“Eastwood é um homem pacífico. Mas tem um reservatório de raiva”

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A história da placidez com que uma violenta ambição se cumpriu. Conta-a, em entrevista, o biógrafo Richard Schickel.

O biógrafo diz isto dele: "É um homem pacífico, reservado, delicioso. Agora, se acho que ele tem um reservatório de raiva? Acho que tem."
O biógrafo é Richard Schickel, que foi crítico da "Life", depois da "Time", e escreveu livros sobre D. W. Griffith, James Cagney, Marlon Brando ou Cary Grant - o seu "habitat" é a memória do cinema clássico. O biografado é Clint Eastwood. Conheceram-se em meados da década de 70 e 20 anos depois, em plena consagração de Eastwood com "Imperdoável" (1992), Schickel atirou-se à tarefa de escrever uma biografia. A essas 500 páginas, "Clint Eastwood" (1996, Knopf), regressamos na altura em que a Cinemateca Portuguesa, em Lisboa, programa uma retrospectiva da obra do actor/realizador (desde ontem e até 12 de Março). É integral, e por ordem cronológica, no que respeita aos filmes do cineasta; é significativa no que respeita aos filmes como actor, e com alinhamento que não segue a cronologia. É todo um programa o pós-título desta retrospectiva, "Um Homem com Passado". É que o "passado" da "persona" de Eastwood começou por ser qualquer coisa de enigmático.

Quando, depois de se arrastar sem esperança na TV americana do início dos anos 1950, aceitou o desafio de vir à Europa filmar a "Trilogia dos Dólares" com que Sergio Leone fazia a sua versão do "western" americano - o "western spaghetti" -, apareceu no horizonte o mito puro: um "homem sem nome", anjo vingador, a um tempo irónico e justiceiro.
Hoje, 40 anos depois, quando Eastwood é aclamado como ícone, não volta a ser ele figura sem passado? O que se passou entre um momento e outro?

Haverá uma geração menos familiarizada com a forma como essa "persona" se desenvolveu desde os anos 1960, anos em que ele foi emanação das pulsões de violência de um tempo, até aos anos 1980, década em que foi aclamado como "autor". Entre uma era e outra, houve uma turbulenta construção, houve choques estéticos e ideológicos, tudo longe da unanimidade - o auge da crispação, mas a essência da "persona" Eastwood está aí, foi "Dirty" Harry, o polícia sem paciência para as instituições que Clint interpretou para o realizador Don Siegel e que daria origem a uma série de filmes.
Por isso, apostaríamos, ao longo dos próximos meses as revelações vão estar do lado dos filmes de/com Eastwood dos anos 70. Para acompanhar essa viagem regressámos a "Clint Eastwood" e falámos ao telefone com Schiekel.

O Clint dele começa por ser uma figura à deriva: filho da Depressão, quando chegou a Hollywood os seus heróis, James Cagney, William Wellman ou Hawks, estavam a acabar. O seu corpo nada tinha a ver com a neurose e a sede dos Brando, James Dean e Montgomery Clift que galvanizavam esses tempos. Nem com a limpeza bem comportada de Rock Hudson. Dessa inadequação, em pleno conformismo dos anos 50, iria Clint armazenar a raiva que explodiria no deserto de Almeria, em Espanha, onde Leone sonhava violentamente com o "western".
Schickel encontra um fio no percurso de Eastwood: o de uma placidez, coisa silenciosa, com que uma violenta ambição se cumpriu. É o fio desta entrevista.

Comparando a forma como a obra, e a presença cinematográfica, de Clint Eastwood foram recebidas até à década de 80 e depois da década de 80 até hoje - simplificando: de "fascista" passou a "o último dos clássicos" -, a pergunta é: ele mudou ou nós é que mudámos?

Eu diria as duas coisas.
Sobre Clint digo sempre que de todos os jovens actores que apareceram em programas de televisão nos anos 60 ele era aquele que menos prometia grande carreira. Era um tipo atraente, é verdade, mas Rawhide [série da CBS, um "western", em que Eastwood participou, entre 1959-1965] não era uma série particularmente excitante - era um programa sólido, mediano. Isto para dizer que Clint era, basicamente, um "working actor". Ninguém diria que havia nele um potencial de "leading man".
Mas depois houve o seu improvável renascimento através do "western spaghetti", que não foi recebido de forma entusiasta nos Estados Unidos. Teve efeito na Europa, não nos Estados Unidos, o que é uma injustiça, porque são grandes filmes. Os filmes de Sergio Leone ["Por Um Punhado de Dólares", 1964; "Por Mais Alguns Dólares", 1965; "O Bom, o Mau, o Vilão", 1966] redifiniram a quietude mortífera de uma personagem que era muito interessante e misteriosa.

