E agora, quem vai querer representar Portugal?

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Em Portugal, o mais importante evento de arte contemporânea do mundo é um problema crónico. Desta vez, a seis meses da inauguração, ainda não há representante oficial. Com tão pouco tempo, a pergunta que muita gente faz já não é quem vai, é quem ainda quer ir

Houve edições polémicas, sim. Muito polémicas, mesmo. Mas nunca com o tipo de problemas que desta vez estão na mesa. A seis meses da inauguração da Bienal de Veneza - 7 de Junho a 22 de Novembro -, Portugal ainda não tem representante oficial para aquele que é o mais importante evento do calendário internacional das artes visuais, assumido como a grande, quase a única, aposta do Estado na internacionalização da criação nacional nesta área.

A tão pouco tempo do evento onde o mundo mostra de que é feita da sua aposta na Cultura, apenas três dos participantes habituais não terão ainda anunciado os seus representantes: Portugal, a Polónia e a Roménia, numa lista que, no ano passado, atingiu um pico de 77 participantes e que este ano deverá ainda subir, já que a bienal convidou pela primeira vez Andorra, os Emirados Árabes Unidos, o Gabão, o Mónaco e o Montenegro.

Para Portugal, é o maior atraso desde que a participação nacional ficou sistematizada, em 1997. Um atraso que poderá incorrer em custos elevados. Custos qualitativos, devido ao pouco tempo para planear, desenvolver e realizar um projecto. Custos financeiros, devido à celeridade com que todas as questões logísticas terão que ser resolvidas. E, por fim, custos em termos de retorno do investimento, porque, afinal, Veneza é uma questão de imagem e visibilidade e, mais que não seja, o resto do mundo parte com avanço em termos de promoção.

É um lado da questão. Do outro está uma participação que, em termos nacionais, começa a ficar desacreditada e em que a pergunta que anda na boca de toda a gente já não é quem vai ser o representante, mas sim quem vai aceitar o presente envenenado.

Em Portugal, Veneza 2009 começa a tornar-se uma anedota. Por exemplo, no blogue do antigo crítico de artes plásticas do semanário Expresso, Alexandre Pomar, que, a 7 de Novembro, escrevia: "O Ministério da Cultura está a tentar resistir a grandes pressões para que o Magalhães represente a arte portuguesa na próxima Bienal de Veneza e pôs ontem a correr o boato de que teria escolhido um realizador de cinema, Pedro Costa. Este nome não seria demasiado insólito, depois de várias escolhas infelizes em anos anteriores, mas não deixa de ser um péssimo sinal sobre o curso actual das artes plásticas portuguesas".

Aos 49 anos, Pedro Costa, realizador de filmes como Ossos, No Quarto da Vanda e Juventude em Marcha, foi, de facto, convidado. E Pomar não esteve sozinho na reacção contra a possibilidade sem precedentes em termos nacionais de um não artista plástico em Veneza. Vários artistas, galeristas e comissários consideram desde logo a escolha incompreensível, tendo o cinema as suas próprias instâncias de afirmação em festivais por todo o mundo e também um organismo próprio dedicado à sua promoção e divulgação - o Instituto do Cinema e do Audiovisual. Mas esta não foi uma posição única, havendo ainda os que defenderam que, com o progressivo esbatimento das fronteiras entre as artes, seria uma escolha pertinente, mais ainda tendo em conta o estatuto do escolhido, já em 2006 declarado pela influente Cinema Scope como um dos maiores realizadores do mundo e, em 2007, citado como um dos mais interessantes artistas do momento no balanço de fim de ano da Artforum, a mais conceituada revista de arte do mundo.

Para os defensores da ideia, aclamado em todo o mundo como realizador e com exposições marcadas para cidades relevantes ao longo dos próximos meses, Pedro Costa surgia como uma oportunidade de visibilidade rara para a participação portuguesa, acrescendo que nem sequer seria o único cineasta em Veneza, ao lado de Chantal Akerman, que ocupa o pavilhão da Bélgica, e até de Steve McQueen, Prémio Turner em 1999, que fez o percurso inverso e se estreou na realização cinematográfica, tendo ganho a Câmara de Ouro no Festival de Cinema de Cannes com Fome, agora no circuito comercial - McQueen é o representante do Reino Unido, um dos jogadores fortes da bienal.

Sem o convite oficializado, e com as negociações com Pedro Costa em impasse aparentemente definitivo, enredadas em problemas de bastidores ligados a questões de direitos de autor sobre material realizado pelo cineasta mas na posse de produtores e financiadores, um tema continua a causar mais consenso do que cisões: o facto de a Direcção-Geral das Artes (DGA) - ou seja, o Estado - ter feito um convite directo a um artista, gesto considerado pela maioria dos agentes do meio como involução sobre o modelo que tem prevalecido oficialmente e, segundo o qual, o Estado designa um curador que, por sua vez, aponta um artista. É o modelo vigente por exemplo no Reino Unido, onde o British Council tem um comité de selecção de 10 membros, e nos Estados Unidos, onde o comissário é escolhido por concurso público, cabendo-lhe depois a escolha do artista.

"É essencial salvaguardar dois princípios: de que o Estado está sempre a uma distância dos criadores superior ao comprimento do seu braço (um conceito que nos países anglo-saxónicos se chama arm's length), e que a liberdade criativa é salvaguardada e festejada na participação na bienal", escrevia a 17 de Novembro Delfim Sardo no blogue da Associação para o Desenvolvimento Económico e Social.

Erros repetidos

Comissário da participação portuguesa em 1999, quando o artista foi Jorge Molder, Delfim Sardo é um dos agentes que nada têm a apontar à escolha de Pedro Costa, mas que é taxativo sobre a forma como o cineasta foi escolhido: "Não acho que o Estado deva fazer escolhas directas, na medida em que o Estado deve ter uma estratégia, mas não deve ter um gosto. É perigoso o Estado ter gostos, porque eles correspondem apenas à estética de um poder, autoritária por natureza", diz ao P2.

