Berta Cabral A desejada inevitável

Berta Cabral, a única candidata das eleições directas no PSD-Açores, ganhou as eleições de terça-feira. Mas a primeira mulher a liderar um partido no arquipélago carrega o peso de ser o sexto líder em 12 anos

a O dia em que o presidente do PSD Açores, Carlos Costa Neves, se demitiu, 19 de Outubro, depois de os socialistas terem ganho em todas as ilhas do arquipélago, foi a hora H na história da vida de Berta Cabral. Era a terceira vez que a oportunidade de liderar o PSD lhe batia à porta, e ela decidiu agarrá-la. Passaram-se apenas dois meses. Berta Cabral, aos 56 anos, foi agora eleita por 98,5 por cento dos votos e é a primeira mulher a liderar um partido regional.Desde que Mota Amaral abandonou a liderança do arquipélago e dos sociais-democratas açorianos, em 1995, depois de 19 anos de governo, que um partido deambula à procura de outro líder forte. Álvaro Dâmaso, Carlos Costa Neves, Manuel Arruda e Victor Cruz foram-se sucedendo sem conseguir fazer mossa no executivo liderado por Carlos César.
Victor Cruz, o delfim de Mota Amaral, foi a excepção. Com ele acreditou-se que era possível romper com o ciclo de governação socialista. Por isso, José San-Bento, vereador socialista na Câmara Municipal de Ponta Delgada e o candidato do PS que disputou as últimas autárquicas com Berta Cabral, diz que já viu este filme: "Aquilo que parece ser um certo messianismo da nova líder do PSD é uma reedição do que os sociais-democratas viveram com o Victor Cruz que acabou por ter resultados catastróficos." Depois do mau desempenho nas legislativas regionais de 2004, o jovem líder abandonou a política para entrar na administração do grupo Bensaúde, a estrela no céu apagado da iniciativa privada regional, e num silêncio que se mantém até hoje.
"O Victor Cruz é de maior genialidade, mas é um indeciso e ela é uma decidida. Depois de ele se ter ido embora, a solução óbvia era a Berta Cabral. Ela era uma inevitabilidade. Só que ela estava em Ponta Delgada desde 2001", afirma Marcelo Rebelo de Sousa, que a pôs, pressionado pelos barrosistas, nos órgãos nacionais do partido.
A então líder da bancada PSD no parlamento açoriano entra para a Câmara Municipal de Ponta Delgada, o maior e mais apetecido concelho do arquipélago, em 2001. Uma vitória que Berta Cabral, a única mulher a figurar no mapa autárquico regional desse ano, disse na altura que era "saborosa". Quatro anos mais tarde, a capa do jornal Açoriano Oriental classifica a sua segunda vitória como "histórica". Teve 67 por cento dos votos e venceu em 21 das 24 freguesias do concelho, incluindo a Fajã de Baixo, que o PS governava havia 30 anos, precisamente na altura em que o presidente do governo regional figurava como membro da assembleia de freguesia na lista socialista candidata.
"Não tenho dúvidas de que Carlos César sabia que o seu adversário estava na Câmara Municipal de Ponta Delgada", conta Costa Neves. O homem que precipitou o avanço de Berta Cabral para a liderança do PSD quando bateu com a porta acha que "as pessoas pensam que só com ela é que isto muda". Percebeu-o quando, em campanha de rua para as regionais, acompanhado pela sua vice-presidente, era cumprimentado com cortesia, enquanto "ela era a estrela da companhia". Uma adesão popular que já fez mais do que uma vítima. "O Victor Cruz não conseguiu livrar-se da sombra dela dentro do partido. Faltou-lhe a capacidade para a sacudir", argumenta Natalino Viveiros, que há um ano foi o oponente de Costa Neves nas primeira eleições directas do PSD no arquipélago.
Berta Cabral responde à ideia de que sabotou os líderes de que foi o número dois com uma gargalhada. Afinal, não queria ser líder do PSD-Açores? Não tem desde há alguns anos a ambição de tirar o trono a Carlos César? "Não, nem nenhum dos cargos que ocupei fizeram parte de um sonho. Quando as coisas acontecem, eu visto a camisola."
Se nas autárquicas o PSD já mostrou ter bem seguro o maior município dos Açores, quando se fala de regionais a realidade inverte-se e passa a rosa. Nas legislativas de Outubro, não foi só Costa Neves que saiu derrotado. Berta Cabral era a cabeça de lista pelo círculo de Ponta Delgada, onde o partido perdeu em 22 das 24 freguesias: o pior resultado de sempre.
Quando o líder cumpre a tradição e abandona o partido na sequência da má prestação nas urnas, apesar de estar consciente de que era o D. Sebastião dos sociais-democratas, Berta Cabral não aceitou de imediato que havia chegado o seu momento. A decisão veio apenas uns dias depois, quando começou "a perceber que os militantes do PSD lhe exigiam isso". Nas noites que antecederam a apresentação da sua candidatura para as directas internas, a mulher que não sonha confessa que não conseguiu dormir bem.
Mãos à obra
Agora que as urnas já a confirmaram senhora do PSD nos Açores, chegará à Câmara Municipal de Ponta Delgada às nove da manhã, como em qualquer outro dia, e sairá depois das oito da noite carregada com trabalho de casa. Para ela, a câmara está acima de qualquer cargo partidário, mesmo o mais elevado.
"Eu sempre fiz questão de cumprir o meu compromisso com Ponta Delgada, cumprir três mandatos e cumprir este projecto de desenvolvimento. E foi por isso que não aceitei antes ser líder do PSD, para não disputar regionais antes de autárquicas", explica.
