Mário Dionísio, a obra continua viva

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Não será apenas um local de consulta do espólio de um dos importantes intelectuais do século XX português. O Centro Mário Dionísio, cuja abertura acontece no próximo ano, em Lisboa, pretende também ser um espaço de aprendizagens e de encontro. Amigos, familiares, antigos alunos, escritores, pintores e professores reuniram-se para fundar um lugar que vai lutar contra o esquecimento da vida e da obra do homem que foi "mestre".

Mário Dionísio ( Lisboa, 16/07/1916 - 17/11/1993) não acreditava na posteridade. Quando morreu, aos 77 anos, não houve flores nem velório nem discursos - apenas a cremação. Após a sua morte, a presença da sua obra na vida cultural, cívica e política do país quase desapareceu. É também para lutar contra esta ausência e contra o esquecimento que vai nascer, na Baixa lisboeta, o Centro Mário Dionísio (CMD) - lugar que não servirá apenas para reunir o vasto espólio do escritor, poeta, crítico, pintor, pedagogo e professor. Será também um "local de aprendizagens", explica Eduarda Dionísio, filha de Mário Dionísio.

O edifício que irá acolher o CMD, também denominado Casa da Achada (situa-se no Largo da Achada, a alguns passos da rua da Madalena), foi já adquirido pela família do escritor, faltando ainda fazer obras no interior, um projecto que está a ser feito pelo arquitecto Raul Hestnes Ferreira, amigo de Mário Dionísio.

O próximo passo é a reunião dos quase 60 sócios fundadores, agendada para o próximo dia 29, seguindo-se a constituição formal da associação, que será dirigida, pelo menos nos primeiros dois anos, por Eduarda Dionísio. Na lista de nomes que decidiram juntar-se para a fundação do CMD encontram-se amigos e familiares de Dionísio, escritores, professores, antigos alunos - Luís Miguel Cintra, Francisco Louçã, Jorge Silva Melo, Manuel Gusmão, Maria João Brilhante, Regina Guimarães, Rui Mário Gonçalves, Urbano Tavares Rodrigues e Vítor Silva Tavares, entre outros.

Eduarda Dionísio, também escritora, prevê que a abertura do CMD aconteça daqui a um ano, quando o centro já estiver dotado de todas as valências necessárias ao seu funcionamento. Contudo, o conceito do futuro centro foi já delineado: será, simultaneamente, um espaço de arquivo e conservação, um lugar de consulta e pesquisa e um local de encontro, para aqueles que acreditam que a obra e que as questões suscitadas pelo intelectual ainda estão "na ordem do dia", explica Eduarda Dionísio.

Pouco depois da morte de Mário Dionísio, o Centro de Documentação 25 de Abril realizou uma primeira inventariação do espólio (colocada numa base de dados), mas muito ficou por catalogar e Eduarda Dionísio continuou a fazer esse trabalho, que ainda não está concluído. O CMD reunirá todo o espólio do escritor (mesmo os documentos sob reserva), que abrange diversas áreas: o acervo literário é composto por originais de Dionísio e de outros autores, correspondência, recortes de imprensa e exemplares de jornais e revistas; o espólio artístico apresenta originais do pintor e de outros artistas, materiais de exposições, fotografias, reproduções dos seus quadros e documentos diversos; o arquivo pessoal possui dossiers de correspondências (também pertencentes à mulher, Maria Letícia Clemente da Silva), documentação sobre as actividades públicas de Dionísio e da mulher, informação biográfica, fotografias e objectos pessoais; na bibliografia (activa e passiva) há livros e publicações periódicas de Dionísio e da Maria Letícia; e, finalmente, alguns milhares de volumes compõem a biblioteca.

Enquanto se aguarda a abertura do CMD, o P2 recorda a vida e a obra de um dos intelectuais mais influentes na história cultural, política e cívica do século XX português.

Contra as teses "oficiais" do Neo-Realismo

Ele nunca concordou com a designação de Neo-Realismo, que apontava ser uma "infeliz inspiração de momento" de Joaquim Namorado. Dionísio foi (e continua a ser) considerado por muitos como o grande teórico do movimento neorealista em Portugal.

