o desígnio da evangelização na Rota do Oriente.
Pela qualidade e variedade musical e a originalidade do projecto de investigação, este é um dos discos do ano. R. P.

5. Homage à Messiaen
Pierre-Laurent Aimard, piano
DG 4777452

Uma interpretação ímpar na sofisticação com que reveste algumas das mais belas obras de Messiaen, compositor nascido há 100 anos. Das edições que têm vindo a celebrar o centenário da efeméride, a presente homenagem de um dos seus discípulos, o pianista Pierre-Laurent Aimard, merece pleno destaque pela excelência interpretativa que alcança.
Em obras que todos estes intérpretes já gravaram, Aimard aventura-se na conquista plena de um dos mais ricos universos musicais feito de coloridos e tempos irreais. R.P.

6. Bartók - Concertos
Pierre-Laurent Aimard, Tamara Stefanovich, Gidon Kremer,Yuri Bashmet (solistas)
Orquestra Sinfónica de Londres
Orquestra Filarmónica de Berlim
Pierre Boulez (direcção)
Deutsche Grammophon DG 477 7440

Pierre Boulez concluiu com chave de ouro a sua integral das principais obras orquestrais de Bartók. Para a interpretação do Concerto para dois Pianos e Percussão, do Concerto para Violino e Orquestra nº 1 e do Concerto para Viola e Orquestra, associou-se a alguns solistas notáveis com pergaminhos na música do século XX. Os ritmos parecem esculpidos em cristal, a ampla paleta dinâmica é doseada ao milímetro e o rigor da direcção de Boulez confere à orquestra um tratamento camarístico, onde cada detalhe é cuidado com precisão de filigrana. C. F.

7. Con passione
Yossif Ivanov, violino
Itamar Golan, piano
Ambroisie AM136

Um álbum absolutamente fabuloso e raro, daqueles que fazem suster a respiração e nos deixam arrebatados e incrédulos. O jovem Yossif Ivanov confirma o lugar de destaque que merece enquanto virtuoso de raro calibre e intérprete de sonoridades calorosas e embriagantes, afirmando-se como o mais promissor da nova geração. Fica aqui apenas um resumo de algumas das obras com que se pode deliciar: a célebre "Tzigane" de Ravel, uma "Fantasia de Carmen" de Waxman, Valsas de Tchaikovski, um "Poema" de Chausson, caprichos de Kreisler e Sarasate e, ainda, uma homenagem ao estilo de Albéniz da autoria de Shchedrin. R. P.

8. Fiesta
Música de compositores sul-americanos
Simón Bolívar Youth Orchestra of Venezuela
Gustavo Dudamel, direcção
Deutsche Grammophon 477 7457

Gustavo Dudamel faz a festa com a sua orquestra de jovens que já conquistou o mundo conservador da música clássica ocidental. No seu terceiro disco para a prestigiada editora, a orquestra de jovens venezuelana apresenta aquele que é considerado o seu repertório de eleição: música sinfónica de compositores sul-americanos. Estão reunidos alguns dos temas mais conhecidos da América Latina, tais como "Sensemayá", de Silvestre Revueltas, o "Danzón n.º 2", de Arturo Marquez ou as "Danças da Suite Estancia", de Ginastera. Pela capacidade de elevar este repertório ao mais alto nível, este é um dos eleitos de 2008. R.P.

9. Schubert
Sehnsucht
Matthias Goerne (barítono)
Elisabeth Leonskaja (piano)
Matthias Goerne Schubert Edition, vol. 1
Harmonia Mundi HMC 901988

O 1º volume da "Matthias Goerne Schubert Edition" é revelador de um projecto de enorme seriedade que aposta na dimensão mais profunda da música e da interpretação e deixa de lado as fórmulas de sucesso fácil. Nos últimos anos a voz de Matthias Goerrne tem adquirido maior densidade e matizes mais escuros, que se adequam muito bem ao universo musical e poético retratado neste CD, onde está presente o lado mais sombrio e angustiante de Schubert. A voz e a interpretação revelam um cantor no auge da maturidade, que beneficia aqui da colaboração de grande pianista russa Elisabeth Leonskaja. C. F.

10. Forqueray
Pièces de Clavecin
Blandine Rannou (cravo)
Zig-Zag Territoires ZZT 080301.2 (2 CD)

Originalmente escritas para viola da gamba e baixo contínuo, as peças de Antoine Forqueray (1671-1745) registadas neste álbum duplo foram transcritas para cravo e publicadas em 1747 pelo seu filho Jean-Baptiste-Antoine Forqueray (1699-1782). Em paralelo com estas versões, Blandine Rannou faz a sua própria realização harmónica e ornamental da textura de algumas páginas directamente a partir do baixo cifrado e da linha melódica da viola da gamba originais, num exercício de empolgante criatividade. A intérprete aposta nos contrastes e nas emoções extremas, transmitindo uma energia avassaladora. C.F.

 

 

CINEMA 
Escolhas de Jorge Mourinha, Luís Miguel Oliveira, Mário Jorge Torres e Vasco Câmara

1. O Segredo de um Cuscuz
Abdellatif Kechiche

Este ano sentámo-nos à mesa de uma família francesa -francoárabes, proletários dos arredores de Marselha (mas também há russos), enfim, uma família com os condimentos de hoje. E a refeição foi memorável.
Através da barriga, diz-se, chega-se mais depressa ao coração, e o adágio serve a "O Segredo do Cuscuz". A refeição foi espectáculo para todos: as fronteiras entre "cinema de autor" e "cinema popular" explodiram. Foram dinamitadas pela mão de um cineasta nascido em Túnis em 1960 e seis anos depois já a viver em Nice, França, para onde o pai emigrou.
Abdellatif Kechiche é o instigador de uma utopia, a de quebrar a distância entre filme e espectador. Sim, há algo de utópico nisto de dizer que os operários -personagens deste filme -poderem interessar às elites. E a utopia aconteceu com a terceira longa-metragem do realizador (depois de "La Faute à Voltaire" e de "A Esquiva").
Não vamos esquecer: longas sequências à mesa, espectáculo de cuscuz e de grandes planos dos rostos, onde a família abre feridas e cicatriza a sua unidade; uma incrível experiência "ao vivo" -a tal barreira que se quebra entre o espectador e o ecrã. Grande cinema popular, memorável, de novo. V. C.

