Robert Fisk lançou em Lisboa "A Grande Guerra pela Civilização"

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Rui Gaudêncio

O mais famoso repórter britânico no Médio Oriente falou da cobardia e ignorância dos jornalistas ocidentais.

Dificilmente um jornalista que vai para a guerra poderá levar no bolso o livro de Robert Fisk. É mais prático transportar um telefone de satélite e um computador portátil para aceder à Internet em qualquer lugar. Com as suas 1230 páginas, A Grande Guerra pela Civilização (Edições 70), é demasiado pesado para ser usado no terreno. Por cobardia, os repórteres gostam de andar leves. Por pura cobardia, disse o provocador Fisk, ontem, na apresentação do seu livro, no auditório da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. "Um jornalista deve trazer sempre um livro de História no bolso, para além do bloco de notas." Porque o que se está a passar hoje no Iraque ou no Afeganistão já aconteceu no passado.

O auditório não estava cheio, e vieram mais estudantes de Jornalismo do que jornalistas ouvir o britânico Robert Fisk, lenda vida do jornalismo de guerra do Médio Oriente. "Os jornalistas têm muito medo de serem criticados", continuou o jovial Fisk. Não querem ser controversos, usam os conceitos e a linguagem das instâncias do poder. Dizem "a vedação", ou a "barreira de segurança", em vez de dizerem "o muro". "Des-semantizam" as coisas, são medrosos e hipócritas.

"Nunca usem a Internet", aconselhou o velho Fisk, e ninguém tem a certeza de ele estar a falar a sério. "Se as pessoas lerem tudo na Internet, deixarão de comprar os jornais, que deixarão de ter dinheiro para pagar a enviados especiais como eu." É essa a explicação. Informação fácil redundará em nãoinformação. É difícil compreender o mundo. É difícil ser lúcido. É difícil ser justo. É preciso esforço, é preciso pagar o preço.

Jornalismo equilibrado

"Quem, entre os presentes, sabe o nome de um iraquiano morto no conflito?", pergunta o rezingão Fisk. "Quem? Digam lá!" E logo a seguir fala do jornalismo "objectivo" e "neutral", "sem preconceitos". Do jornalismo equilibrado. "Devemos ser neutrais e sem preconceitos do lado dos que sofrem." Dá exemplos, tirados dos seus livros de História: "Se estivéssemos a cobrir o tráfico de escravos na Idade Média, teríamos de dar o mesmo tempo de antena aos escravos e aos esclavagistas? Há uma questão moral. Quem não quer tomar partido pode ficar em casa a escrever sobre Deus. Não precisa de ser correspondente internacional."

No dia 11 de Setembro de 2001, o demagógico Robert Fisk fazia uma viagem de avião. Quando soube da notícia, avisou a tripulação. A assistente chefe de cabine começou então a fazer uma lista dos passageiros "suspeitos". Eram quase todos árabes. "Se alguém disser que isto mudou o mundo para sempre, Bin Laden terá ganho", pensou o cínico Fisk. Ele, a quem Bin Laden em pessoa tinha dito que ia lançar uma sombra sobre a América.

Dias depois, Fisk perguntou a um alto responsável da administração americana: "Porquê?" Porque terá acontecido este atentado? A pergunta, só por si, fazia dele, do curioso Fisk, uma pessoa perigosa e pró-terrorista, foi a resposta. Nesse mesmo dia, George W. Bush declarava que o mundo mudou para sempre. E se mudou realmente, para pior, a culpa não é do Presidente americano, nem do mais famoso terrorista do mundo. É dos jornalistas que adoptaram aquela frase como verdade, jura o mais famoso repórter do Médio Oriente.

"De cada vez que Bin Laden fala, a única preocupação dos jornalistas é saber se ele está vivo, se está de boa saúde, onde está, se aquela é realmente a voz dele. Ninguém quer saber do que ele diz." Pouco antes da invasão do Iraque, o líder da Al-Qaeda falou através da rádio, contou o comprometido Fisk. "Na guerra que vem aí, contra os cruzados, é legítimo que os muçulmanos se aliem com os baasistas", explicou ele, segundo o seu "amigo" Fisk. "E foi o que veio a acontecer", disse este. Devíamos ter prestado atenção a Bin Laden.

Depois da alocução inicial, o "superstar" Fisk respondeu a perguntas. "O que é realista fazer-se, no Médio Oriente?", pergunta alguém a medo. Fisk rosna. Literalmente rosna, antes de explicar como o Ocidente armou o Irão do Xá, como é legítimo que os iranianos queiram a bomba atómica, como há, hoje, no Médio Oriente, 22 vezes mais soldados do que no tempo das Cruzadas. "O que estamos lá a fazer? Porque não os deixamos em paz?" Respondendo a outra pergunta, o irritante Fisk explica que o chamado "falhanço da civilização islâmica" se deve à permanente ameaça ocidental.

"Quando se tem o inimigo à porta, não é tempo para pôr em causa o General, para pôr em causa o Líder, para pôr em causa o Livro." E não sai disto. Por mais que tentem trocar-lhe as voltas, o arrogante prodigiosamente inteligente Fisk acaba sempre por dizer à audiência que não haverá democracia nem paz no Médio Oriente, que a culpa é do Ocidente e dos jornalistas, e que Obama e Hillary não mudarão nada.

Quando, a bordo daquele avião cheio de "suspeitos", o teimoso Fisk soube dos atentados de Nova Iorque, pensou com os seus botões: "Não, a minha vida não vai mudar para sempre por causa disto."