Os Plhçs chgarm à Cdd

Talvez seja um lugar já demasiado comum associar a vida moderna nas grandes cidades à velocidade. Mas não deixará de ser uma associação válida. Corremos cada vez mais. Apressamo-nos cada vez mais e inventamos cada vez mais maneiras de abreviar. Na vida, nas mensagens de telemóvel e, agora, o Teatro Meridional, até no título do seu mais recente espectáculo, Velocidade dito VLCD!, como se não houvesse tempo para mais.

Subtitulado "Do lugar onde estou já me fui embora", este soberbo trabalho, encenado por Nuno Pino Custódio, teatraliza a voracidade dos tempos modernos e das vidas citadinas. Mas aqui, numa bela ideia de subversão temática ou de paródia, a trágica pressa das nossas vidas é traduzida por quatro clowns que correm contra o tempo. Sobre um tapete de tons castanhos com um padrão labiríntico (sinalizando, possivelmente, as ruas confusas de uma cidade), limitado por um muro de várias malas de viagem, quatro personagens mimam cenas da vida do dia-a-dia de uma urbe buliçosa.

A narrativa é extremamente simples: uma mulher busca o amor.

Mas esta linha narrativa é cruzada por outros segmentos que se vão constituindo em micronarrativas e que vão dando o tom geral do espectáculo: o de uma desarmante tragicidade cómica.

O estranho imaginário de VLCD evoca universos tão díspares como o becketiano ou o de Wim Wenders: há um sopro trágico que paira sobre todo o espectáculo, ainda que este seja construído sob o signo da alegria. Esta sombra de desalento deixa-se entrever (mais claramente) nos breves segundos em que a luz, perdendo o recorte do tapete, deixa ver toda a dimensão do Espaço da Mitra: alto, vazio e frio, melhor denuncia a pequenez dos palhaços e a artificialidade da representação.

Os quatro actores constroem figuras de uma beleza aflitiva: um palhaço triste (Miguel Seabra), um Buster Keaton elástico (Luciano Amarelo), uma frágil boneca de trapos (Carla Maciel) e um transeunte-músico (Fernando Mota), todos com interpretações rigorosas e magníficas.

É assombroso assistir ao trabalho de Miguel Seabra: aqui, jogando com contenção e desequilíbrio, a sua figura reservada, de chapéu e gabardine, atravessa o espectáculo como se estivesse sempre dois passos à frente. Cabe também a Seabra ir marcando o refrão do espectáculo nas breves cenas em que brinca com o chapéu. Com efeito, é com este chapéu que VLCD começa e é com ele que terminará.

Não obstante o rigor do trabalho, o solo final de Seabra talvez peque por ser excessivamente longo e por provocar algum desequilíbrio.

Mais histriónico, Luciano Amarelo é um clown extremamente versátil, dando ao seu jogo uma densidade de grande credibilidade e, ao mesmo tempo, uma leveza e um prazer contagiantes. Carla Maciel, que se vem revelando exímia em vários registos, é absolutamente enternecedora: cria uma figura que, ainda que seja o resultado da composição de vários elementos clownescos (rolos na cabeça, tiques de ave, etc...), nunca perde de vista o seu referente real uma mulher na cidade. Fernando Mota, desta vez emprestando mais que a sua (aparentemente inesgotável) criatividade musical, cria também um clown que vai pontuando musicalmente o espectáculo e que é determinante na construção de toda a sua atmosfera.

De novo num universo onde a palavra não é a principal forma de comunicação cénica, desta vez as personagens usam uma linguagem inventada (vagamente alemã, vagamente inglesa mas absolutamente cómica).

Estamos perante mais um feliz momento do Meridional, sem dúvida. Contudo, talvez falte a VLCD um fôlego "maior que a vida" que outros trabalhos já tiveram. Mas o extraordinário rigor e o poder de comunicação estão seguramente lá.

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