2. A Turma
Laurent Cantet

Poder-se-ia dizer que era o filme certo na altura certa, face às convulsões da educação em Portugal, mas seria reduzir "A Turma" a uma topicalidade que transcende as suas intenções de mostrar a escola como reflexo da sociedade sem cair no cliché do "filme educacional". Missão cumprida em ambos os casos, através de uma ficção filmada como um documentário. J. M.

3. Este País Não é para Velhos
Joel e Ethan Coen

Adaptando o romance de Cormac McCarthy, os irmãos Coen constroem um terrífico pesadelo americano, com violência e rigor inusitados: depois de "Fargo" é a sua mais obra mais pessoal e mais forte, apostando num sangrento jogo de massacre, espécie de divertimento letal em torno da morte sem razão, um "thriller" brutal cruzado com um "western" rarefeito. O predador à solta de Javier Bardem persegue-nos como onírica encarnação do Mal. M. J. T.

4. Austrália
Baz Luhrmann

Como já fizera em "Romeu e Julieta" e "Moulin Rouge", Baz Luhrmann pulveriza as regras do cinema clássico e transforma os géneros em resquícios signifi cativos. O grande fôlego épico (pode falar-se de uma paródica a "E Tudo o Vento Levou" ou a "Gigante") dissolve-se numa estratégia pós-moderna de esvaziar os conteúdos melodramáticos e de reduzir as personagens a meros fantoches. E, no entanto, persiste uma comovente relação com a capacidade de o cinema transmitir emoções e de "arrepiar" o espectador incauto. M.J.T.

5. Gomorra
Matteo Garrone

É tudo menos o filme de mafiosos romântico e épico: "Gomorra" é uma arrepiantemente desencantada polaroid em mosaico sobre os proletários do crime.
Gente tão aprisionada no seu quotidiano banal como um qualquer bancário ou balconista, sonhando com uma saída que talvez não exista, assombrosamente filmada, sem ilusões mas com lealdade, por Matteo Garrone. J.M.

6. Quatro Noites com Anna
Jerzy Skolimowski

O polaco Jerzy Skolimowski, depois de 17 anos sem filmar, voltou a esgrimir a sua obsessiva inocência, fazendo corpo com a personagem de um funcionário de crematório obcecado pela enfermeira que vive em frente. É o filme de um cineasta intacto - na disponibilidade para a obsessão. É um filme, como outros de Skolimowski, em que o desejo tem amputação agendada: o cinema, "idade de ouro", escapa-se-nos entre os dedos. V. C.

7. Nós controlamos a noite
James Gray

A parábola do filho pródigo encenada entre as grandes famílias da polícia e da máfia novaiorquinas, em finais dos anos 80. Sem nunca "citar", Gray trabalha na pista - ou na "tradição" - deixada por outras grandes declinações do tema "família americana", do classicismo fordiano ao neo-classicismo coppoliano. Cheio de personalidade, cheio de estilo, mas silencioso e com horror a excessos: arte essencialmente discreta. Luís Miguel Oliveira

7. Aquele Querido Mês de Agosto
Miguel Gomes

Até na Austrália (onde o influente crítico Adrian Martin acaba de o escolher como "melhor do ano") o seu poder funcionou. Há portanto algo mais, neste filme sobre Portugal e os portugueses, do que o reconhecimento de Portugal e dos portugueses. Há um cinema que se reinventa, se redescobre (e se devora) a cada plano, sonhando com grandes fórmulas e géneros clássicos (o documentário e o melodrama) a que chega tomando o caminho mais longo. Gosto do risco, espírito de aventura. L.M.O.

9. Darjeeling Limited
Wes Anderson

O próximo filme de Wes Anderson será um desenho animado. É natural: talvez "Darjeeling Limited" seja o máximo ponto a que se pode levar a "cartoonização" e o burlesco sem que tudo se torne... "cartoon". Tudo almofadas para os sentimentos, o instrumento de um pudor: como sempre em Wes Anderson, é um filme lancinante. Viagem por uma Índia de cinema (a de Satyajit mas também a de Renoir), três irmãos à procura da mãe, laços de um sangue que ainda não parou de correr. L.M.O.

10. Antes que o Diabo Saiba que Morreste
Sidney Lumet

Lembrou-nos que o veterano Lumet, quando em "dia sim", pode ser um extraordinário cineasta. O filme-puzzle (assente em "flash-backs" ou "flash-forwards") tomado não como "desconstrução da narrativa" mas como decomposição das personagens e da sua unidade. Uma amargura sem fim, que não dá tréguas. Um grupo de actores (Seymour Hoffman, Finney, Ethan Hawke, Marisa Tomei) que foi o melhor "ensemble" do ano. L.M.O.