É verdade que participou da sua criação, "antes do amanhecer", juntamente com Namorado, Alves Redol, Fernando Namora, Manuel da Fonseca e Carlos de Oliveira, entre outros. Mas sempre lamentou as "confusões intencionais, involuntárias, talvez inevitáveis" em torno do movimento, escreveu na sua "Autobiografia" (edições "O Jornal", 1987). Não só discordava da denominação dada por Namorado, como também afirmava que o Neo-Realismo "não era nem poderia ser uma outra maneira de, por razões de censura, dizer 'realismo socialista'".

Para Dionísio, a corrente artística "deveria ser a expressão estética duma visão marxista do mundo", sendo "a voz de uma classe em ascensão, de um mundo (um homem) necessariamente novo, que, como tal, teria de integrar toda a herança do passado, incluindo a da classe a que se opunha".

O autor acreditava ter dotado (através da poesia, da ficção, do ensaio, da crítica) o Neo-Realismo de uma outra dimensão - contribuição que lhe valeu um rasto de incompreensão, bastante notado na recepção ao seu livro "O Dia Cinzento e outros contos" (1ª edição em 1944). Numa crítica às teses "oficiais" do movimento, escreveu que, do seu ponto de vista, não existiam apenas camponeses e operários "Havia a sociedade inteira (...). Havia, nomeadamente, a pequena-burguesia a que todos pertencíamos, que conhecíamos de dentro e que tinha (teria), quanto a mim, um papel importante na situação política portuguesa. Não inventada, mas observada e pessoalmente vivida, a pequena-burguesia permitiria trazer a nossa ficção para a cidade.

Foi o que fiz em quase todo "O Dia Cinzento e outros contos". Por isso terá sido tão mal compreendido quando apareceu. Mas a actividade clandestina está lá, na cidade."

Para o "amadurecimento" desta leitura do Neo-Realismo, Dionísio escreveu artigos, crónicas, deu palestras. Mas, tal como ele próprio afirmou, foi a obra A Paleta e o Mundo (inicialmente publicada em fascículos, em 56, e depois editada em dois volumes, em 62, ano em que ganhou o Grande Prémio de Ensaio da Sociedade Portuguesa de Autores) que esclareceu as suas teorias, convertendo-se num factor "decisivo" da chamada "polémica do Neo-Realismo".

"Amor louco" pela escrita e pela pintura

Filho único, órfão de pai aos 11 anos e de mãe aos 17 anos, Mário Dionísio deve a dois professores (Arnaldo Mendes e Luís Câmara Reis) a descoberta da leitura e da escrita, quando ainda frequentava o ensino liceal (primeiro no Camões e depois no Gil Vicente).

Durante esses anos lançou-se em vários projectos criou a revista Prisma (só saiu um número); publicou "dois livrecos", um de poemas e outro de contos que decidiu expurgar da sua bibliografia; fundou e dirigiu o semanário Gleba; e entrou para a redacção do semanário Liberdade (no mesmo dia em que entrou também Álvaro Cunhal), onde escrevia Bento de Jesus Caraça, seu amigo. Dionísio começou por publicar os seus poemas aos 21 anos, no quinzenário Sol Nascente alguns deles acabaram por ser incluídos no futuro livro Poemas. E um ano depois estreou-se na crítica literária na revista juvenil O Diabo. A partir dos últimos anos da década de 30, o escritor deu início a uma intensa produção literária e crítica.

Estava ainda a estudar Filologia Românica, na Faculdade de Letras de Lisboa, quando foi convidado para colaborar na Seara Nova (a convite de António Sérgio) e na Altitude. E foi nesses tempos da universidade que se iniciou nas lides políticas, conta o poeta em Autobiografia.

Em 1940, ano em que concluiu a sua licenciatura, casou com uma colega da faculdade, Maria Letícia Clemente da Silva, e no ano seguinte viu o seu primeiro livro de poesia, Poemas, ser publicado na colecção literária coimbrã Novo Cancioneiro, propulsora do Neo-Realismo português.

