Crítica

Abstracções para os sentidos

Pedro Diniz Reis apresenta, em duas galerias, vídeo, instalação e desenho. Para pensar a nossa relação com a linguagem, as cores, e os sons. E a abstracção.

É sempre um motivo de satisfação reencontrar o trabalho de artistas que, por várias razões, se mantêm relativamente distante dos espaços expositivos mais consagrados.

Falamos de Pedro Dinis Reis (Lisboa, 1972) que, dois anos depois, volta a expor individualmente, com o projecto "Grids", e logo em duas galerias: na Marz Galeria e, até amanhã, na Appleton Square .

O título ("grids") é desde logo introdutório, pois remete-nos para o conceito de "grelha", elemento comum a todas as peças. Aliás, as obras em causa (dois vídeos, uma instalação e uma série de desenhos) foram concebidas de acordo com uma grelha própria, ou seja, com uma lógica estruturante e construtiva. A abordagem de Pedro Diniz Reis, porém, não exclui o som ou a possibilidade de o espectador se relacionar com o que vê e experimenta, num jogo aberto às determinações da linguagem.

Veja-se, na Galeria Marz, o vídeo GR 352-2, construído a partir de "256 Colors", uma pintura de Gerhard Richter. Trata-se de uma tradução musical das 256 cores presentes na obra do pintor alemão - uma referência para Pedro Dinis Reis - em 256 acordes de três notas.

O artista recriou, primeiro, a grelha da pintura, analisou as suas cores e construiu uma correspondência entre os valores destas e os acordes musicais. No fim, "organizou" um concerto de 16 pianos, mas dirigido por cores, forças cromáticas, com diferentes momentos, e arriscarmos dizer, uma sequência que se oferece à nossa percepção visual e sonora.

É como se a grelha, a abstracção que designa "256 Colors", se manifestasse não apenas pela ordem que encerra (não há interactividade), mas também pela imaginação/ilusão que liberta (apela aos sentidos).

Já "TeraCity" sugere outro tipo de tensão. Nesta instalação composta por uma pequena torre feita de 10 discos rígidos (com 10. 000 gigabites), que funciona autonomamente, descobrimos um sistema fechado e em permanente equilíbrio. O título e a forma (os discos assemelham-se a paralelepípedos) permitem uma alusão à ideia de uma urbe e intuímos no seu interior a existência de actividade, assinalada pelas luzes e pelos ruídos que saem das colunas.

Não temos, todavia, acesso ao seu interior e se a sua autonomia assegura o seu funcionamento, não garante um sentido para sua evolução. Nesse sentido, é tentador pensar em TeráCity como uma metáfora para algumas das interrogações (políticas, científicas e sociais) da contemporaneidade, mesmo quando parece reportar a assuntos tão prosaicos como o uso quotidiano que fazemos da informação.

Finalmente, na Appleton Square encontramos, de novo, um trabalho que lida com estímulos puros: o vídeo "Alphabet" (Portuguese). Aqui Pedro Diniz Reis desconstrói, num processo operatório e em três momentos, os significados do alfabeto português (no seguimento de outras pesquisas realizadas desde 2005).

O resultado é, mais uma vez, uma abstracção, um delírio sensorial de significantes sem significados, de fonemas que ameaçam transformam-se em melodia, de rimos aleatórios. E uma das melhores obras das duas exposições.

Menos entusiasmante é a série de desenhos "Waveform Drawings", que provém de manipulação digital de imagens de um filme. Pedro Diniz Reis sublinha o efeito da tecnologia sobre o desenho, destituindo esta de qualquer gesto que não seja o de um fazer objectivo e predeterminado. Mas perante o resultado, talvez seja precisamente o contrário aquilo de que sentimos falta.

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