 

 

TEATRO
Escolhas de Jorge Louraço Figueira, Rita Martins, Rui Pina Coelho

1. Platonov
De Tchekov. Encenação de Nuno Cardoso
Teatro Nacional São João

A singularidade deste espectáculo veio da coincidência de vários factores: uma imaginação cénica com rédea dramatúrgica, a maturação de um método de pesquisa teatral e a cumplicidade artística de um grupo de pessoas que trabalham regularmente debaixo dos tectos do Teatro Nacional São João. O resultado foi uma obra teatral que comia à garfada o vermelho e dourado do teatro à italiana e, a partir do palco, reeditava as coordenadas espácio-temporais que eram válidas até então. A composição do colectivo de actores em cena era pensada ao milímetro mas, como deve ser, a cada dia viva. O carácter dissoluto da personagem principal, bem sacado pelos traços feéricos de Hugo Torres, e a desmesura do projecto de Tchekov, insuflada pela estamina da juventude do autor, batiam certo com a celebração da encenação perseguida por Nuno Cardoso. Tudo isto temperado com rigor formal e sobriedade de linguagem q.b., dando origem a uma dos melhores trabalhos dos últimos tempos, e defendendo a encenação como uma das belas-artes. J. L. F.

2. Mona Lisa Show
Encenação de Pedro Gil.
Centro Cultural de Belém

Um espectáculo que transcendeu a mera experiência teatral. Com uma construção em caleidoscópio, sete actores e actrizes contavam histórias pessoais que convocavam o quotidiano de uma classe média lisboeta. Insinuando-se pelo melodrama e tragicomédia, mas também pela telenovela e pelo auto-retrato, fazia-se a cartografi a geográfica e emocional da Lisboa de hoje, num espectáculo absolutamente arrebatador e comunicativo. Uma interpelação poética e breve às nossas vidas, desprovida de qualquer julgamento. R. P. C.

3. England
Tim Crouch
Culturgest

Tim Crouch deslocou o teatro para uma galeria de arte e escreveu um texto para dois actores sobre a evolução de uma doença cardíaca. Há um coração que falha e outro que é comprado e transplantado. Frio e envolvente, conceptual e intenso, "England" pôs em causa a recusa da morte e os valores de uma cultura sustentada em transacções.
Simplicidade de recursos e complexidade temática perfaziam um espectáculo singular e prodigioso, onde o teatro, o tempo e o corpo surgiam confrontados com as artes visuais, a arquitectura e o valor comercial das obras de arte. R. M.

4. No Dice
Nature Theater of Oklahoma
Festival Alkantara

Reproduziam as conversas telefónicas dos membros do grupo, acrescentavam perucas, bigodes, gestos e esgares. Em "No Dice", o grupo americano Nature Theater of Oklahoma parodiava o melodrama e o mau teatro amador para criar um espectáculo de um burlesco alucinante, regido por um implacável humor físico.
Ao repetir as conversas, tão próximas do nonsense literário, e a vida, tão próxima do melodrama de má qualidade, "No Dice" falava, afinal, sobre qualquer um de nós -das encruzilhadas, dos pequenos ou grandes desesperos, das insignificâncias insanas e/ou deprimentes. R.M.

5. Repartição
De Miguel Castro Caldas. Encenação Bruno Bravo. Primeiros Sintomas Culturgest

Ana queria declarar os seus rendimentos e dirigia-se a uma repartição das finanças... Seria este o ponto de partida de um texto para 8 vozes onde se denunciava o trabalho precário e a pulverização dos valores sociais numa Europa comercial. O espectáculo: um monumento à simplicidade teatral, hipnótico e musical, interpretado por oito actores em posições estáticas. Habitando os habituais lugares da parceria Bravo/Castro Caldas (imaginário infantil, uso lúdico da linguagem, exploração da musicalidade do quotidiano, convocação de ambientes oníricos) parodiava inteligentemente o nosso dia-a-dia. R.P.C.

6. Acamarrados
De Enda Walsh.
Pelos Artistas Unidos.
Centro Cultural da Malaposta

Este texto de Enda Walsh obriga-nos a testemunhar a relação de um amargurado vendedor de mobílias (António Simão) e da sua filha (Carla Galvão), prostrada na cama pela doença. De uma arquitectura textual violenta e áspera, traduzida numa crueza bestial e no uso de uma linguagem dura, obscena e escatológica, o espectáculo era servido por dois actores maravilhosos. Simão carregava a sua personagem de uma densidade inabalável e Carla Galvão criava molduras plásticas (e vocais) com uma versatilidade incrível, num trabalho simplesmente arrepiante. R.P.C.

7. Diário de Um Louco
De Nikolai Gogol.
Encenação de José Carretas.
Pela Panmixia.
Central Eléctrica do Freixo

Este espectáculo foi um dos quatro monólogos do ciclo "Solidões". A interpretação intensa e sofisticada de João Melo apresentou-nos uma personagem com subtis reservas quanto à eficácia do próprio discurso, e uma certa distância no uso das palavras, que causavam uma vertigem de identificação no espectador. O funcionário público que formula sonhos de grandeza aparecia assim como qualquer um de nós, em mais uma lúcida exploração do carácter nacional feita pelo encenador e dramaturgo José Carretas. J.L.F.

8. Purificados
de Sarah Kane.
Encenação de Krzysztof Warlikowski.
Teatro Nacional São João

Esta encenação era uma alegoria do desejo homossexual, figurada por trocas de roupa e amputação de membros, que ecoava o horror de um campo de concentração. Os actores encarnavam as personagens e as falas com grande clareza de sentido, tornando credível uma ficção em que a sucessão de picos dramáticos era apresentada sem preparação explícita dos conflitos. O que mais impressionava era a beleza das representações da violência, assentes no poder de sugestão dos gestos para reconstituir a força desse desejo. J.L.F.

9. VLCD!
Teatro Meridional.
Espaço da Mitra

Paródia melancólica sobre o ritmo das grandes cidades, "VLCD!" descrevia a velocidade que mecanizava os corpos e inutilizava o tempo. Recorrendo à técnica de clown, quatro actores emprestavam corpos versáteis a figuras cómicas pela sua rigidez e trágicas pelo seu absurdo. Corriam e esperavam no interior de espaço circular, espelho de um tempo repetitivo. As composições esmeradas fluíam num jogo físico notável, em constante diálogo com as sonoridades extraídas dos objectos, matéria musical e plástica em constante transformação. Mais um espectáculo imperdível do Teatro Meridional. R.M.