Quem foi responsável pela definição dessa personagem mítica que ficou conhecida como Homem Sem Nome  - na verdade até tinha nome em todos os filmes, no primeiro deles chamava-se Joe - e dessa quietude mortífera: Clint ou Leone?

Eu diria Clint. Esses filmes mostraram logo a força silenciosa da sua ambição.
Ninguém reparou muito nisso, é verdade, que nos primeiros filmes que ele fez havia já mais do que se pensava que ele tinha. "Hang'em High" (Ted Post, 1968) não era um grande "statement" cinematográfico, mas havia ali já qualquer coisa importante, visceral na história de um homem que escapa a um linchamento e regressa para perseguir os homens que o acusaram erradamente. E a verdade é que quando fez "Dirty Harry"/ "A Fúria da Razão" (Don Siegel, 1971) já era uma estrela emergente. De tal maneira, que passou a ter "carta branca" na Warner Bros. para os projectos que quisesse, e os filmes em que participava passaram a ser mais importantes - ele próprio já disse que "The Outlaw Josey Wales"/ "O Rebelde do Kansas" (Eastwood, 1976) para ele é tão bom como "Imperdoável" (1992).
Mas diria que o filme que, nos Estados Unidos, fez mudar a percepção sobre a relevância de Clint terá sido "Tightrope"/"Na Corda Bamba" [Richard Tuggle, 1984]: as pessoas davam-se conta, num filme que era basicamente um filme de género, que havia no seu centro uma personagem - um detective de Nova Orleães que persegue um "serial killer" - em apuros, com problemas de ordem sexual, uma personagem com falhas. As pessoas terão pensado: "Talvez este Clint seja afinal mais complexo do que aquilo que pensávamos."
Conheci Clint depois de ele ter feito "The Outlaw Josey Wales". Achei logo que ele era infinitamente mais interessante do que as pessoas pensavam ou diziam que era. Ele "vestia" a sua seriedade de forma digna, mas com enorme sentido de auto-ironia. Não é um tipo pretensioso. O que ele tem é um maravilhoso instinto para encontrar material interessante. E tudo isso ancorado numa enorme frugalidade.

Na biografia que escreveu sobre Clint, a figura que tenta encontrar trabalho como actor, nos anos 1950/1960, é errática. Como se se deixasse conduzir ao sabor dos acontecimentos. Até que explode, renasce, com fúria nos "westerns spaghetti" de Leone. Como se o conformismo dos anos 50 acumulasse em Eastwood uma raiva que encontrou forma de ser extravasada...

Conheço Clint, somos amigos, só posso dizer que ele é um homem pacífico, reservado, delicioso. Agora, se acho que ele tem um reservatório de raiva? Acho que sim. E vi isso durante umas filmagens. Ele não tolera que as pessoas estraguem as coisas. Espera sempre que as pessoas sejam adultas. Isso não estava a acontecer numa determinada rodagem, e foi um momento muito desagradável. E como ele levanta a voz!
Mas, tendo dito isso, posso especular que talvez tivesse sido um tipo mais zangado com o mundo no passado do que agora. Ele encontrou formas de suprimir essa raiva. Fá-la desaparecer. Na verdade, hoje não precisa de a mostrar: as pessoas respeitam-no. Por exemplo, a Warner não queria produzir "Mystic River" [2003] e "Million Dolar Baby" [2004]. Ele ficou furioso. Mas seguiu em frente e arranjou dinheiro noutro lado, ou seja, ele arranja sempre maneira de ser racional. Mas nada de confundir a amabilidade de Clint com ausência de voluntarismo...
Veja-se o novo filme dele, "Gran Torino" [2008]. Interpreta um velhote muito enraivecido, um tipo desagradável. Ao longo do filme, essa personagem vai trabalhar, digamos assim, a sua raiva interior para se tornar um tipo tolerável. Penso que foi sempre isso que ele fez, quer em "Dirty Harry" ou em "Bronco Billy"/ "Bronco Billy, o Aventureiro" (Eastwood, 1980). Esses filmes dizem algo do seu gosto em exibir a sua raiva "em público": como se trata de cinema, pode trazer isso à superfície e sair-se bem com a coisa, continuar a viver. E nós, espectadores, deliciados com isso.

A propósito dessa disponibilidade de Eastwood para se meter em apuros e se confrontar, há quem encontre nele sinais de masoquismo. Conhece aquela fotografia que Annie Leibovitz tirou, em 1980...

