Nanni quis sentar-se e parar

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A Nanni - que passou a vida nos filmes a protestar - interessou-lhe, em "Caos Calmo", a ideia de alguém parar.

Nanni Moretti não gosta de psicanalisar os próprios filmes. "É um pouco embaraçoso ser o crítico dos meus filmes. Para mim já é um grande trabalho e um grande cansaço fazer os filmes, e depois ainda ter que fazer de intérprete de mim próprio..."

Estamos no seu escritório, na produtora que criou, a Sacher Filmes, num palacete no bairro romano de Trastevere. A entrevista agendada é para falar do novo filme com Moretti, "Caos Calmo", em que ele é actor sem ser realizador. Lá fora, Roma mergulha num caos que não tem nada de calmo. Na noite anterior aconteceram as piores chuvadas das últimas décadas, o trânsito está uma confusão e o rio Tibre ameaça transbordar e inundar a cidade.

Por tudo isso, o Ípsilon chegou ao palacete da Via della Piramide Cestia com dez minutos de atraso. Moretti aproveitou para ir à rua tomar café com Antonello Grimaldi, o realizador de "Caos Calmo". Sentamo-nos na fileira de quatro ou cinco cadeiras de cinema logo à entrada da produtora, em frente a um cartaz em que Ingrid Bergman evita o olhar de Cary Grant, em "Difamação", de Hitchcock. Mais à frente, encostada à parede do corredor, está, em tamanho grande, a célebre imagem de "Querido Diário", com Moretti, de costas, na Vespa com que percorria as ruas de uma Roma deserta no calor de Agosto.

Agora faz frio, e Moretti e Grimaldi acabam de entrar, cheios de sobretudos e cachecóis. Daí a pouco estamos já sentados no escritório, Moretti pede à assistente que lhe leve um chá, e tenta explicar o que lhe prendeu a atenção quando leu "Caos Calmo" de Sandro Veronesi, e o que o levou a pensar que gostaria de interpretar a personagem de Pietro Paladini.
"Vejo-o como uma história sobre a possibilidade de pararmos. Aquele pouco que se pode mudar na vida não se muda por um processo racional; muda-se porque acontecem coisas, muito dolorosas ou muito belas. E essas, às vezes, são ocasiões para se mudar um pouco, esse pouco que podemos mudar."

Pietro é Nanni?

No caso de Pietro, o que acontece é a morte inesperada da mulher. Algumas semanas depois, quando vai levar a filha à escola no primeiro dia de aulas, decide ficar à porta à espera dela. E continua a ficar, dia após dia, mês após mês. Deixa de ir trabalhar (a empresa em que trabalha prepara-se para uma megafusão e isso está a perturbar toda a gente), e passa os dias sentado no jardim em frente à escola, onde é visitado por amigos, familiares e colegas de trabalho que, perante a súbita disponibilidade dele, começam a desabafar todos os seus problemas, dramas e inquietações.

Parece um filme com muito em comum com "O Quarto do Filho" (2001), em que Moretti era um pai a tentar lutar com a dor da perda de um filho. Mas "Caos Calmo" é menos sobre o luto. Grimaldi concorda: "É verdade que em 'O Quarto do Filho' o luto é a questão central. No livro 'Caos Calmo', o luto, a espera pela dor, o medo de que esta não surja, estão mais presentes. O filme toca isso, mas é mais centrado na questão de termos a coragem de parar, de nos sentamos num banco e esperar para ver o que acontece. É uma coisa que a sociedade hoje não nos permite. Se paramos, somos marginalizados. Aqui quisemos dar uma mensagem aos espectadores, dizendo que não é bem assim, que às vezes parar é bom, faz-nos bem, ajuda-nos a reflectir e a mudar coisas na nossa vida que não estavam bem mas nós não nos apercebíamos disso porque estávamos demasiado ocupados a correr."

Grimaldi acaba por o explicar de forma mais escorreita que Moretti, mas este é, apesar de tudo, um projecto de Moretti, mesmo que ele não tenha querido realizá-lo. Foi ele quem quis adaptar a história ao cinema, foi ele quem adaptou o argumento. Voltemos às suas explicações. "Por motivos que em boa parte não sei explicar, pensei que me agradaria interpretar o protagonista. E por motivos que totalmente não sei explicar, pensei que queria ser o actor e pronto."

