O Miliciano Morto de Robert Capa volta a ser um soldado desconhecido

Documentário estreado ontem em Espanha contesta a identificação feita por historiador do combatente republicano captado no instante da sua morte no primeiro ano da Guerra Civil

a Durante seis décadas, foi o herói desconhecido transformado em mito e símbolo dos combatentes republicanos e da resistência ao franquismo pela famosa Leica de Robert Capa (1913-1954). O Miliciano Morto é um dos mais conhecidos instantâneos da história da fotografia - é a morte em directo captada pelo fotógrafo húngaro no fatídico dia 5 de Setembro de 1936, no campo de batalha da vila andaluza de Cerro Muriano, perto de Córdova, no início da Guerra Civil de Espanha (1936-39).A fotografia transformou-se ela própria num ícone do fotojornalismo na sua expressão mais heróica, mais comprometida com o real. E, como tal, não podia escapar à polémica. A dada altura, discutiu-se se o instantâneo captava um acontecimento verdadeiro ou se tinha antes sido encenado pelo próprio Capa e pela sua companheira Gerda Taro (1910-1939), também repórter fotográfica a seguir a guerra pelo lado dos republicanos.
Em meados da década de 90, o facto de um historiador espanhol, Mário Brotons Jordá, ter supostamente identificado o miliciano morto em Cerro Muriano veio trazer um suplemento de autenticidade à foto de Capa. Tratar-se-ia de Federico Borrel García, ou "Taino", um anarquista que integrou a Federação Ibérica da Juventude Libertária e se juntou à Coluna Alcoiana para, nesse tarde de Setembro de 1936, defender essa força do ataque franquista.
Mário Brotons Jordá tinha-se apoiado em investigações e intuições pessoais, mas também em testemunhos de familiares descendentes de Taino, para fazer aquela identificação.
Agora, O Miliciano Morto volta a estar na ordem do dia - é o tema de um documentário cuja estreia comercial estava anunciada para ontem em várias cidades espanholas (Madrid, Barcelona, Valência e Alicante), depois de ter sido exibido em festivais de cinema. A Sombra do Iceberg - Uma autópsia da mítica fotografia de Robert Capa 'O Miliciano Morto' é o título do documentário, realizado por Hugo Doménech e Raul M. Riebenbauer, e que tem como programa a contestação da identificação fixada por Jordá.
"Às vezes, uma mentira começa a circular e é muito difícil detê-la. A nossa investigação exaustiva revela, a partir de declarações de editores gráficos, de estudos forenses e, sobretudo, de crónicas jornalísticas da época que Federico Borrell García não é o soldado da fotografia de Capa", disseram os autores do documentário ao jornal El País, a pretexto da estreia em Espanha. E acrescentam que o historiador que disse ter feito a identificação, e que entretanto já faleceu, terá admitido ter-se baseado apenas "em intuições pessoais" e nunca ter realizado uma verdadeira investigação documental.
O equivalente à Guernica
Hugo Doménech, professor de Fotografia da Universidade de Castellón, e Raul M. Riebenbauer, jornalista e argumentista, dizem ter corrido meia Espanha e meia Europa à procura da "verdade de uma fotografia que nos fascina a todos desde há anos", constatação que é válida, naturalmente, para a Espanha - há mesmo quem considere O Miliciano Morto o equivalente à Guernica de Picasso -, mas também para todo o mundo, que consagrou Robert Capa como um dos maiores foto-repórteres de sempre (uma exposição da sua obra está actualmente no Museu Barbican de Londres até 25 de Janeiro, 2009).
No genérico e na apresentação de A Sombra do Iceberg (já disponível no YouTube), vê-se que os autores não olharam a meios, técnicos, documentais e de investigação jornalística, para apurarem a verosimilhança da identificação. Consultaram e deram a analisar a especialistas de fotografia e a cientistas a dezena de chapas (positivos e negativos) com que Robert Capa registou aquele momento de combate em Cerro Muriano. E chegaram à conclusão de que o miliciano não podia ter sido Taino.
Um dos testemunhos convocados em defesa da sua tese é a crónica de uma revista anarquista da época, a Ruta Confederal, que numa edição no final de 1937 registava o testemunho de um amigo de Federico Borrel García que descrevia assim as circunstâncias da sua morte: "Vi-o estendido atrás da árvore que lhe servia de parapeito. Mesmo depois de morto, empunhava a sua espingarda..." Esta versão contradiz o que se pode ver na fotografia de Capa - Doménech e Riebenbauer chegam a admitir que ela possa ter sido feita por Gerda Taro -, segundo a qual Federico teria sido o único a tombar naquele instante de combate. Além de que a sequência das fotografias agora reanalisadas mostra um segundo combatente também tombado ao lado do primeiro.
Estas dúvidas e reservas não retiram nada do valor e do simbolismo histórico, nem da qualidade jornalística e mesmo estética desta obra. Assumidos admiradores de Capa e do seu contributo para o fotojornalismo do século XX, os autores de A Sombra do Iceberg, ainda segundo o El País, destacam a brilhante composição da imagem do miliciano, o seu dramatismo e o significado que ela adquiriu relativamente à tragédia que se abateu sobre o povo espanhol com a Guerra Civil. "Foi uma fotografia feita em defesa de ideais justos, como foi a causa da República espanhola", concluem Doménech e Riebenbauer.
Mas, a partir do seu documentário, tudo leva a crer que o combatente republicano de Robert Capa voltará a ser um herói, um soldado desconhecido.