... em que Clint aparece todo amarrado...

... a um poste de cenário de "western", cordas à volta dos braços, do tronco e das pernas, e com algum prazer, prazer em meter-se em apuros. Essa imagem chegou a ser utilizada na capa de um ensaio sobre a sexualidade masculina. Há quem pegue nela para juntar à tese que defende masoquismo na "persona" de Eastwood...

Não acho que haja masoquismo. Conheço-o razoavelmente bem. Haverá, talvez, nos argumentos dos seus filmes...

Era disso que falava, da "persona"...

Mas é sempre isso o que acontece, quando se fala de cinema de acção; a personagem chega sempre a um beco sem saída, coloca-se sempre em apuros.

Falou em "Tightrope" como o ponto de viragem, na América, da percepção pública e crítica de Eastwood. Na Europa isso talvez tenha acontecido com "Bird"/ "Bird, Fim de Um Sonho" (Eastwood, 1988)...

Um filme que, ele sabia, não ia ser grande em termos de bilheteira - quem é que iria querer ver um filme deprimente sobre um problemático músico de jazz, Charlie Parker? Ele sabia, mas convenceu a Warner que no futuro o estúdio ia ficar orgulhoso de ter no seu catálogo um filme assim. E a verdade é que a frugalidade de Clint é sempre uma coisa óptima para o estúdio. Todos sabem que ele não vai fazer os estúdios perder dinheiro - mesmo com uma bizarrice como "Honky Tonk Man"/ "A Última Canção" (Eastwood, 1982). E agora que a sua carreira vai de vento em popa, o bom samaritano acaba por fazer os estúdios ganharem algum dinheiro. Ninguém ficou a perder.

Nos anos 1970, "Dirty Harry" foi o auge de uma polémica sobre o carácter "fascizante" da persona de Eastwood. Houve uma guerra santa, liderada pela crítica Pauline Kael (1919-2001), que considerava Eastwood um dinossauro e "Dirty Harry" um exemplar de "fascismo medieval"...

Olhe, diria o seguinte: Clint é um conservador... mas só se falarmos de crença em orçamentos equilibrados. Até posso admitir que ele tenha votado mais vezes republicano do que democrata. Mas em termos sociais é um liberal. Quando se trata de questões como o aborto, a liberdade de expressão, o porte de armas... Clint é um liberal. Aqui há uns anos, Sean Penn, um actor de quem ele muito gosta, meteu-se em apuros por causa de declarações sobre a presença americana no Iraque, e a imprensa caiu-lhe em cima. Clint lançou um comunicado pessoal a lembrar que estávamos na América, país que celebra a liberdade de opinião. Não tinha que o fazer, mas fê-lo.

Voltando a "Dirty Harry": o que é que esse filme tinha que o fez ser uma emanação das mais profundas frustrações da América dos anos 1970, da sua "maioria silenciosa"?

Em primeiro lugar devo dizer que acho "Dirty Harry" um filme profundamente antifascista. Quem é que era fascista ali, fascista e imobilista? Não era a personagem de Harry Callahan, era toda a polícia de São Francisco que não deixava Harry perseguir o "serial killer" [Scorpio], que tinha raptado uma criança, com o argumento de que se devia pagar o resgate e que se devia respeitar os direitos do assassino. O que Harry representou foi a ira populista contra o imobilismo das instituições daquele tempo.
Por falar em Pauline Kael... ela era uma mulher horrível. Ela achou que Clint era um novo John Wayne, o representante de um novo conservadorismo. Foi uma identificação errada, e hoje, quando lemos os textos que ela escreveu nessa altura - devido a motivos profissionais tenho que reler esses textos -, damo-nos conta do quanto ela errou na maior parte das vezes.

Masoquismo ou não masoquismo, a verdade é que a obra de Clint é dos mais impressionantes confrontos de alguém com o seu próprio corpo. Está logo na sua primeira realização, "Play Misty for Me"/ "Delírio nas Trevas" (1971), em que ele interpreta um Dj que é objecto da obsessão de uma mulher. Logo aí Clint dizia ao que vinha, expondo o corpo, a sua sexualidade, às tesouradas de uma fã... À medida que foi envelhecendo, esse confronto tornou-se mais desapiedado, mais auto-irónico, mais impressionante...