Já tínhamos avisado: Moretti não gosta de psicanalisar. Mas para quem não é Moretti parece evidente que a personagem de Pietro Paladini tem traços que nos habituámos a reconhecer como dele. As obsessões, o hábito de fazer listas mentais de coisas inúteis, como todas as companhias de aviação em que alguma vez viajou (quando esteve em Portugal, para a estreia de "O Caimão", dedicou-se a ordenar obsessivamente as entrevistas que tinha dado a partir de dois critérios: a qualidade e a simpatia dos jornalistas). "As listas eram uma coisa que já estava no livro", justifica-se Moretti. E mais não diz.

Quem ajuda, novamente, é Grimaldi. "Se ele decidiu interpretar o Pietro foi porque ao ler o livro achou que havia semelhanças entre ele e o personagem. As coisas que parecem semelhantes entre os dois já são assim no livro. O exemplo mais clássico é o das listas. As pessoas pensam: 'Isto é tipicamente Moretti, provavelmente foi introduzido por ele no argumento.' Mas não, já estava no livro. Era o livro que continha uma personagem muito semelhante a Moretti."

Nanni nunca dirá tanto. Concede apenas isto: "Talvez no início não me tivesse apercebido tanto... Quando vi o filme montado e terminado é que me dei conta de como ele dizia respeito a mim. E um pouco a todos nós." Em quê exactamente? "Na possibilidade de parar." E ele alguma vez parou? "Não, mas quando vi o filme apercebi-me de que essa era uma exigência minha. Só que não o posso fazer nos próximos dois ou três anos." E se um dia puder, será capaz? Faz longa pausa, lança a cabeça para trás, passa as mãos pelo cabelo. "Bem... não gosto de viver no campo, e normalmente essas coisas fazem-se no campo. Eu gosto da cidade, e aí é um pouco mais difícil." Nova pausa. "Mas penso que seria capaz. Sim, acho que seria capaz."

Cada vez mais calmo

Tudo começou, portanto, com o livro de Veronesi, mas quando Moretti pegou nele para o transformar no guião para um filme a história ficou mais morettiana. "Concentrámo-nos quase exclusivamente na personagem de Pietro Paladini", explica Grimaldi. "No livro havia muitas personagens e factos secundários, muito ao estilo de Veronesi, e era difícil transpor isso para o filme". Mas há também uma subtil mudança em Pietro - no filme é bastante menos cínico do que no livro. "Isso tem a ver com Nanni", responde Grimaldi. "Sendo o actor, é natural que tenha adaptado um pouco a personagem a ele."

Isto não significa, contudo, sublinha o realizador, que esta seja mais uma versão de Moretti, na sequência de Michele Apicella, que foi o seu alter-ego nos primeiros filmes, e depois dele próprio, nos mais autobiográficos, como "Querido Diário" ou "Abril". "Dizer isso seria diminuir o seu trabalho como actor. Há aqui um trabalho com a personagem, no qual ele faz coisas que nunca tinha feito noutros filmes."
Mas não esperarão os espectadores de Nanni vê-lo sempre ser ele próprio, um pouco como acontece com Woody Allen? "Isso é um problema deles", responde Moretti, com uma gargalhada. "Eu conto uma história. Não me coloco o problema das expectativas do público, nem do público em geral nem do que se supõe que seja o público dos meus filmes. Em 'O Caimão' até fiz de Berlusconi, provavelmente muitos não esperavam isso."

Que existe um estilo morettiano, reconhecível, parece inegável. Mas é também verdade que Moretti tem vindo a mudar, desde os tempos de Michele Apicella até o Pietro Paladini de "Caos Calmo". "Bom, os anos foram passando. Talvez, a pouco e pouco, se possa ir mudando. Se as personagens dos meus filmes mudaram é porque mudei como pessoa. Não me apetece, nos meus filmes, repetir até ao infinito as relações que existiam entre a minha personagem e as outras personagens."
Talvez uma pista para perceber isso seja uma declaração que fez numa entrevista que deu em 1994 a Jean A. Gili, a propósito da diferença entre "Querido Diário" e os seus filmes anteriores: "Já não tenho vontade de gritar contra os outros. [...] talvez tenha compreendido que os outros são como decidem ser e não como eu desejo que sejam. [...] É uma coisa que tem a ver comigo como pessoa, uma pequena mudança. Como argumentista, já não me apetece escrever e pensar diálogos que depois tenho que dizer gritando contra os meus amigos."