Em Fevereiro de 1942 lançou na Seara Nova as famosas Fichas - textos de crítica que traduziam as teses de uma corrente estética e literária que almejava "uma nova visão do Homem e uma transformação do Homem e do mundo". Este momento coincidiu com a sua descoberta da pintura - um percurso que começou pelo figurativo e que teve uma inflexão em 1963, quando Dionísio enveredou pelo expressionismo abstracto.

Ao longo de várias décadas, esta sua faceta manteve-se na clandestinidade: Mário Dionísio só se revelou como pintor aos 73 anos, numa exposição individual. Em 1947 participou, sob o pseudónimo de José Alfredo Chaves, na II Exposição Geral de Artes Plásticas, mas o quadro que apresentou foi apreendido pela PIDE.

O "amor louco" que sentia pela escrita era igual àquele que nutria pela pintura. Mas se muito pintou, também muito destruiu.

"Se muito tenho pintado (.), quanto tenho destruído? Quase tudo. (.) Quando não se chega ao que se quer (alguma vez se chega ao que se quer?), agarrar num pano bem embebido em aguarrás e esfregar, esfregar até raspar, que alívio e que libertação!", contou na Autobiografia. Entre as obras que destruiu encontravam-se naturezas mortas, cenas de interior, "corticeiros fazendo 'quadros'". "Quanto daria para vê-los agora. Ainda que fosse para destrui-los outra vez", escreveu em 1987.

A voz aos pequeno-burgueses da cidade

A publicação de "O Dia Cinzento e outros contos", em 1944, pela Coimbra Editora (Dionísio é o autor do desenho da capa da 1ª edição, assinando com o pseudónimo Leandro Gil) assinala a sua estreia na ficção e dá ao Neo-Realismo outros protagonistas. Aqui é a pequena-burguesia da cidade que tem voz, e não os camponeses e os operários.

Em 45, foi publicado o seu segundo livro de poemas, "As Solicitações e Emboscadas", a que se seguiu, em 50, "O Riso Dissonante". O trabalho de Dionísio completava-se ainda com a pintura, conferências, crítica, escrita de prefácios para diversas obras (entre as quais Casa na Duna, de Carlos de Oliveira, "O Anjo Ancorado", de José Cardoso Pires, e "O Mundo dos Outros", de José Gomes Ferreira) e publicação de ensaios.

Em 65, continuou a editar os seus poemas ("Memórias dum Pintor Desconhecido") e, um ano depois, reuniu quase toda a sua obra poética no livro "Poesia Incompleta". Na sua bibliografia poética há um título, porém, sobre o qual pouco se escreveu - tratase de "Le Feu Qui Dort", escrito em francês, e editado em 1967, com um guache de Vieira da Silva. Dois anos depois, Dionísio publicou o seu primeiro (e único) romance, "Não Há Morte nem Princípio". Sobre este livro (e não só) escreveu Alexandre Pinheiro Torres na revista "Colóquio Letras" (edição de Julho de 1986, por ocasião do 70º aniversário de Mário Dionísio): "Livro de muita sapiência, a sua projecção está longe de corresponder à estatura que o define e o singulariza no panorama da nossa ficção. Como aliás toda a restante obra do Autor em relação à literatura portuguesa."

No decénio de 80, surgiram mais três livros da sua autoria: "Terceira Idade" (1982), livro de poemas que ganhou, ex-aequo com Alexandre O'Neill, o Prémio de Poesia do Centro Português da Associação Internacional dos Críticos Literários; e "Monólogos a Duas Vozes" (1986) e "A Morte é Para os Outros" (1988), volumes de contos.

A ruptura com o PCP...

Mário Dionísio abandonou o Partido Comunista Português (PCP) em 1952, na sequência da sua colaboração com o jornal cultural "Ler". Mas alguns anos antes, outros acontecimentos faziam adivinhar este desfecho.

Nomeadamente a polémica que irrompeu na revista "Vértice" e que, travada no interior do núcleo dos intelectuais comunistas, opôs os fiéis à ortodoxia imposta pelo partido e aqueles que contestavam certas opções estéticas e mesmo políticas. Dionísio integrava este último grupo, juntamente com João José Cochofel, estando ambos na redacção de Lisboa da revista. A controvérsia pautou-se por vários episódios - o mais turbulento foi a acirrada troca de argumentos entre António José Saraiva, de um lado, e Dionísio, Cochofel e Fernando Lopes-Graça, do outro.