É admirável a forma como ele vive a velhice. Ele tem 78 anos - eu tenho 75, somos da mesma geração. Com o seu sucesso dos últimos anos, com os Óscares e as nomeações, as pessoas consideram-no o "grande artista americano", tem estatuto icónico. Isso é uma coisa que o satisfaz, claro, mas não é coisa que use em proveito próprio. No outro dia jantámos, como fazemos várias vezes. Ele guia o seu carro, é ele que o estaciona à porta do restaurante - faz questão de não utilizar os serviços do restaurante para estacionar -, espera pela sua vez na fila para ter mesa. As suas conversas denotam um sentido de observação do mundo que o rodeia, mas nada nele tem a ver com o tipo de vida de uma estrela de primeira grandeza.

O que é que o levou a escolher este cineasta e actor como tema de análise biográfica? E tendo-o feito numa altura em que já era amigo de Eastwood, isso não toldou a análise?

Depois de "Imperdoável", que para mim é um dos três grandes "westerns" do cinema americano, pareceu-me ser o "timing" indicado para trabalhar nessa biografia. E na altura já tinha alguma intimidade com ele. Quando se escreve um livro assim, sobre alguém de quem somos amigos, estamos influenciados: gostamos daquela pessoa. Mas, por outro lado, se escrevemos uma daquelas "biografias não autorizadas", estamos condicionados de outra forma: estamos dependentes da informação em segunda mão. Ou seja, um livro destes nunca pode ser objectivo, nem quando se está próximo do objecto, nem quando se está distante. Em ambos os casos podemos partir para a coisa com uma série de preconceitos.

Deste enorme corpo de trabalho que vai ser apresentado na retrospectiva, entre filmes do realizador Eastwood e filmes do actor Eastwood, que destacaria?

Penso o melhor possível de "Imperdoável" e de "Mystic River". E, claro, gosto muito de "Dirty Harry". E depois há aqueles objectos excêntricos como "Bronco Billy". E admiro profundamente o que há de poético em "The Outlaw Josey Wales".
É um realizador muito consistente, Clint. Claro que fez um filme como "The Rookie"/ "The Rookie, Um Profissional em Perigo" (1990), que não tem razões para existir, mas mesmo um falhanço como "White Hunter, Black Heart" / "Caçador Branco, Coração Negro" (1990) é muito interessante. Clint não é o tipo mais articulado para exprimir pensamentos abstractos, mas tem pontos de vista morais, mesmo que seja muito silencioso sobre eles. Falou em masoquismo: eu diria que a obsessão dos seus filmes é a autodestruição, o que leva alguém, mesmo alguém dotado, a cair na autodestruição. Isso interessa-o muito, é qualquer coisa de intrínseco à sua natureza...

No sentido da sua própria vertigem de autodestruição?

Ele não a sente, mas está muito consciente da existência dessa vertigem, no meio que o rodeia, o cinema. Ele espanta-se sempre pela forma como as drogas consomem os actores com quem trabalha - e não vou referir nomes. Isso é um enigma para ele. Porque é que as pessoas fazem isso? Isso está em "Honky Tonk Man" - porque é que um tipo se destrói assim? É isso que gosto de encontrar nele: uma preocupação instintiva pelo que há de enigmático no comportamento autodestrutivo.
Como disse, conheço-o desde a altura em que ele filmou "The Outlaw Josey Wales" e posso dizer que há aspectos na sua natureza que compreendo. Ele nunca fala abstractamente das coisas: percebe-se que há algo que o interessa, quando mostra isso nos argumentos dos filmes. Ele é um homem essencialmente positivo, mas sim, interessa-se por problemas psicológicos - já os seus interesses ideológicos são raros; tem opiniões, mas elas não aparecem no ecrã.
As pessoas que são fáceis de entender não são muito interessantes. Sabe-se o que nelas vão dizer. Com Clint nunca se sabe. Mas posso dizer sobre ele que o seu lema é que desde que o nosso comportamento não prejudique ninguém, os julgamentos devem ser suspensos. A sua filosofia é: vive e deixa viver. É um homem generosíssimo. E alguém que, quando se compromete com alguma coisa, cumpre-a custe o que custar.

Já viu "Gran Torino", o último filme de Eastwood, o filme que vai encerrar o ciclo. Algumas críticas americanas apontam para uma revisitação à personagem de Dirty Harry. Confirma?

É curioso, sim, confirmo. As pessoas sempre insistiram com Clint: "Faça outro 'Dirty' Harry'." Ele sempre respondeu: "O que é que Dirty Harry faria com a minha idade? Seria idiota." De facto, pode-se imaginar que a personagem de "Gran Torino" é uma actualização de Harry. É um reformado, um rabugento, como Harry seria aos 78 anos. Depois da primeira metade do filme, há um "twist", o velho rabugento e racista faz a coisa certa, que foi o que Clint sempre fez na sua carreira.