E, assim, Moretti foi mudando. Em "O Quarto do Filho", por exemplo, aparece mais calmo no papel de um psicanalista que, antes da morte do filho, escuta com infinita paciência (apesar de algum aborrecimento) os relatos das manias dos seus doentes. "É verdade", responde, mergulhando várias vezes o saquinho de chá dentro da chávena. "Nesse filme a minha personagem é menos intolerante. Se tivesse interpretado um psicanalista vinte anos antes teria sido uma personagem mais intolerante, muito mais rígido."

Provavelmente, a personagem que interpreta em "Caos Calmo" faz todo o sentido nesta evolução - é o homem que ouve mais do que fala, que está parado mas com quem os outros vêm ter, e que se vai tornando um pilar, referência moral, para um conjunto de outras personagens em descalabro emocional.

Perguntamos-lhe se reconhece que existe um estilo morettiano. A resposta é mais uma vez em fuga. "Eu fiz poucos filmes. Como realizador fiz dez. Por agora podem ser considerados dez capítulos de um único romance. No futuro não sei. Aquilo que vale para os primeiros trinta anos de trabalho não sei se valerá também para o futuro. Eu costumava dizer: 'Quero fazer sempre o mesmo filme, possivelmente sempre mais belo.' A segunda parte da frase continua a ser válida, quanto à primeira já não sei. Não sei se quero continuar a fazer sempre o mesmo filme. Como realizador, gostaria de mudar."

Desta vez arriscou fazer um filme como actor sem o realizar. Uma situação complicada para Grimaldi? "Eu e o produtor pensávamos que fosse mais complicado", confessa o realizador. "Nanni é Nanni, sabe-se que tem uma personalidade forte. Mas tendo ele optado por ser apenas o actor, correu tudo muito bem. Estava muito contente. Todos os dias chegava às filmagens dizendo que era uma coisa maravilhosa, porque não tinha a ansiedade da realização nem a preocupação de saber se estávamos a gastar dinheiro a mais." Empenhado no seu papel, "nunca quis interferir", garante Grimaldi.

No carro com Polanski

E, no entanto, um filme com Moretti é sempre um filme dominado por Moretti. O realizador decidiu assumir isso, colocando-o em todas as cenas. Mas não resistiu a uma pequena provocação. Uma das muitas pessoas que vêm à praça em frente da escola falar com Pietro é Steiner, um poderoso capitalista que está envolvido na fusão que a empresa televisiva de Pietro está a realizar com outra empresa. Para o papel, Grimaldi quis alguém "muito carismático, que pusesse em embaraço não só Pietro como o próprio Nanni". E Steiner é Roman Polanski.

Vemos então Polanski e Moretti, num carro, filmados ao longe, a conversar um com o outro. Vemo-los, mas não os ouvimos. De que conversaram, afinal? Moretti pensa um segundo e responde: "Dos nossos filhos. Falámos do facto de tanto o filho dele como o meu desenharem." E prova disso, pelo menos em relação a Pietro Moretti, que conhecemos recém-nascido em "Abril", são os desenhos na parede do escritório do pai, uma sucessão de super-heróis. "Ah, isso era quando ele tinha cinco ou seis anos", diz Moretti. "Era o período do Zorro, Batman, SuperHomem, Guerra das Estrelas. Agora tem 12 anos e desenha jogadores de futebol."

O nascimento do filho aconteceu numa fase em que a vida de Moretti se misturava com os filmes, criando nos espectadores a impressão de ser alguém que todos conhecemos já bem, cujas manias e obsessões nos são familiares. Mas, ao mesmo tempo, Moretti é reservado. Até que ponto a "persona" que criou nos filmes é ele próprio? "A autobiografia pode ser um modo de nos escondermos", admite. "Nos meus filmes tem sempre acontecido que quando começo a escrever parto de mim, dos meus medos, esperanças, alegrias, frustrações ou desilusões. Depois, durante a escrita do guião, a personagem adquire a sua autonomia."

Desiludam-se, portanto, os que acham que sabem alguma coisa sobre Moretti. "Há tantas coisas que guardo para mim. Os meus filmes são invenção, ficção. Não são documentários sobre mim filmados 24 sobre 24 horas. Dou a cara e a voz a personagens que têm coisas em comum comigo, mas muitas que não o são." De resto, tem uma relação ambígua com a exposição pública. "Tenho ao mesmo tempo o desejo de aparecer, de contar um pouco do meu mundo, mas também o desejo de estar sozinho com as minhas coisas."

