Grandes bancos europeus assumem perdas de muitos milhões

Há vítimas portuguesas da fraude de Madoff

Os clientes do Santander Totta aplicaram cerca de 16 milhões de euros em fundos de Bernard Madoff
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Os clientes do Santander Totta aplicaram cerca de 16 milhões de euros em fundos de Bernard Madoff Nuno Guimarães (arquivo)
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No dia em que muitos bancos europeus assumiram perdas potenciais relacionadas com a fraude piramidal de Bernard L. Madoff, em Portugal só o Banco Santander Totta admitiu que, entre os seus clientes, há 16 milhões de euros aplicados nos fundos do ex-presidente da bolsa electrónica Nasdaq e até agora um dos homens mais respeitados de Wall Street.

Alguns bancos assumiram oficialmente não ter directa nem indirectamente envolvimento com os polémicos fundos - caso do BPI, BCP e Banif -, enquanto outros, como a Caixa Geral de Depósitos e o BES, não esclareceram, em tempo útil, o seu envolvimento. Os referidos instrumentos financeiros garantiam rentabilidades muito elevadas mas assentavam num esquema piramidal fraudulento, que poderá envolver perdas de 50 mil milhões de dólares (37,5 mil milhões de euros).

Até ao final do dia, o Banco de Portugal e a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários não informaram o mercado sobre a exposição dos fundos e das sociedades gestoras nacionais face aos produtos Madoff, limitando-se a declarar que estavam "a averiguar". Pelo contrário, em Espanha, vários bancos assumiram rapidamente a sua exposição, e o ministro da Economia e o presidente do Banco de Espanha declararam que o impacto "era limitado".

Em Portugal, no caso do Santander Totta, deverão estar em causa dezenas de clientes do private banking (gestão de fortunas), onde há uma maior apetência por investimentos de risco. O banco garante que directamente não tem exposição aos produtos Madoff, ao contrário do que acontece com a casa-mãe, em Espanha, que está entre os bancos com mais perdas, incluindo directas.

Ontem, a associação de defesa dos consumidores Deco ainda não tinha recebido qualquer pedido de informação sobre esta fraude, que assentava na oferta de altas rentabilidades, na ordem dos 10 por cento, e que se materializa através da subscrição de unidades de participação em fundos que, em termos teóricos, assegurariam o retorno financeiro através de aplicações em bolsa.

A forte ligação de Madoff ao mercado (ver perfil) deu-lhe credibilidade e o facto de se tratar de investimentos realizados através de hedges funds (fundos de alto risco), muito pouco regulamentados pelas autoridades, designadamente pela SEC - Securities Exchange Comission, permitiram a manutenção do negócio durante décadas, sem levantar suspeitas. Recentemente, a SEC investigou a operação de Madoff e não encontrou nenhum indício de irregularidades. Mas alegadamente nem sequer procurou saber quem detinha a custódia dos investimentos, pelo que está a ser acusada de negligência.

Furacão contra a confiança

Como em todos os esquemas piramidais (ver texto na página ao lado), as elevadas rentabilidades eram essencialmente pagas por novas entradas de clientes. A crise financeira desmontou o negócio, porque grandes clientes institucionais tentaram reaver as suas aplicações e as entradas de novos investidores diminuiu drasticamente. Agora, as possibilidades de os clientes serem reembolsados ou reaverem parte do dinheiro perdido são muito reduzidas. Os fundos geridos por Madoff não estavam associados a nenhum banco, pelo que nem sequer estavam garantidos pela FDIC - Federal Deposit Insurance Company (uma garantia governamental que paga parte do investimento perdido por motivos estranhos ao cliente bancário).

Tal com o crédito imobiliário de alto risco, o subprime, este escândalo volta a envolver grandes bancos, seguradoras e fundos de pensões (ver caixa), representando um novo abalo na já débil confiança no sistema financeiro. Ainda não são visíveis resgates indiscriminados de outros fundos de investimento, mas este tipo de notícias tem sempre um impacto negativo, o que poderá traduzir-se também em decisões de investimento futuro.

Também entre bancos aumenta a desconfiança, o que não ajuda à dinamização dos mercados monetários, que no caso da zona euro é onde se fixam as taxas Euribor, a que está associado o crédito à habitação. Não é de esperar um subida das taxas por este motivo (no caso da Euribor), mas o mercado está praticamente sem operações e estes casos não ajudam.

com Rita Siza e Anabela Peixoto