Augusto M. Seabra, que acompanha questões de ética na Cultura no seu blogue, discorda da escolha, mas concorda com a distância que Delfim Sardo estabelece para o Estado: "É suposto as representações nacionais terem um mediador com saber especializado reconhecido. E supõe-se-lhe livre arbítrio para, precisamente, não surgir o espectro de uma arte oficial. O que se está neste momento a passar em Portugal é perturbador. Diria que, de certa maneira, as máscaras caem". Máscaras, pois: noutros anos, constaram em bastidores situações semelhantes à agora vivida. "Mas, apesar de tudo", ressalva Seabra, "eram pessoas que tinham uma obra e um currículo que, por si só, justificavam a presença. Neste caso, está-se no vácuo. É claro que o Pedro Costa é hoje um artista lato sensu, e dos mais reconhecidos. Mas seria uma triste ironia para o que é a sua obra ser uma escolha oficial".

Uma questão de "erros repetidos" e sobre os quais todos temos a nossa quota-parte de responsabilidade, diz o escultor José Pedro Croft, cujo nome surgiu como possibilidade no radar de convites da DGA. "Todos temos responsabilidades na maneira como se tem organizado Veneza", afirma. "Vivemos de forma passiva a achar que temos direito às coisas e não a lutar por elas. O Ministério da Cultura já conseguiu a proeza extraordinária de praticamente o único compromisso que tem com a arte contemporânea ser Veneza e mesmo assim trata-a assim!"

Lamentável, diz José Pedro Croft, que haja um intervalo de dois anos para preparar a bienal e que cheguemos a seis meses da sua inauguração sem um representante. O caso, diz ainda, tem que ser visto de uma forma mais global, no contexto do que é o papel do Ministério da Cultura na promoção da visibilidade de Portugal na cena internacional e, internamente, na promoção da produção artística. Um papel "completamente subalterno em relação aos ministérios da Economia e dos Negócios Estrangeiros": "É um sinal político sobre a forma como o Governo entende o papel da Cultura".

"Tudo está desfocado, fora dos eixos", diz José Pedro Croft, que, como a maioria dos artistas, diz que qualquer projecto sério para a bienal precisa de um ano de preparação, estando idealmente tudo pronto com seis meses de antecedência. Um ano: sensivelmente a margem disponível mesmo em anos particularmente polémicos, como 2003 e 2005.

Em 2003, com Pedro Cabrita Reis como representante, os sinais de alarme tocaram quando, a quatro meses da inauguração, se soube que não estavam ainda assinados os contratos de aluguer de espaço expositivo, residência para a comitiva e equipa de montagem e divulgação. Já em 2005 a polémica voltou a estalar quando, com Helena Almeida como artista, a mesma questão se viu mergulhada no silêncio durante meses, para depois o orçamento descer para menos de metade da edição anterior, acabando em 320 mil euros para uma exposição confinada a um diminuto edifício de 120 metros quadrados divididos por três andares. Mesmo assim, a um ano da bienal Pedro Cabrita Reis estava a trabalhar no seu projecto e Helena Almeida estava anunciada como representante a oito meses do evento.

Desta vez, o espaço expositivo não é questão: o Fondaco Marcello, um edifício térreo de 360 metros quadrados, foi contratualizado em 2007 para duas edições da bienal (mais duas da bienal de arquitectura) por 90 mil euros por ano, deixando temporariamente de parte aquele que tem sido o mais grave dos problemas portugueses em Veneza, com episódios como o de 1976 e 1978, quando Portugal ficou num pavilhão emprestado pela coligação dos Países Nórdicos, tendo depois voltado às tendas colectivas, ao lado da Colômbia, da Albânia e da Costa Rica e ficando ausente em várias edições seguintes.

É sempre o Estado

A participação portuguesa só se tornou sistemática em 1997, com Julião Sarmento como representante oficial. Com quatro representantes de permeio - Molder em 1999, João Penalva em 2001, Cabrita Reis em 2003 e Helena Almeida em 2005 - na última edição Ângela Ferreira teve comissariado de Jürgen Bock. Alemão residente em Portugal, Jürgen Bock dá o exemplo do seu país de origem: "Hoje, na Alemanha, o Estado é muito cauteloso a falar sobre temas que desconhece. Opta pela maneira mais 'limpa'". Mas, mesmo um modelo semelhante ao britânico, uma escolha, sublinha, é sempre um "catch 22": "Pessoalmente, adorei a liberdade que tive, mas alguém também me escolheu a mim. Mesmo que se defina uma comissão, é sempre o Estado ou alguém por ele que a escolhe. E as situações às vezes não são a preto e branco."

Jürgen Bock desmistifica a polémica portuguesa: "Há um entendimento do mundo da arte de que se escolhe um curador e este escolhe um artista. Teoricamente esta é a ideia. Mas o que aconteceu em Portugal acontece também noutros países, percebe-se isso quando se fala com comissários a nível internacional. Não tenho uma opinião clara. Acho que depende das circunstâncias. Há artistas que se calhar não me importava de comissariar ainda que não tivessem sido escolhidos por mim."

Jürgen Bock dá um exemplo que serve a quem defenda qualquer dos lados da questão: na última edição da bienal a representante francesa, Sophie Calle, anunciou estar à procura de comissário. "Estava a levantar precisamente esse tema." À frente da DGA, Jorge Barreto Xavier não comenta qualquer aspecto ligado à 53ª edição da bienal, dizendo apenas que "o ou a representante será anunciado o mais brevemente possível".