Dionísio nunca quis ser promovido no "mundo subterrâneo", lê-se na "Autobiografia". "Eu não era, nunca fora nem seria um político. Era apenas um artista (...) que circunstâncias históricas precisas obrigavam a actuar politicamente", escreveu. Por isso, assumiu um papel preponderante quando, a partir de 1945, garantiu a ligação entre o PCP e a Comissão de Escritores, Jornalistas e Artistas Democráticos do MUD (Movimento de Unidade Democrática), onde coordenava várias secções.

No livro editado em 87 e em várias entrevistas a jornais, o escritor escusou-se a explicar detalhadamente a sua saída do PCP. "Caíra, enfim, no burguesíssimo orgulho de querer ver mais e melhor do que a direcção duma organização que pensava 'por milhões de cérebros'", escreveu em "Autobiografia". Mais à frente, alude a Cochofel e a Lopes-Graça, os seus amigos que, tal como ele, acreditavam que a intervenção dos artistas devia incidir sobretudo no campo cultural.

O historiador José Pacheco Pereira revela, no 3º volume da biografia de Álvaro Cunhal ("Uma biografia política"), os acontecimentos que precederam a expulsão de Dionísio do PCP, em 1952, sublinhando que nesse ano deu-se "a maior purga de intelectuais comunistas ocorrida na história do partido".

A chamada "gota-de-água" aconteceu quando o crítico começou a colaborar com o "Ler", dirigido por Fernando Piteira Santos, e escrevia artigos que eram interpretados pelo partido como manifestações de desobediência (o mesmo aconteceu aos textos de Carlos de Oliveira e de Lopes-Graça). A cúpula comunista decidiu demonstrar a sua incomodidade através "pressões directas" sobre os colaboradores comunistas do "Ler", nota Pacheco Pereira. Assim, em Maio de 52, Dionísio recebeu uma carta, assinada por Manuel Campos Lima, responsável pelo sector intelectual de Lisboa, onde era directamente questionado sobre os seus actos de desobediência. Sem demora, o escritor respondeu, também numa missiva, que deixaria de fazer parte do partido, uma vez que não estava disposto a deixar de "pôr a cultura ao serviço da luta do povo português".

Um mês depois, a direcção do PCP enviou-lhe uma segunda carta, reiterando o conteúdo da primeira. E em Novembro, a expulsão tornou-se oficial através de uma carta remetida pela Direcção da Organização Regional de Lisboa. Veja-se o tom crispado das palavras: "A grave atitude de disciplina que tomaste, que revelou igualmente ausência completa de vigilância partidária, obrigou-nos a afastar-te do Partido, a expulsar-te das nossas fileiras. Esta decisão é a única que se coaduna com a defesa dos interesses do Partido e do nosso povo. Ela é também a melhor ajuda para te fazer compreender a gravidade da atitude que tomaste e o caminho errado que estás seguindo".

... e as consequentes calúnias

Expulso do partido, Dionísio quis passar a ter estatuto de "simpatizante". Mas quando o verbalizou, um "amigo" disse-lhe "nunca mais farás nada". Admitiu o ensaísta que demorou algum tempo a entender que a frase traduzia, de facto, uma ameaça. E confirmou isso mesmo quando, já em 53, deu uma série de oito conferências na Faculdade de Ciências de Lisboa.

Tal como aconteceu com outros comunistas expulsos do PCP, também Dionísio foi ostracizado e alvo de calúnias. Uma delas, conta na sua "Autobiografia", tomou corpo numa das conferências acima citadas: enquanto o escritor falava, alguém entre o público que enchia a sala disse para a pessoa ao seu lado "um tipo bestial. É pena como se portou quando esteve preso. Meteu muita gente dentro". Ora, Mário Dionísio nunca estivera preso. Mas a falsidade já corria de boca em boca. "A verdade é que nenhuma organização tem culpa dos seus doentes nem até dos seus períodos de crise, sobretudo com dirigentes importantes na cadeia. O que não obsta a que a bola de neve comece a tentar formar-se."

