The Dodos são melhores que os Arcade Fire?

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Os Dodos são de São Francisco, mas podiam ser de Brooklyn: versão acústica da electricidade celebratória dos Vampire Weekend ou dos Arcade Fire.

Os americanos The Dodos vive actualmente em São Francisco, mas podiam perfeitamente viver em Brooklyn, Nova Iorque, como os Vampire Weekend, ou em Montreal, Canadá, como os Arcade Fire. Com os primeiros partilham a inspiração africana. Com os segundos o tom celebratório, são a versão folk acústica da sua electridade rock.

Convenhamos, mesmo com a geração neo-folk na crista da onda, a simples menção da palavra folk traz-nos melancolia, prados verdes com vaquinhas açorianas, pés descalços em riachos, relações mal resolvidas com miúdas - com os pais, os pais são sempre os culpados.

Pois, mas os Dodos, ou seja o compositor, vocalista e guitarrista Meric Long e o baterista Logan Kroeber, têm pouco disso. Fazem folk, mas tocada a 78 rotações. Dylan não é com eles, ai que horror!, e fazem bem. Fazem folk, mas apenas porque não conseguem fazer electropop. Em vez de se recolherem sobre si próprios, olham o mundo de frente, gritam-no com ganas de o celebrarem em comunidade. Quem já os viu ao vivo sabe que é assim. Meric senta-se, afina a guitarra e aí vai ele, enquanto o baterista é acometido por sucessivos ataques de epilepsia.

Em "Visiter", o magnífico álbum deste ano - que vai ter distribuição oficial em Portugal dentro de duas semanas - há algumas canções que remetem para o universo lírico dos Magnetic Fields de Stephin Merritt, mas a maioria são cavalgadas folk com os Vampire Weekend, os The Feelies e Arcade Fire lado a lado, a verem quem chega primeiro à meta, batidos no último instante pela energia adolescente dos Dodos.

É pouco crível que tenham muito público para os ver nesta primeira aventura portuguesa (tocam hoje, no Salão Brasil em Coimbra, e amanhã no MusicBox, em Lisboa) e é pena. Como os High Places, Animal Collective ou Yeasayer sente-se na sua música uma vontade de partilhar em grupo e fazer a festa que não é vulgar. A voz de Meric é como uma corneta melosa, lembra Elliot Smith, mas sem o suicídio.

Às vezes é também comparado a Avey Tare, um das vozes dos Animal Collective. O visado não recusa a comparação, "gosto bastante deles", dizia em Abril ao "New York Times", mas para surpresa de alguns, prefere citar a voz de Paul Humphreys e a pop electrónica dos anos 80 do seu grupo, os OMD (Orchestral Manouvres In The Dark) como modelos. Veteranos da escola minimalista, como Steve Reich e Philip Glass, são também referidos como sendo das principais influências.

Transe saudável

Inicialmente os Dodos eram o projecto solitário de Meric, mas o facto de ter estudado percussão africana levou-o a querer um baterista. Foi assim que chegou a Logan Kroeber, que andava também a estudar percussão, mas na área do metal progressivo. Quando se juntaram os dois, as linhas direitas da folk entortaram-se, desdobraram-se, descobriram novas harmonias, num delírio mutante de ritmos exóticos. Em 2006 lançaram o álbum "Beware Of The Maniacs", que passou despercebido, talvez porque, como afirmou Meric, "a percussão ainda não desempenhava um papel central na nossa música e os ritmos sincopados ainda não saíam convenientemente da minha guitarra".

Quando os dois se começaram a entender o falatório lá na cidade natal começou, a comunidade virtual global apoiou e os concertos nunca mais cessaram. "Estava à procura de alguém para a percussão e imaginava uma música que fosse muito centrada no ritmo, mas não de uma maneira tradicional", explicou Meric ao "Los Angeles Times". "Queria qualquer coisa que desafiasse os cânones do rock ocidentalizado, que fugisse a essa rigidez habitual e parece-me que conseguimos. Em alguma música africana encontramos essa sobreposição de elementos rítmicos, uma espécie de transe saudável."

Ele tem toda a razão. A pop andou de costas voltadas para a bateria muitos anos. Os vocalistas davam entrevistas, os guitarristas autógrafos, os baixistas espalhavam charme, timidamente. Os bateristas que trabalhassem. Sim, houve a bateria de Jaki Liebzeit dos Can ou de Peter Hook nos Joy Division e nos New Order, mas são excepções que confirmam a regra. O baterista sempre foi o parente pobre de qualquer banda. Mas em 2008 eis a percussão a dominar. Dos High Places aos Ruby Suns, do espanhol El Guincho aos portugueses Gala Drop, passando pelos americanos No Age, toda a gente parece ter começado a descobrir as potencialidades das oscilações polirritmicas.

No caso dos Dodos, misturam os estilos percussivos de alguma música proveniente do Gana e do Togo, com harmonias folk, o fervor pós-tribalista dos Animal Collective e um ambiente radioso, talvez do Sol da Costa Oeste dos Estados Unidos. Aquilo que fazem é pop. Mas, se quiserem, também pode ser pop astral. Música de dança acústica jubilatória. Ou folk heróica. Não interessa. O que interessa é que conseguem passar para a música o que lhes está a passar pela cabeça. Conseguem imaginar coisa mais libertadora? Não chega para serem melhores que os Arcade Fire, mas também, pensem lá, quem o é?