10. O Concerto de Gigli
De Tom Murphy.
Encenação de Nuno Carinhas.
Pela Assédio.
Teatro Nacional São João

Esta peça articula questões metafísicas à escala pessoal, encarnando-as em personagens com biografia tangível, seguindo o melhor da tradição dramatúrgica irlandesa, cujas personagens, apesar das distâncias, se parecem tanto com figuras do nosso contexto cultural. Os papéis foram representados com ironia, emoção e um certo ar de quixotismo introspectivo, em interpretações brilhantes de João Pedro Vaz e João Cardoso, que desenharam arcos emocionais completos, fazendo-nos ver o pensamento do autor. J.L.F.

 

 

DANÇA
Escolhas de Luísa Roubaud, Paula Varanda e Tiago Bartolomeu Costa

1. Íman
De Filipa Francisco e Wonderfull's Kova M.
Centro Cultural de Belém/Festival Alkantara

Não fora a vontade de viver intensamente com a arte e este encontro, feliz mas improvável, não teria acontecido. O seu sucesso resultou também da motivação invulgar das associações Alkantara e Moinho da Juventude, que favoreceram uma co-criação entre Filipa Francisco (rodeada de excelentes cúmplices profissionais) e o grupo de dança Wonderfull's Kova M. É um gesto realmente transformador e uma alternativa a políticas retóricas e inconsequentes. Mas acima de tudo, Íman é uma obra de grande valor estético e pujança emocional, onde linguagens tradicionais recicladas pelos filhos da diáspora africana se emancipam com um processo diferente de composição coreográfica e desenho espacial. As referências culturais exprimem-se nos gestos e movimento, organizados numa partitura algo lúdica e agradavelmente legível e a afirmação pessoal surge ao lado da cumplicidade e união do grupo, que se protege e convive com alegrias e conflitos. No fim, um documentário de João Pinto leva-nos com carinho ao Bairro da Cova da Moura. P. V.

2. Swan Lake - 4 acts
De Raimund Hoghe.
Culturgest

O gesto de Raimund Hoghe, erradamente entendido como hiperbolizador de uma narrativa canónica, não é radical porque extirpa, até à essência, uma peça quase perfeita como "Lago dos Cisnes". A sua radicalidade reside na clarificação das lógicas estruturantes desse clássico, aproximando o original de um reconhecimento contemporâneo. Há na pretensa aridez dos seus gestos esparsos a criação de um outro paradigma coreográfico, onde o corpo existe enquanto vínculo ao material em vez de gerenciador de emoções etéreas. T. B. C.

3. Nine Finger
De Benjamin Verdonck, Fumiyo Ikeda, Alain Platel.
Teatro Maria Matos/Festival Alkantara

Baseada no livro "Bestas de Lugar Nenhum", do escritor nigeriano-americano Uzodinma Iweala, a obra trouxe-nos o olhar, simultaneamente cru e cândido, de uma criança-soldado sobre o vórtice infernal de uma guerra, algures em África.
Rudimentar e infantil na linguagem e quase desmesurada na sua fisicalidade, a peça não pactua com uma destrinça fácil entre o plano da experiência concreta do horror e o da sua representação. E deixa-nos, subliminarmente, perante uma questão incómoda: em que termos pode a arte lidar com os limites da violência e miséria humanas? L. R.

4. Dinozord III: The Dialogue Series
De Faustin Linyekula.
CCB/ Alkantara Festival

Perturbador na sua concepção, disruptor na sua estrutura e repulsivo na sua temática, "Dinozord" está mais próximo do objecto documental que da dança engagé. A opressão no Congo e a falibilidade dos discursos humanistas encontram no olhar de Linyekula uma assertividade como poucos, e os corpos-fantasmas que coloca em cena não se afastam das responsabilidades. O seu activismo não se sustenta na denúncia, mas na capacidade de resistir, oferecendo uma oportunidade de intervenção localizada mas contundente. T.B.C.

5. Impressing the Czar
De William Forsythe
CCB

Interpelação crítica da dança clássica, esta obra-ícone de William Forsythe explora ao limite a suas dimensões de excesso e de formalismo. E é, simultaneamente, um périplo pela História da dança ocidental, uma súmula que condensa e reformula os seus principais eixos: do ballet ao neoclassicismo de Balanchine; da grandiosidade teatral de Bausch aos exercícios abstractoconceptuais de Cunningham. Em "Czar" expunha-se o que faz de Forsythe um mestre na arte da composição coreográfica, e os motivos pelos quais logrou projectar o idioma clássico para a contemporaneidade. L.R.

6. Coisas Marvilhosas
De Tiago Guedes.
Culturgest

Tiago Guedes arriscou inspirar-se num retrato ultrapassado do antigo Egipto, contrariando uma tendência vigente para censurar o exotismo e a ocidentalização. Fez uma dança silenciosa mas comunicativa, vistosa porém comedida, que evolui com a mesma continuidade singela da luz do sol ao longo do dia, desenvolvendo vocabulário original a partir de posturas corporais e ícones visuais óbvios. Foi uma peça polémica mas coerente, que traçou com elegância uma visão pessimista da humanidade a caminho da extinção. P.V.

7. De mim não posso fugir, paciência!
De Tânia Carvalho.
Espaço do Tempo

Prosseguindo uma pesquisa cada vez mais certeira na ampliação dos territórios comuns à música e à dança, a coreógrafa Tânia Carvalho fez desta peça um brilhante exercício de composição estilística onde os cinco corpos  e as notas saídas do piano convergiam num só plano. A persistência discursiva de Tânia Carvalho, aliada a uma clareza na individualização de uma genética contemporânea, teve aqui a oportunidade certa para a afirmação da sua voz como das mais vivas da cena internacional. T.B.C.