Um dos dirigentes presos era Álvaro Cunhal, que, em 53, foi transferido do Estabelecimento Prisional de Lisboa para o Forte de Peniche. Cunhal havia sido amigo de Dionísio, que conheceu por intermédio do seu pai, Avelino Cunhal, escritor e pintor e companheiro do autor de O Dia Cinzento nas tardes de Domingo em que ambos fabricavam as suas próprias tintas.

A amizade com Cunhal tornou-se mais profunda nos "anos difíceis" (1940/43) em que o escritor recuperava de uma hemoptise (chegou a estar internado no Sanatório do Caramulo) e necessitava de repouso absoluto. Durante esses anos de convalescença recebia em sua casa a visita de três amigos: Cunhal, Huertas Lobo e António Augusto de Oliveira. Com o dirigente do PCP falava de arte, sobretudo pintura, de museus, de artistas. "Mandámos fazer seis grades a um carpinteiro meu conhecido, três para cada um, para esticar nelas telas, para pintar. Tê-las-á usado?", recorda na "Autobiografia".

Abandonou o caminho, mas não a doutrina

Os métodos do PCP não surtiram efeitos junto de Mário Dionísio, notou Pacheco Pereira. O crítico não deixou de escrever artigos considerados polémicos. E em "A Paleta e o Mundo" argumentou a sua discordância com as teses sobre a "criação estética" e sobre a "função social da arte". Entre as reacções à obra, Dionísio destacou na sua Autobiografia as "objecções" suscitadas pelos comunistas Óscar Lopes e Mário Sacramento, que aproveitaram para escrever que o autor de "A Paleta e o Mundo" havia mudado de doutrina e abandonara o "caminho comum". Quanto ao caminho isso foi evidente, escreveu Dionísio, "mas lá quanto à doutrina...".

Muitos anos volvidos sobre a sua expulsão do partido, já no pós-25 de Abril, Dionísio recebeu propostas do PCP para rever o seu "caso". Ele declinou sempre.

As actividades políticas, se assim se podem designar, de Mário Dionísio ganharam novo fôlego após a Revolução dos Cravos.

Ainda em 1974, foi convidado por Vitorino Magalhães Godinho, então ministro da Educação, para integrar a Comissão de Saneamento do Ministério da Educação. Contudo, quando se apercebeu de que "os abutres estavam lá, na sombra ainda" e de que "lutava contra moinhos, contra o vento" apresentou a sua demissão. Aliás, no pós-25 de Abril recusou, pelo menos duas vezes, assumir a pasta de ministro da Educação.

Até 1976 presidiu à Comissão Coordenadora dos Textos de Apoio; e teve uma breve passagem pela direcção de programas da RTP (Dezembro de 75 a Março de 76), onde descobriu uma "cabeça perigosa" que também pensava "por milhões de cérebros". Numa entrevista ao "Jornal de Letras", em Maio de 1982, explicou que esse período correspondeu a meses de "intenso trabalho atrás de uma ilusão".

Mário Dionísio dera aulas no ensino técnico, no particular e no secundário. Mas somente após o 25 de Abril pôde leccionar no ensino universitário, onde as suas qualidades singulares de pedagogo obtiveram um justo reconhecimento. Jacinto do Prado Coelho e Luís Lindley Cintra foram os professores que mais se bateram para que Dionísio entrasse nesta instituição universitária. Em 1978 o escritor foi destacado para a regência da cadeira "Técnica de Expressão do Português" (foi uma inspiração para muitos dos seus alunos, que ainda hoje recordam as suas aulas) e oito anos depois deu a sua última lição - a 5 de Março de 1986, o anfiteatro I da Faculdade de Letras foi pequeno para a enchente de pessoas que queriam ouvir Dionísio dissertar sobre "Língua, Linguística e Técnicas de Expressão".

Quinze anos volvidos sobre a sua morte, Mário Dionísio continua a ser recordado como um "mestre" (Urbano Tavares Rodrigues e Alexandre Pinheiro Torres) que ensinou a ler ( Jorge Silva Melo) e a viver (Luís Miguel Cintra).

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