"Mãos à obra", o slogan da primeira candidatura à Câmara Municipal de Ponta Delgada, e também o da moção de estratégia que apresentará no congresso regional do PSD, em Janeiro, é, como explica, "uma atitude": "Há obra concretizada quase até perder de vista: acessibilidades, habitação, escolas, equipamentos sociais de apoio, equipamentos culturais."
Desde 2001 que "há uma aposta em tornar a cidade mais cosmopolita e isso fez-se através de infra-estruturas", reconhece Paulo Simões, o director do jornal Açoriano Oriental. A presidente da câmara recuperou o Coliseu Micaelense e criou uma empresa municipal de animação cultural. O jornalista vê que a cidade cresceu e melhorou em vários aspectos, mas salienta que também ganhou os problemas das grandes cidades (tem um terço dos habitantes da região autónoma): "Há bolsas de marginalidade complicadas a nascente e a poente onde há tráfico de droga e prostituição a céu aberto, todos sabem e ninguém faz nada."
Berta Cabral precisa dos próximos cinco anos para concluir o seu ciclo de desenvolvimento, afirmou na inauguração do novo parque de estacionamento subterrâneo na avenida marginal, no dia 7 de Dezembro. Minutos antes tinha anunciado a criação de um parque florestal de 200 mil hectares e apontado a construção da primeira central de camionagem como a próxima grande obra do município.
Dentro da câmara, José San-Bento é o homem do PS que se destaca por dar a cara contra as políticas de Berta Cabral, que para o ano termina o seu segundo mandato. O vereador assumiu como sua a tarefa de combater o "pragmatismo cego" da autarca que não vê o despovoamento do centro histórico, a crise do comércio local e a falta de equipamentos sociais. "Ela gosta muito de enquadrar as questões num plano muito técnico, dando a entender que não há alternativas." Apesar de tudo, para San-Bento, há espaço para o diálogo e há comunicação na equipa municipal.
"Isto funciona como uma orquestra, cada um sabe o que é que tem de fazer, mas há um maestro", diz Berta Cabral referindo-se ao trabalho dentro da câmara. Com dois filhos, acha que conseguiu sempre conciliar o trabalho com o papel de mãe. "[Mas] talvez eles sintam que posso não lhes ter dado a atenção devida em certos momentos." O marido, Leonel Cabral, que conheceu na faculdade, em Lisboa, mas que também nasceu em São Miguel, é empresário no ramo da construção civil e a única companhia em casa, agora que os filhos já são adultos.
Emigrante em Lisboa
"Ela nunca perdeu o ânimo, nem sequer quando enfrentou a morte nos olhos", conta Mota Amaral, recordando o cancro da mama com que Berta Cabral lutou em 1998, o ano do debate da Lei Regional das Finanças em que a então deputada do PSD participou de peruca. Não faltou às muitas reuniões e congressos nacionais, o que deixou o líder, Marcelo Rebelo de Sousa, "impressionado" com a sua combatividade. Ela não quer falar sobre o assunto. Até hoje, nunca o fez publicamente e não sabe se algum dia será capaz de o fazer. Acha que "estas situações não devem ser usadas nem para bem nem para mal" e explica que faltou sim a reuniões do partido, porque passou cinco meses nos Estados Unidos a fazer quimioterapia. Ter estado fora, "isso ainda foi pior do que tudo".
Já quando saiu de São Miguel, para tirar o curso de Finanças na Universidade Técnica, em Lisboa, diz que se sentiu "como uma emigrante". Ainda ficou na capital mais uns anos depois de concluir os estudos, mas nunca pensou ficar de vez. De volta à ilha natal, requisitada pelo Governo de Mota Amaral para a instalação dos Serviços Regionais de Produtos Agro-Pecuários, começou uma ascensão rápida pelos cargos mais importantes da administração local. Depois, a Sata Air Açores, que assegura os voos interilhas, e a Electricidade dos Açores (EDA), as duas maiores empresas regionais, tiveram-na como administradora antes da entrada tardia na política, com 40 anos.
"Ela não é um bicho do partido. Fez sempre o seu percurso à parte", resume Costa Neves. E ela confirma-o: "Não sou muito clubística." É só em 1992, com 40 anos, que passa a militante.
"Se a nível nacional era raro ver mulheres com esse protagonismo, nos Açores então era excepcional", sublinha Marcelo Rebelo de Sousa. Nas últimas autárquicas, Nélia Figueiredo ganhou a Câmara Municipal de Vila do Porto, na ilha de Santa Maria. No Pico, Sara Pereira também chegou à liderança do município das Lajes do Pico. Na cidade património mundial, na ilha Terceira, Andreia Cardoso não foi eleita, mas, por desistência, é agora a autarca de Angra do Heroísmo. Não, Berta Cabral já não é o único rosto feminino no mapa autárquico. Porém, a partir de hoje, é a primeira mulher a chegar à frente de um partido regional e, por consequência, a primeira a ter a possibilidade de vir a ser presidente do governo regional.
Com Carlos César fora do caminho, a tarefa está facilitada. Mas, com o Estatuto dos Açores ainda por aprovar, não é certo que o presidente do governo regional há 16 anos fique impossibilitado de se candidatar novamente. Berta Cabral argumenta que "a questão principal não é essa". "Para além disso, penso que Carlos César não se deverá recandidatar, porque ele próprio tem noção de que 16 anos no poder, no século XXI, é uma eternidade."
Encontrada a candidata do PSD às próximas regionais, em 2012, o maior desejo dos sociais-democratas é que seja agora o PS a preocupar-se com quem será o próximo líder.