8. Nefes
De Pina Bausch
CCB

Longe vai o tempo em que Pina Bausch gerava controvérsia. A grande senhora da dança-teatro europeia é hoje um clássico e faz parte do "mainstream". Mas nada disto retira fulgor a "Nefes" ("respiração", em turco), obra resplandecente e voluptuosa, inspirada numa Istambul que nos foi devolvida sem tensões religiosas ou políticas, através de um olhar que segue a vida que corre, para além da ameaça ou do conflito. Com assombro (sempre) renovado, a peça conduziu-nos pelas habituais sucessões de cenas, onde alternavam a argúcia exímia e a beleza sufocante, e onde - raridade na dança europeia actual - a dramaturgia deixava respirar a coreografia. L.R.

9. Respira
De Aldara Bizarro.
Auditório Fernando Lopes Graça

Sessenta e cinco alunos de Cascais, Guimarães e Torres Novas trabalharam com sete artistas para desenvolver vídeo, figurinos e dança, reunidos numa peça que primou pela clareza da estrutura, criatividade das soluções, pertinência dos conteúdos e eficácia na sua transmissão. O espectáculo despertou uma sensação comovente de comunhão e ascensão e provou ser possível e produtivo conciliar objectivos artísticos com objectivos de sensibilização de púbicos e de valorização pessoal e social. P.V.

10. Tempo 76
De Mathilde Monnier.
Culturgest

Mathilde Monnier tem vindo a intensificar uma reflexão sobre a processos de ficcionalização do corpo a partir de estruturas frásicas exteriores a este. A extrema beleza das suas peças reside nesta ambiguidade discursiva. Ao celebrar a relação de forças entre movimento e música, insistindo agora na noção de uníssono, recuperou lógicas narrativas devedoras de uma ancestralidade clássica, ao mesmo tempo que rasgava novos territórios para a compreensão do movimento enquanto entidade absorvente e maniqueísta. T.B.C. 

 

 

EXPOSIÇÕES
Escolhas de José Marmeleira, Luísa Soares de Oliveira e Óscar Faria

1. Colectiva -Avenida 211, 4.º andar
De António Bolota, Francisco Tropa, Pedro Tropa, Teresa Santos, Thierry Simões, Jorge Queiroz, Diogo Saldanha, Marta Maranha, entre outros.
Lisboa. Espaço Avenida. Av. da Liberdade, 211, 4.º. Até 04/09. Sáb. e dom. das 14h às 16h.

No espaço Avenida, número 211, está uma das mais notáveis colectivas realizadas em Portugal. Tudo está certo, justo, na sua manifestação.
É uma oportunidade única para descobrir como, sem pressão, se concebeu uma iniciativa onde as diferentes obras dialogam, de facto, não só com o lugar -aos fins-de-semana, entre as 14h e as 16h, até ao fim de Abril de 2009 -, mas também entre si. Há uma comunhão, uma comunidade, entre e de todos os participantes, muitos dos quais, há muito, têm sido responsáveis pela definição de um território singular para a arte, propondo um diálogo intemporal com o acto criativo.
Tudo provém de um fundo sem fundo, de uma parede sobre a qual se inscreveu uma imagem, que continua a dizer-nos de si - um enigma.
Desenhos de Jorge Queiroz, Thierry Simões e Pedro Tropa, pintura de João Queiroz, escultura de António Bolota e Francisco Tropa, filme de Tomás Maia e André Maranha, fotografia de Teresa Santos, Marta Maranha. Diogo Saldanha, instalação de Pedro Morais, mais algumas colaborações. Ó. F.

2. José M. Rodrigues - Antologia Experimental
Évora. Palácio da Inquisição. Junho.

Surpreendente, provocadora e reveladora de um domínio técnico e conceptual exemplar, esta exposição confirmou um percurso único e de rara qualidade na fotografia contemporânea. Entre objectos, instalações e imagens, José Manuel Rodrigues demonstrou também saber dialogar com o espaço e a sua carga simbólica de forma avassaladora. L. S. O.

3. Putting fear in its place
De Alexandre Estrela
Lisboa. Chiado 8 -Arte Contemporânea. Julho

Em "Putting fear in its place", no Espaço Chiado 8, em Lisboa, o conceito do medo foi o ponto de partida para uma exposição que veio sublinhar o acontecer da experiência estética entre o corpo do espectador e a percepção das obras, entre as imagens em movimento e a sua projecção. E que reiterou, através de trabalhos em escultura e vídeo e de uma intervenção na arquitectura do local, a condição de Alexandre Estrela como um dos artistas mais singulares e relevantes da arte contemporânea portuguesa. J. M.

4. Le Passeur
Filipa César
Alcoitão. Ellipse. Setembro

O filme é suporte para trabalhar memória e realidade: toma como tema a resistência que um grupo de jovens levou a cabo na fronteira Norte do país, conduzindo ao exílio opositores do Estado Novo. Hoje, marcados pelos anos, os resistentes recordam, ao mesmo tempo que a imagem do rio que atravessaram permanece idêntica mas sabemos que é sempre diferente... A força da imagem, o pudor, a consciência e a tranquilidade da recordação do que não regressa. L.S.O.

5. Intersecções Intersectadas
David Goldblatt
Porto. Museu de Serralves. Outubro

A história e os tempos de um lugar, segundo Goldblatt. Ou fotografias novas e antigas, a preto e branco e a cores, sobre um país chamado África do Sul. "Intersecções Intersectadas" revelou um diálogo entre as imagens (da fotografia), sempre acompanhado de pequenos fantasmas e rumores (o "apartheid", a morte, o futuro). Uma exposição quase silenciosa de um dos nomes mais importantes da fotografi a contemporânea. J.M.

