Crítica

Uma Antígona que nos deixa baralhados

A inesperada dramaturgia de Armando Nascimento Rosa apresenta-se como uma bela surpresa

Num momento em que os espectáculos de teatro aparecem cada vez mais formatados e acondicionados aos padrões do gosto internacional; num momento em que já pouco distingue uma estreia em Madrid de uma em Bruxelas, a inesperada dramaturgia de Armando Nascimento Rosa apresenta-se como uma bela surpresa.

A singularidade do seu imaginário é tal que vai sendo cada vez mais difícil categorizá-lo: sonata cénica e xamânica, comédia de horrores, mitodrama fantasmático, fábula gnóstica, drama virtual; enfim. São textos marcados essencialmente por um humor corrosivo, por uma dimensão distópica do mundo e por um arrojado ímpeto fársico.

Tudo isto emoldurado por um pendor filosofante e por uma legível crença no valor comunicativo da palavra. Em suma, são textos que provocam uma enorme estranheza. À sua mesa anatómica têm vindo parar diversos materiais: desde motivos históricos (O Eunuco de Inês de Castro), religiosos (Maria de Magdala), literários (Lianor no País sem Pilhas, Audição - Com Daisy ao Vivo no Odre Marítimo, Cabaret de Ofélia) ou mitológicos (Um Édipo, A última lição de Hipatia); passando ainda pela becketiana distopia futurista de O Túnel dos Ratos.

Dando continuidade à sua agenda de revisitação (transformação? mutilação? mistura?) dos mitos clássicos, Antígona Gelada surge no seguimento de Um Édipo, onde já o autor desarrumava violentamente o mito edipiano.

Aqui, sob o signo de uma desenfreada imaginação à solta, Nascimento Rosa desloca a narrativa clássica para Tebas 9, "uma colónia espacial remota situada em Caronte, satélite que orbita em torno de Plutão". Desta vez, o acto seminal de desobediência civil de Antígona é situado num futuro incerto e espacial, havendo lugar a clones, análises de DNA, assessores de imagem, hibernações gélidas, etc.

Os lugares da tragédia são atravessados por um imaginário de ficção científica onde a primeira referência intertextual será Phillip K. Dick (com efeito, o texto assumese como uma discreta homenagem ao autor de Blade Runner, no ano em que faria 80 anos). Sara Machado da Graça polariza este imaginário futurista de uma maneira absolutamente brilhante.

O seu cenário e (sobretudo) os figurinos são poderosíssimos, causando desde o momento inicial do espectáculo uma sensação de estranheza que não mais se dissipará. Desde os olhos do cego Tirésias ao fato de Antígona, passando pelas asas de cortiça de um Crísipo mutante, tudo é tratado com uma coerência impressionante, convocando os universos da mais feérica BD ou da mais tecnológica Sci-Fi: cabeleiras roxas, caras pintadas, joelheiras desportivas, comandos de Playstation, panos e metal...

A encenação de João Mota descobre o equilíbrio justo entre todos estes referentes. Assim, ao fundo da sala surge um enorme muro (que vai fazendo as vezes de skéne) frequentemente colorido ou iluminado a néon.

Os actores, enquanto esperam a entrada em cena, estão sentados ao lado do espaço cénico, à vista dos espectadores. Sem muitos adereços ou mutações de cena, toda a dinâmica reside em eficazes movimentações.

Os actores emprestam vivacidade às figuras, assentando o seu trabalho na rapidez de execução, destacando-se, porém, o trabalho de Maria Marrafa, que assegura grande intensidade nos diferentes registos que a sua personagem habita. Jogando com a simplicidade da farsa, com o sopro trágico, mas também com o lúdico e o subversivo, Antígona gelada deixa-nos não gelados, mas sim vibrantemente baralhados. E isso é bom.