Voluntariamente ou não, os filmes, por um lado, e a participação política, por outro, fizeram dele uma figura nacional. E aqui entra uma história que dominou tudo o que se escreveu sobre "Caos Calmo": há no filme (e também no livro) uma cena de sexo na qual a personagem de Pietro Paladini sodomiza uma mulher. Não é uma violação, é uma relação consentida, mas a cena foi criticada pelo responsável pelo departamento da juventude da Conferência Episcopal Italiana, Don Nicolo Anselmi, que a considerou um momento "de erotismo vulgar e destrutivo", em que os dois fazem amor "em pé, vestidos, e sem olharem um para o outro".
A cena, que não é diferente de muitas outras que se vêem no cinema, não chocou só o Vaticano. Alguns admiradores de Moretti mostraram-se incomodados. E o incómodo tem a ver com o facto de ser Moretti a interpretá-la. "Sem dúvida que sim", concorda Grimaldi. "A posição da Igreja até é coerente, dado que sempre defendeu que o sexo deve ter como objectivo a procriação. Mas houve outras pessoas que se escandalizaram, e isso tem a ver com o facto de, em Itália, Moretti ser visto como símbolo de ética e de moral. Se fosse qualquer outro actor não teria havido todo este escândalo."

Moretti faz um pequeno gesto de impaciência quando ouve falar da polémica. "Isso é uma coisa muito italiana, esqueça. A Itália é um país... para os europeus incompreensível. Aparentemente alguns vêem em mim uma figura paterna, mas, caramba, os pais também fazem amor. Talvez pensassem que eu era uma espécie de entidade abstracta, mas descobriram que não era assim. Ficaram muito agitados por ser eu a fazer essa cena, mas isso é um problema deles, não é meu. Eu fi-la sem embaraço".

Uma capa incómoda

E, de repente - será para mudar de conversa? -, faz uma daquelas coisas que diríamos serem morettianas. "Desculpe, podemos interromper um minuto?" Pega no telefone, marca um número e explica: "Estou a telefonar para o cinema. Estou sempre a ligar para lá", como se estivesse a recuperar o seu próprio papel na curta "O Dia de Estreia de Close-up", em que se filma, ansioso, no dia em que o filme de Abbas Kiarostami se estreia no seu cinema em Roma, o Novo Sacher. Agora, nessa pequena sala de cinema cheia de fotos a preto-e-branco de filmes antigos, com um barzinho e uma minilivraria que vende também DVD e velhas "T-shirts" com Moretti numa horrível barba, no filme "Sogni d'Oro" (1981), dizendo: "Sou um monstro, mas amo-te" (com um desconto de 50 por cento), está um filme francês, "Stella", de Sylvie Verheyde. Moretti quer saber como está tudo, depois de ter conseguido que o filme fosse reclassificado e deixasse de ser para maiores de 14 anos.

Desliga o telefone e prepara-se para retomar a conversa, mas há mais alguma coisa que o incomoda. "Desculpe, importa-se de virar a capa do livro para baixo?" A fotografia, que o mostra sentado num banco de jardim, na capa da edição portuguesa de "Caos Calmo", não lhe agrada por algum motivo. Virado o livro, explica que acaba de deixar a direcção do Festival de Turim (lembra-se então que na última edição esteve um filme português, "Entre os Dedos", de Tiago Guedes e Frederico Serra, e que ganhou um prémio) para se dedicar ao novo filme que vai realizar e que pretende estrear em 2010. Ainda está na fase da escrita do guião (com os dois colaboradores com quem já trabalhou em "O Caimão") e por enquanto ainda não pode contar nada.

Será um filme político? "Não directamente. É um pouco estranho, porque eu era, até há poucos anos, considerado um realizador de histórias muito pessoais, alguns diziam mesmo demasiado pessoais. Depois, como houve um período de envolvimento político durante cerca de dois anos, e porque uma parte de 'O Caimão' tem a ver com política, de repente sou considerado um realizador político, apesar de na grande maioria dos meus filmes a política não estar directamente presente. Mas, enfim, este não será um filme político. Será um filme caro."

Despedimo-nos. Na porta do escritório está colada uma imagem de "Caos Calmo" em que aparece sentado no mesmo banco de jardim, mas desta vez de costas. Será (agora podemos psicanalisar, porque ele já fechou a porta) um recado para aqueles que esperam que Moretti seja sempre o mesmo Moretti e que cada filme seja um novo capítulo do mesmo romance?

Por baixo da fotografia está uma frase de Pietro Paladini: "Não estou sempre aqui sentado. Movo-me."

 


O Ípsilon viajou a convite da Midas Filmes