5. Luís Campos - Obras 1982-2008
Setembro
Cascais. Centro Cultural de Cascais
Sines. Centro de Artes de Sines
Ponte de Sor. Fundação António Prates
Lisboa. Governo Civil do Distrito de Lisboa
Luz. Museu da Luz
Elvas. Museu de Arte Contemporânea de Elvas

Luís Campos - "1982-2008. Fotografia e Vídeo" (Lisboa, Cascais, Sines, Ponte de Sor, Elvas, Aldeia da Luz). Seis lugares no Sul para revelar uma obra fundamental na arte portuguesa dos últimos 20 anos: Luís Campos, um artista que utiliza a fotografia como suporte para uma indagação da imagem do corpo de si e de outrem. A retrospectiva, que cobria 26 anos de actividade e foi comissariada por Luís Serpa, revelou pela primeira vez em simultâneo a coerência de um trabalho de excepcional clareza. Em espaços escolhidos pela sua capacidade cénica e expositiva - recorde-se, por exemplo, a instalação que esteve no Paiol de Elvas -, a visita da exposição obrigava também o espectador a um périplo geográfico que, como sempre acontece, era também uma viagem de auto-conhecimento. L.S.O.

5. Tesouros Submersos do Antigo Egipto
De Francisco Tropa
Lisboa. Chiado 8 - Arte Contemporânea. Largo do Chiado, 8 - Edifício Sede da Mundial-Confiança. Tel.: 213237335. Até 30/01. 2ª a 6ª das 12h às 20h

Pode dizer-se que este é mais um ano em cheio para Francisco Tropa (Lisboa, 1968). No Chiado 8, a mais recente das suas individuais, "Tesouros Submersos do Antigo Egipto", pode ser lida a partir de um procedimento usado pelo escritor Raymond Roussel para escrever os seus livros - basta mudar uma letra para a palavra se transfigurar. Dos materiais usados - madeira, areia, água, tecido, vidro, ouro e bronze - à disposição das esculturas no espaço, a exposição afirma uma forma de fazer concentrada, subtil, onde tudo serve para uma meditação permanente sobre a relação do humano com a natureza. Ali vêem-se e observam-se paisagens. Actos de magia. O.F.

8. A Intuição e a Estrutura - De Torres-García a Vieira da Silva, 1929-1949 Lisboa. Museu Colecção Berardo. Fevereiro

Eric Corne, o comissário desta exposição, conseguiu levar-nos a encarar de uma forma nova e diferente uma obra gigantesca como a de Maria Helena Vieira da Silva o é. Em "A Intuição e a Estrutura" coloca-a em paralelo com a de Torres-García, outro gigante, mas desta vez da arte uruguaia, que Vieira admirava mas nunca chegou a conhecer. Corne, fugindo das ideias feitas e dos axiomas da historiografia da arte moderna, destaca a intuição na obra de Vieira, os paralelismos com os seus contemporâneos e, até, as semelhanças com o expressionismo abstracto nova-iorquino - uma investigação exemplar, que produziu uma exposição também exemplar. L.S.O.

9. Earworm
De Ricardo Jacinto.
Lisboa. Culturgest. R. Arco do Cego, Ed. CGD. Maio

Em "Earworm", na Culturgest de Lisboa, Ricardo Jacinto actualizou e rearticulou vários momentos da sua produção artística, animando-os com a presença do espectador e novas experiências dos objectos e do espaço. Instalação, som e escultura fizeram desta exposição um organismo vivo, um complexo parque de diversões, sempre pronto a mobilizar a nossa percepção e conhecimento. Mas, sobretudo, possibilitaram o encontro com um vocabulário onde cabem a experimentação, o corpo e uma noção de comunidade e "teatro". J.M.

10. Monolith, Once Or Many
De Willem Oorebeek
Lisboa. Culturgest. R. Arco do Cego, Ed. CGD. Setembro

Uma beleza negativa, nocturna, negra, atravessava a exposição "Monolith, Once Or Many", de Willem Oorebeek (Pernis, 1953). O artista holandês propunha um permanente exercício de atenção. No limiar do visível, os seus "blackout" traduziam a necessidade de cancelar uma imagem - a "Torre de Babel", de Brueghel, por exemplo - velando-a com tinta preta, para que esta pudesse reafirmar a sua existência. Além desta série de litografias, a mostra incluía outros trabalhos, destacando-se a sala onde eram apresentadas as colaborações com outros autores, como Koenraad Dedobbeleer, Rita McBride, Joëlle Tuerlinckx, etc. O.F.

 

 

LIVROS
Escolhas de Eduardo Pitta, Francisco Luís Parreira, Helena Vasconcelos, Isabel Coutinho, José Manuel Fernandes, José Riço Direitinho, Luís Miguel Queirós, Manuel Gusmão, Margarida Santos Lopes, Mário Santos, Pedro Mexia

1. A Faca Não Corta o Fogo
Herberto Helder
Assírio & Alvim

Herberto Helder é decididamente um nosso "extremo contemporâneo", se com isto eu puder dizer que, na teia ou na rede da nossa contemporaneidade, ele é um dos "lugares" mais remotos e excêntricos. Em curto e grosso, ele é e não é nosso contemporâneo. Inactual e intempestivo, ele é a diferença e a intensidade de um sistema de relâmpagos que instaura a "heterogeneidade do contemporâneo" e por isso se liberta e nos liberta dos estereótipos da nossa época. Em Herberto, indagando-se sobre que paixão tem, responde-se: "os grandes animais selvagens extinguem-se na terra, /os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem/ homens e mulheres perdem a aura/ na usura/ na política/ no comércio,/ na indústria," (205). Será isto equivalente ao "desastre da beleza"? Seja como for, posso apontar para a beleza: aqui, em "A faca não corta o fogo", de Herberto Helder. "Ponham muito alto a música e que eu dance," -ponham muito alto a música, parem, escutem e olhem como ele dança. M. G.

2. O Homem sem Qualidades
Robert Musil
Dom Quixote

Se um romance for uma coisa com princípio meio e fim, talvez o "Homem Sem Qualidades" não seja um romance. Ou só o seja o primeiro dos dois volumes agora magistralmente traduzidos por João Barrento, já que, se não soubéssemos do resto, o livro poderia terminar aí sem causar excessiva perplexidade. Tal como existe, é uma das mais espantosa obras de, digamos, qualidades romanescas, que a literatura do século XX produziu. Musil trabalhou nela algumas duas décadas. Para a acabar, talvez não lhe tivessem chegado outras duas. L. M. Q.

3. O Romance de Genji
Murasaki Shikibu
Relógio d'Água

Escrito no início do século XI, o "Genji" é fruto de um mundo de coisas novas: a ética budista adoptada como prática de Estado, a vida cortesã, a elevação do Japonês a língua literária, a invenção do diário íntimo, a poesia como forma de comunhão vital, a aspiração à unidade da arte e da vida. São estas forças inéditas, no esplendor da sua primeira irrupção, que o milagre de Murasaki recolhe. Mas, sobretudo, a percepção de que a natureza e as paixões vivem em melancolia e é necessário resgatá-las à sua mudez. Este resgate tem um nome: chama-se literatura e foi obra das mulheres de Quioto. A fonte principal, porém, é o romance de Murasaki. Mil anos depois, o manancial corre ainda intacto. F. L. P.

4. Livro do Desassossego
Fernando Pessoa/Vicente Guedes/Bernardo Soares
(edição de Teresa Sobral Cunha)
Relógio D'Água

O "Livro do Desassossego" é, ele só, uma literatura. Uma das várias literaturas em que Pessoa se converteu. E por isso a publicação de uma nova tentativa de dar uma "forma" (ou seja uma aparência estável, uma estabilidade aparente) a um livro que nunca a teve nem nunca a terá devia ser notícia de primeira página. Teresa Sobral Cunha prossegue um trabalho iniciado há trinta anos e que já conheceu outras "formas". Um trabalho infinito. Como o "Livro". M. S.

4. Salónica-Cidade de Fantasmas, Cristãos, Muçulmanos e Judeus de 1430 a 1950
Mark Mazower
Pedra da Lua

É a "história da história" de um lugar que foi único na Europa e na humanidade.
É a prova de que a coexistência étnica, religiosa e linguística foi possível nos Balcãs. O diário britânico "The Independent" definiu este livro como "uma biografia escrita com alma e cor". Ninguém lhe ficará indiferente. M. S. L.

6. Caos Calmo
Sandro Veronesi
Edições ASA

Sandro Veronesi conseguiu montar uma delicada estrutura romanesca que lhe permite reflectir sobre morte, sofrimento, amor, sexo, memória, fidelidade e loucura. O caos calmo que subjaz à sociedade moderna vai desfilando diante do leitor, num lento catálogo de preocupações e de fantasmas do ser contemporâneo, à medida que várias personagens vão visitando o protagonista no carro que este estaciona diante da escola da filha. O feliz oximoro que titula este extraordinário romance, "caos calmo", resume de maneira brilhante o retrato vívido (geracional) da nossa contemporaneidade. J.R.D.

7. Myra
Maria Velho da Costa
Assírio & Alvim

Uma rapariga russa sem eira nem beira e um cão feroz e afinal dócil são as personagens principais deste romance pícaro e triste.
Construído em episódios fortes e com uma empatia nada sentimental pelos humilhados e ofendidos, Myra tem a marca Maria Velho da Costa: atenção obsessiva às linguagens, dos arcaísmos ao calão e aos estrangeirismos, numa fascinante teia literária. P. M.

8. Diário de Um Mau Ano
J. M. Coetzee
Dom Quixote

Coetzee escreveu "Diário de Um Mau Ano" como se fossem três narrativas autónomas. Um editor alemão pede a um escritor sul-africano que escreva sobre o mundo à sua volta.
Incapaz de fazer o trabalho sozinho, ele contrata Anya para o ajudar na transcrição de 55 ensaios breves sobre as origens do Estado moderno, a globalização, o terrorismo, a gripe das aves, o erotismo, o envelhecimento, a invasão do Iraque, a pedofilia, Tony Blair, etc. Coetzee dinamita os parâmetros da ficção clássica, e faz isso muito bem. E. P.

8. A Grande Guerra Pela Civilização
Robert Fisk
Edições 70

"A Grande Guerra pela Civilização A Conquista do Médio Oriente", do jornalista britânico Robert Fisk, merecia uma tradução em português mais cuidada. Não deixa, porém, de ser um livro extraordinário, que merece ser lido e discutido. Porque expõe e explica (com arrepiante detalhe) as sangrentas tragédias que afl igem o Médio Oriente. M.S.L.

8. O Jogo do Mundo
Julio Cortázar
Cavalo de Ferro

O título um tanto emproado (à revelia do original "Rayuela") e os vários "deslizes" que uma melhor revisão textual teria evitado não impedem que se considere ser este um dos "acontecimentos" do ano. Só espanta que só agora tenha sido publicado em português. O romance de Cortázar é também, à sua maneira "experimental" e lírica, um livro que é vários livros, um despertador de romances para leitores ousados. Um livro em estado de graça. M. S.

11. Contos Completos
Truman Capote
Sextante

Quando falamos de ficção americana, nunca esquecemos certos nomes. Truman Capote faz parte da primeira meia dúzia. Os seus contos, reunidos em 2004, estão agora em português. Estes "Contos Completos" traçam o quadro da uma vida entre a infância sulista (lembrando Eudora Welty e Carson McCullers) e a consagração nos círculos literários mais sofisticados de Manhattan. Mais do que o psicologismo do autor, a economia narrativa reforça o carácter instigante do retrato social. "A pechincha", por exemplo, devia ser de estudo obrigatório nos cursos de escrita criativa. Eduardo Pitta

12. Ela e Outras Mulheres
Rubem Fonseca
Campo das Letras

O brasileiro Rubem Fonseca foi polícia durante anos. Depois tornou-se escritor. Hoje é um dos maiores da língua portuguesa. "Ela e Outras Mulheres" colige 27 contos que levam no título nomes de mulheres. Cada história é um microcosmo particular em torno de obsessões precisas: amoralidade, sexo e violência. Fonseca dá voz à desumanidade, capta o som de ossos a quebrar como se isso fosse a coisa mais natural do mundo. Afinal, as pessoas comuns têm medos e fragilidades. Embora haja executivos e intelectuais, a maioria das personagens vem das classes desfavorecidas, com um código moral próprio: traficantes favelados que não matam pai ou mãe, beatos de padrão comportamental, mulheres humilhadas que matam os maridos, maridos traídos que matam as mulheres. Tudo muito machista (mulher é sempre vadia). O que o salva é a escrita superlativa. E. P

13. Odes
Horácio
Cotovia

"Aurea mediocritas" e "carpe diem" são algumas das imortais expressões cunhadas por Quintus Horatius Flaccus, um dos maiores poetas da Antiguidade Clássica. Protegido de Mecenas, Horácio gozou de favores monetários e oficiais, e escreveu uma obra poética diversificada, às vezes epicurista, glosando modelos gregos. As Odes (quatro volumes publicados entre 23 e 13 aC) incluem sátiras, elegias e poemas políticos. P. M.

13. A Seco
Augusten Burroughs
Bico de Pena

Augusten Burroughs especializou-se a contar a história da sua vida. Depois de "Correr com Tesouras", a parte da infância disfuncional, avançou para a idade adulta a reboque dos anos que viveu como criativo de sucesso. É sempre narrador e protagonista. "A Seco" é o relato de uma desintoxicação, no mundo vertiginoso da publicidade, e da comunidade gay de Nova Iorque, num registo que combina tragédia com o humor mais corrosivo. Doses homéricas de sarcasmo não impedem que a sua escrita tenha uma plasticidade capaz de nos levar das lágrimas ao riso. Absolutamente contagiante. E. P

13. O Jovem Estaline
Simon Sebag Montefiore
Aletheia

Como se transforma um seminarista da remota Geórgia num dos líderes da Revolução de Outubro, como é que um homem sedutor e culto, que escrevia razoável poesia, desenvolve  as características do monstro que gostava de planear um assassinato? Mais do que a história da ascensão política do jovem revolucionário nos anos que precederam a Revolução de Outubro, esta é a história de como um homem ressentido e fanático, que reduzia o mundo a princípios abstractos, se pode tornar num ditador monstruoso. José Manuel Fernandes

13. Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português
Vários autores
Coordenação de Fernando Cabral Martins
Caminho

Tem quase mil páginas, demorou dois anos a fazer e reúne mais de 80 especialistas da área da literatura e das artes visuais que são os autores das cerca de 600 entradas deste dicionário que ajudam a definir os traços culturais do tempo em que Pessoa viveu. Isabel Coutinho

17. A Feiticeira de Florença
Salman Rushdie
Dom Quixote

Com a pirotecnia magnificente da linguagem, Rushdie leva-nos aos sonhos e visões de muitos séculos, desde a magnificência das cidades italianas do Renascimento e dos feitos dos Médicis e dos Sforzas, às naus das Índias e ao naufrágio de Camões, do Al-Andaluz à Pérsia, numa infindável viagem de memórias exóticas e surreais, deixando, no entanto, o terrível aviso: "o espírito de vingança dos príncipes não tem fim" Helena Vasconcelos

17. Entre os Dois Palácios, O Palácio do Desejo, O Açucareiro
Naguib Mahfouz
Editora Civilização

 São os três volumes que compõem a "Trilogia do Cairo", obra-prima do escritor egípcio Naguib Mahfouz. Num total de 1200 páginas, um retrato simultaneamente luminoso e sombrio de uma família e de um país que lutam pela independência, individual e colectiva, sem abandonar as tradições. Não, não foi exagero comparar o único árabe Prémio Nobel da Literatura a Tolstoi, Flaubert ou Proust. M.S.L.

17. Correcção
Thomas Bernhard
Fim de Século.

Para o austríaco Thomas Bernhard escrever era como compor música com palavras, pois criava toda uma estrutura musical em que as sucessivas repetições de vocábulos e variações de expressões funcionam como temas e trechos. Este romance é um bom exemplo dessa "arte musical". Ler Bernhard é confrontarmo-nos com o magma da natureza humana em todas as suas dimensões. Com o absurdo e o cómico. Com o grotesco e o repugnante. Mas também com a ternura e a alegria simples que por vezes assoma de onde menos se espera. José Riço Direitinho

20. A Educação Sentimental
Gustave Flaubert
Relógio d'Agua

Foi o romance predilecto de Kafka; Proust leu-o como ninguém e a genealogia de "Em Busca do Tempo Perdido" tem nela talvez a sua raiz; foi para Eça de Queiroz o mesmo que o "Quixote" foi para Pierre Ménard: a medida compulsiva das suas aspirações. Já o próprio Flaubert chamou-lhe "o romance de uma geração (perversamente) e deve-lhe, mais do que a qualquer outra obra, a sua condição de mestre absoluto da Modernidade. F. L. P.

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